<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[Matheus Araújo - Literatura]]></title><description><![CDATA[Contos, Crônicas e Críticas]]></description><link>https://matheusaraujo.substack.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!f0v7!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fmatheusaraujo.substack.com%2Fimg%2Fsubstack.png</url><title>Matheus Araújo - Literatura</title><link>https://matheusaraujo.substack.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Wed, 19 Aug 2026 03:59:29 GMT</lastBuildDate><atom:link href="https://matheusaraujo.substack.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Matheus Araújo]]></copyright><language><![CDATA[en]]></language><webMaster><![CDATA[matheusaraujo@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[matheusaraujo@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Matheus Araújo]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Matheus Araújo]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[matheusaraujo@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[matheusaraujo@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Matheus Araújo]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[Crônicas da Copa 08: o último dos brasileiros]]></title><description><![CDATA[O triste fim de Neymar Jr. na Sele&#231;&#227;o.]]></description><link>https://matheusaraujo.substack.com/p/cronicas-da-copa-08-o-ultimo-dos</link><guid isPermaLink="false">https://matheusaraujo.substack.com/p/cronicas-da-copa-08-o-ultimo-dos</guid><dc:creator><![CDATA[Matheus Araújo]]></dc:creator><pubDate>Mon, 06 Jul 2026 14:34:47 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!vx-S!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff43cc27e-af3d-4712-86ee-43c9845858bc_1200x680.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text"><strong>Lamento para Neymar Jr. </strong>

&#8220;O rei est&#225; sem coroa!&#8221;,
diz o grito da torcida,
quem at&#233; ontem lhe queria
v&#234; a vida que lhe escoa.

Derrotado e deprimido, 
nem pr&#237;ncipe nem mendigo,

mas um artista solit&#225;rio
ao criar suas obras-primas
pintava o campo, seu cen&#225;rio,

de realeza anacoreta &#8212;
sem ver sua obra completa.</pre></div><p></p><p>Era segunda-feira e eu me levantava da cama de mau humor. Tomava banho, me trocava, comia alguma coisa e partia, com a minha mochila debaixo de um sol congol&#234;s para aguardar a chegada do meu &#244;nibus que ia lotado do in&#237;cio ao fim at&#233; a minha escola, do outro lado da cidade. Nos intervalos, os di&#225;logos costumavam sempre seguiam as seguintes linhas:</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://matheusaraujo.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Matheus Ara&#250;jo - Literatura! Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>&#8212; Voc&#234; viu?</p><p>&#8212; Vi o qu&#234;?</p><p>&#8212; O jogo ontem. O que o Neymar fez.</p><p>E ent&#227;o os garotos tentavam imitar os movimentos &#8212; uma pedalada, um chap&#233;u, uma lambreta, um rabisco entre cinco zagueiros, um gol de cobertura ou driblando o goleiro, mas sempre (sempre) humilhando os advers&#225;rios.</p><p>Alguns dos jogos de Neymar foram a minha primeira experi&#234;ncia (j&#225; na fase minimamente racional da vida, quando deixei de ser s&#243; pequenino e orelhudo como elefante de circo) de que eu estava diante de um craque, uma sumidade, algu&#233;m que jogava outro esporte.</p><p>O gol rabiscando todos contra o Internacional, as soberbas apresenta&#231;&#245;es na Libertadores, as provoca&#231;&#245;es, as brincadeiras, as pernas que sorriam diante do perigo iminente, os lances fatais que destru&#237;am os outros times. E lembro-me dos zagueiros, goleiros, volantes, atacantes e t&#233;cnicos que criticavam seu estilo, seu jeito de jogar, seu excesso de talento.</p><p>Odiado por ser perfeitamente brasileiro, Neymar foi o bode expiat&#243;rio, de 2010 at&#233; 2026, das derrotas brasileiras. Em 2010, a culpa foi a sua aus&#234;ncia. Em 2014, sua les&#227;o foi um dos motivos do desequil&#237;brio mental que nos levou ao maior vexame da nossa hist&#243;ria. Em 2018, quando o tapado Tite tomou um n&#243; t&#225;tico da retranqueira B&#233;lgica, recaiu sobre ele a culpa, chamado de cai-cai. Em 2022, quando o mesmo Tite levou outro n&#243; t&#225;tico dos catimbeiros croatas, foi o fato de Neymar n&#227;o bater o primeiro que gerou muita indigna&#231;&#227;o. Em 2026, quando ele converteu o segundo p&#234;nalti da partida, automaticamente vieram os coment&#225;rios: se ele estivesse em campo, teria batido o primeiro, n&#227;o ter&#237;amos perdido.</p><p>Durante 16 anos a Sele&#231;&#227;o orbitou em torno de Neymar. E n&#227;o me digam que ele n&#227;o correspondeu. Sempre foi o &#250;nico que parecia se preocupar, puxar o jogo, chamar a responsabilidade, buscar a vit&#243;ria a qualquer custo. Sem nunca ter um Bebeto ou um Garrincha para chamar de seu, tentava improvisar parcerias que nunca lhe corresponderam em talento ou gana.</p><p>Nesta copa, fui contra a sua convoca&#231;&#227;o. Estava errado. Vimos o que ele fez: um gol nos seus &#250;ltimos minutos de uma Copa do Mundo, um fim melanc&#243;lico para um dos &#250;ltimos &#8212; tomara que n&#227;o <em>o &#250;ltimo</em> &#8212; que jogam como um aut&#234;ntico canarinho, encantando, driblando, levitando pelo campo. E sua discuss&#227;o com o goleiro advers&#225;rio mostra isso: &#8220;comigo, n&#227;o!&#8221;.</p><p>E agora? Acabaram-se as desculpas. O bode expiat&#243;rio cedeu o pesco&#231;o para a degola e encerrou o ciclo de sacrif&#237;cios. Ou eleger&#227;o um pr&#243;ximo ou criar&#227;o vergonha na cara.</p><p>A Sele&#231;&#227;o perdeu para si mesma. Sua falta de vontade, sua aus&#234;ncia de for&#231;a an&#237;mica e sua pregui&#231;a a fez ceder a bola, o campo e a vit&#243;ria a um time claramente mais fraco, com menos pe&#231;as, menos tradi&#231;&#227;o &#8212; mas mais clareza de seus objetivos.</p><p>&#201; o fim, ent&#227;o, de uma gera&#231;&#227;o fracassada. Que n&#227;o s&#243; perdeu, mas foi derrotada das maneiras mais amargas e covardes da nossa hist&#243;ria. E perderam a copa mais favor&#225;vel para a vit&#243;ria dos &#250;ltimos anos.</p><p>E &#233; o fim, tamb&#233;m, de Neymar na Sele&#231;&#227;o &#8212; o &#250;ltimo dos brasileiros.</p><p></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!vx-S!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff43cc27e-af3d-4712-86ee-43c9845858bc_1200x680.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!vx-S!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff43cc27e-af3d-4712-86ee-43c9845858bc_1200x680.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!vx-S!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff43cc27e-af3d-4712-86ee-43c9845858bc_1200x680.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!vx-S!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff43cc27e-af3d-4712-86ee-43c9845858bc_1200x680.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!vx-S!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff43cc27e-af3d-4712-86ee-43c9845858bc_1200x680.jpeg 1456w" sizes="100vw"><img src="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!vx-S!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff43cc27e-af3d-4712-86ee-43c9845858bc_1200x680.jpeg" width="1200" height="680" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/f43cc27e-af3d-4712-86ee-43c9845858bc_1200x680.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:680,&quot;width&quot;:1200,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:null,&quot;alt&quot;:&quot;Neymar chora ajoelhado ap&#243;s Brasil perder para a Noruega e cair nas oitavas  da Copa; veja v&#237;deo | Al&#244; Al&#244; Bahia&quot;,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:null,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="Neymar chora ajoelhado ap&#243;s Brasil perder para a Noruega e cair nas oitavas  da Copa; veja v&#237;deo | Al&#244; Al&#244; Bahia" title="Neymar chora ajoelhado ap&#243;s Brasil perder para a Noruega e cair nas oitavas  da Copa; veja v&#237;deo | Al&#244; Al&#244; Bahia" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!vx-S!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff43cc27e-af3d-4712-86ee-43c9845858bc_1200x680.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!vx-S!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff43cc27e-af3d-4712-86ee-43c9845858bc_1200x680.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!vx-S!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff43cc27e-af3d-4712-86ee-43c9845858bc_1200x680.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!vx-S!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff43cc27e-af3d-4712-86ee-43c9845858bc_1200x680.jpeg 1456w" sizes="100vw" loading="lazy"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://matheusaraujo.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Matheus Ara&#250;jo - Literatura! 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Palpite para Brasil X Noruega.]]></description><link>https://matheusaraujo.substack.com/p/cronicas-da-copa-07-vozinha-e-os</link><guid isPermaLink="false">https://matheusaraujo.substack.com/p/cronicas-da-copa-07-vozinha-e-os</guid><dc:creator><![CDATA[Matheus Araújo]]></dc:creator><pubDate>Sun, 05 Jul 2026 13:44:48 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!neWW!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F20ab584f-30e4-4be0-aea8-3904826a9461_950x593.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span>&#9;Criou-se a narrativa nesta Copa do Mundo de que, ao mesmo tempo que a Sele&#231;&#227;o Brasileira &#233; um catado de p&#233;s-rapados, grupos como Fran&#231;a e Argentina s&#227;o quase invenc&#237;veis, intoc&#225;veis, perfeitos. J&#225; vi os compararem ao Brasil de 70, &#224; Holanda de Cruyff, &#224; Alemanha de Beckenbauer e tudo o mais.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#9;Que tais sele&#231;&#245;es possuem qualidade, isso &#233; claro. Mas que s&#227;o imbat&#237;veis e devemos tremer de medo diante delas? V&#225;.</span></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://matheusaraujo.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Matheus Ara&#250;jo - Literatura! 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Precisam de um grande plantel, um grande t&#233;cnico e um bocado de sorte para vencer. Foi assim com Fran&#231;a e Argentina em 18 e 22. Mas n&#227;o parece ser agora.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#9;A Argentina (refor&#231;o: ajudada pela arbitragem em todos os jogos at&#233; agora, com a n&#227;o expuls&#227;o de Messi no primeiro jogo, com faltas na beirada da &#225;rea e um p&#234;nalti duvidoso) est&#225; com um time mais velho, cansado fisicamente, sem pontas (lembre-se do que fez Di Maria na &#250;ltima Copa, um jogador de vital import&#226;ncia para o time). E que n&#227;o havia sido testado at&#233; o &#250;ltimo jogo.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#9;Enquanto os falsos brasileiros se regozijavam com as el&#225;sticas vit&#243;rias dos hermanos e os in&#250;meros gols de Messi em sele&#231;&#245;es como &#193;ustria, Jord&#226;nia e Arg&#233;lia, a farsa ainda se mantinha. Mas, veio Cabo Verde e seu time organizado, honesto e cheio de ra&#231;a, com seu goleiro Vozinha que desafia o tempo, e as m&#225;scaras ca&#237;ram, a cortina abriu-se antes da hora, o macaco foi pego com a m&#227;o na cumbuca: a Argentina &#233; um time cansado, velho e desorganizado, que at&#233; hoje comemora o t&#237;tulo de 22, e precisou que um time de humildes grandes jogadores viesse de ilhotas no meio do Atl&#226;ntico para demonstrar isso.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#9;Algo semelhante aconteceu com a Fran&#231;a.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#9;Ouvia-se que eles jogavam de forma t&#227;o bonita quanto a Sele&#231;&#227;o de 70. Que sua genialidade era tanta que ningu&#233;m poderia par&#225;-los. Seus jogadores eram quase Jairzinhos, Garrinchas, Gersons, Tost&#245;es, Pel&#233;s. E estes mesmos franceses, assim que viram Paraguai e seu &#244;nibus estacionado, logo perderam a beleza de seu jogo, a magia nos seus p&#233;s, a sua t&#225;tica inigual&#225;vel.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#9;Partiram para a boa e velha porradaria (la bendita Libertadores!), fizeram mais faltas e levaram mais cart&#245;es que os paraguaios &#8212; e fizeram cera, e deram pis&#245;es, sopapos, pontap&#233;s; e fizeram provoca&#231;&#245;es, zoa&#231;&#245;es, xingamentos; e, num lapso de um zagueiro, ganharam um p&#234;nalti, fizeram um gol e passaram. Mas, pasmem, sem jogar nada.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#9;Se o Brasil mantiver a toada ancelottiana de crescimento, a vit&#243;ria &#233; poss&#237;vel. Como j&#225; disse, estamos em um caminho mais f&#225;cil do que aquele que estivemos em 10, 14, 18 ou 22 &#8212; veremos se ir&#225; se concretizar.</span></p><p style="text-align: center;"><span>***</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#9;Ainda me enojam os brasileiros torcendo para a Argentina. Ou tratando-os como semideuses. No &#250;ltimo jogo deles, pude escutar o que dizia o narrador Luizinho da Caz&#233;TV (geralmente, nos outros jogos, n&#227;o consigo ouvi-lo, porque meus filhos n&#227;o deixam). Ele narrava ajoelhado, como quem reza suplicante diante da Virgem Maria.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#9;Incapaz de ver o jogo, tapado pela sua cegueira amorosa e id&#243;latra aos argentinos e, em especial, ao Messi (em certos momentos, implorava para passarem a bola ao Messi, pedia que o goleiro errasse a defesa, que, por Deus!, Messi fizesse mais um. Messi! Messi! Messi!).</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#9;Meu pai morreu muito cedo, aos trinta e poucos anos, do cora&#231;&#227;o. De modo que s&#243; tenho duas lembran&#231;as de Copa do Mundo com ele: 2006 e 2010.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#9;A de 06 lembro muito, muito pouco. Puxando da mem&#243;ria, com imagens emba&#231;adas, me recordo de ver alguns jogos nas fases de grupo na casa da minha av&#243; e me lembro bem do sentimento da desclassifica&#231;&#227;o, do gol feito por Henry, do &#243;dio que senti pelos franceses e da vergonha colossal que me abateu por estar vestido com aquela roupa, de chap&#233;u verde amarelo, de apito na m&#227;o, cara pintada, enquanto os jogadores passavam aquele vexame.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#9;A de 2010 lembro bem mais. Mas lembro de um jogo em especial: 3 de julho, Cidade do Cabo. No Brasil, pairava um ar de infelicidade e revolta, uma esp&#233;cie de &#8220;eu avisei&#8221; rancoroso ap&#243;s a elimina&#231;&#227;o da Sele&#231;&#227;o pela Holanda, de forma rid&#237;cula e desequilibrada, na conta de dois jogadores que, n&#227;o sei como nem porqu&#234;, hoje ainda s&#227;o vistos como grandes, que &#8220;jogavam muito&#8221;, dando at&#233; entrevistas, comentando futebol como se n&#227;o tivessem cometido crimes futebol&#237;sticos terr&#237;veis&#8230;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#9;Enquanto isso, l&#225; em casa, uma briga: meu irm&#227;o, tomado pelo desejo de ser eternamente do contra, come&#231;ava sua torcida pelo novo &#237;dolo &#8212; um baixinho argentino que j&#225; diziam ser o novo Maradona.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#9;Eu considerava um ultraje. Meu pai, um disparate. E, talvez, por isso mesmo ele torcia cada vez mais. Se j&#225; havia sido desesperador ver o Brasil perder de maneira t&#227;o burra e despreparada, ver a Argentina ter um novo Maradona e vencer a Alemanha, uma rival hist&#243;rica e um time melhor, seria o fundo do po&#231;o.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#9;Mas n&#227;o: um, dois, tr&#234;s, quatro a zero. A Alemanha, com a sua t&#237;pica frieza de Schweinsteiger, Klose, M&#252;ller e essa galera toda, enfiou a borracha no time comandado por Dom Armando e o transformou em p&#243;.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#9;Meu pai ria, comemorava, zombava, apontava o dedo para o meu irm&#227;o, dan&#231;ava, gritava. E ali entendi: o segundo objetivo de um torcedor, depois de apoiar a sele&#231;&#227;o brasileira, &#233; torcer pela fal&#234;ncia completa, pela derrota humilhante e pela total descredibiliza&#231;&#227;o da sele&#231;&#227;o argentina.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#9;Meu pai morreria uns quatro meses depois daquilo. Mas, sem d&#250;vidas, essa &#233; uma importante lembran&#231;a.</span></p><p style="text-align: center;"><span>***</span></p><p style="text-align: justify;">      Manual de como torcer na Copa do Mundo:</p><ul><li><p style="text-align: justify;"><span>Pelo Brasil, antes de tudo ou qualquer coisa;</span></p></li><li><p style="text-align: justify;"><span>Contra a Argentina, antes de tudo ou qualquer coisa;</span></p></li><li><p style="text-align: justify;"><span>Se nenhuma das sele&#231;&#245;es estiver presente, torcer pela de menor IDH;</span></p></li><li><p style="text-align: justify;"><span>Mas, entre as de menor IDH, que prevale&#231;am as latino-americanas (com exce&#231;&#227;o, claro, da Argentina);</span></p></li><li><p style="text-align: justify;"><span>As africanas devem estar em segundo escal&#227;o de torcida &#8212; depois do Brasil, depois da Am&#233;rica Latina (sem Argentina), deve vir qualquer time do continente africano, do Saara ao sul;</span></p></li><li><p style="text-align: justify;"><span>Sele&#231;&#245;es que j&#225; s&#227;o boas em outros esportes, como os ol&#237;mpicos, n&#227;o precisam da nossa torcida ou caridade (a exemplo de R&#250;ssia, China ou Estados Unidos, principalmente este &#250;ltimo);</span></p></li><li><p style="text-align: justify;"><span>Dentre as sele&#231;&#245;es europeias, Portugal deve ter a prefer&#234;ncia da nossa torcida, pelas nossas ra&#237;zes, idioma, hist&#243;ria e por Cam&#245;es e Fernando Pessoa (e nunca por Saramago);</span></p></li><li><p style="text-align: justify;"><span>Entre os europeus, Fran&#231;a, Alemanha, Inglaterra e It&#225;lia, nessa ordem, devem ter toda a nossa torcida negativa (mas, confesso, estou ficando com pena da It&#225;lia e uma parte, pequena, de mim torce para que ela se classifique para a pr&#243;xima Copa);</span></p></li><li><p style="text-align: justify;"><span>Se o jogo for entre duas sele&#231;&#245;es europeias, torcer para aquela que daria a melhor zebra;</span></p></li><li><p style="text-align: justify;"><span>Entre Fran&#231;a e Argentina, torcer pela bomba no est&#225;dio.</span></p></li></ul><p style="text-align: justify;"><span>Aplica&#231;&#227;o pr&#225;tica:</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Canad&#225; x Marrocos = Marrocos<br>Paraguai x Fran&#231;a = Paraguai</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Brasil x Noruega = Brasil<br>M&#233;xico x Inglaterra = M&#233;xico</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Portugal x Espanha = Portugal<br>EUA x B&#233;lgica = B&#233;lgica</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Argentina x Egito = Egito<br>Su&#237;&#231;a x Col&#244;mbia = Col&#244;mbia.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#9;Espero ter sido claro. </span></p><p style="text-align: center;"><span>***</span></p><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text"><strong>Vozinha e Cabo Verde</strong>

Seu tempo corre ao contr&#225;rio;
Seu ponteiro, &#224;s avessas.
Quebrada a ampulheta
Faz do dia um fals&#225;rio.

En&#233;as vencendo Turno,
Um Zeus contra Saturno,

Resiste, port&#245;es de Tr&#243;ia,
Por um povo, que ao lutar,
N&#227;o espera pela vit&#243;ria,

Nem se curva nem se humilha &#8212;
S&#243; um homem &#233; uma ilha.
</pre></div><p style="text-align: center;"><span>***</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#9;Hoje, &#224;s 17h, ser&#225; Brasil X Noruega. N&#227;o imagino jogo f&#225;cil. Meu palpite &#233; 3x2.</span></p><p style="text-align: justify;"></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!neWW!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F20ab584f-30e4-4be0-aea8-3904826a9461_950x593.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!neWW!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F20ab584f-30e4-4be0-aea8-3904826a9461_950x593.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!neWW!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F20ab584f-30e4-4be0-aea8-3904826a9461_950x593.jpeg 848w, 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class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" 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Um poema para Martinelli.]]></description><link>https://matheusaraujo.substack.com/p/cronicas-da-copa-06-sem-sofrimento</link><guid isPermaLink="false">https://matheusaraujo.substack.com/p/cronicas-da-copa-06-sem-sofrimento</guid><dc:creator><![CDATA[Matheus Araújo]]></dc:creator><pubDate>Thu, 02 Jul 2026 21:01:52 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!1BiU!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5e35834e-cf9b-41f7-a209-d2b0e3dbeb73_5124x2887.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span>&#201; amplamente conhecido na literatura cat&#243;lica que o sofrimento, e s&#243; o sofrimento, nos faz crescer o esp&#237;rito, engrandecer as nossas for&#231;as, erguer a nossa fortaleza. Suportar as humilha&#231;&#245;es, o achincalhamento, as cusparadas, os disparates, as tristezas e as vaias &#233; condi&#231;&#227;o </span><em><span>sine qua non </span></em><span>para o desenvolvimento do ser e para alcan&#231;ar a maturidade.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Nas &#250;ltimas copas, o Brasil se desacostumou a sofrer. A lembran&#231;a do Tri e da sele&#231;&#227;o de 70 fez toda uma gera&#231;&#227;o crer, da Copa de 2006 para frente, que sempre vencemos dominando, humilhando os advers&#225;rios e esmigalhando-lhes as cabe&#231;as. Esse del&#237;rio coletivo, ilus&#227;o ostentada pela m&#237;dia e por ex-jogadores que, em entrevistas aqui e podcasts acol&#225;, fazem crer que foi tudo f&#225;cil e muito m&#225;gico, tanto nos custou algumas copas (a de 2006 e a de 2014, em espec&#237;fico) quanto adoeceu as mentes da torcida brasileira.</span></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://matheusaraujo.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Matheus Ara&#250;jo - Literatura! 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T&#227;o de salto alto e totalmente descrentes da possibilidade de fracasso, entravam em desespero ap&#243;s o gol advers&#225;rio, uma vez que estar atr&#225;s do placar nem lhes passava na cabe&#231;a. Da&#237; as desclassifica&#231;&#245;es contra a Fran&#231;a de Henry e Zidane, a Holanda de Robben e Sneijder, a B&#233;lgica de Hazard e De Bruyne. Jogadores tremendo diante do gol, pernas bambeando, os primeiros derrotados antes do apito final. N&#227;o &#224; toa o Brasil n&#227;o virava um jogo na copa desde 2002 contra a Inglaterra.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Eu disse anteriormente nestas cr&#244;nicas que toda vit&#243;ria passa primeiro pelo inferno. Ulisses e Eneias foram ao Hades; Jonas foi engolido pelo peixe; H&#243;rus cresceu em ex&#237;lio. S&#243; h&#225; gra&#231;a no sofrimento: quem n&#227;o v&#234; a derrota frente a frente, com os pr&#243;prios olhos, n&#227;o valorizar&#225; a vit&#243;ria, como tantas e tantas vezes j&#225; fizemos.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Derrotar o Jap&#227;o, de virada, no finalzinho, com gols de dois jogadores desacreditados, foi uma fundamental e important&#237;ssima etapa da nossa jornada rumo ao hexa.</span></p><p style="text-align: center;"><span>***</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Eu n&#227;o serviria para ser jogador de futebol. Primeiro, porque n&#227;o levo jeito para a coisa e n&#227;o teria a disciplina de um atleta &#8212; n&#227;o &#224; toa estou aqui escrevendo cr&#244;nicas de futebol enquanto meu romance e meu livro de contos repousam em alguma pasta perdida e empoeirada do meu drive. Segundo, porque eu n&#227;o saberia suportar, como deve ser a virtude dos vencedores, o sofrimento de uma derrota, de uma injusti&#231;a, de uma batalha perdida.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Ali&#225;s, n&#227;o suportei. Explico.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Na inf&#226;ncia, jogando como goleiro, fui campe&#227;o pernambucano de futsal jogando pelo Clube N&#225;utico Capibaribe (clube pelo o qual, ali&#225;s, n&#227;o tor&#231;o, mas nutro respeito, apesar do derrotismo e do fracasso que os acompanha desde sempre).</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Fazia escolinha de futsal para matar o tempo, me movimentar e porque meu irm&#227;o tamb&#233;m fazia. Ele levava mais a s&#233;rio, ficava com raiva se perdia, tentava ganhar de verdade. Eu n&#227;o ligava muito &#8212; conversava sozinho o jogo inteiro, tinha a mania de ficar pendurado na trave e, quando aparecia algum lance de perigo, me jogava em cima da bola, e &#224;s vezes dava certo. Por dar certo algumas vezes &#233; que me chamaram pra equipe principal.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Naquele momento, pensei que ia ganhar uma grana, ficar milion&#225;rio, viver uma vida dos sonhos do gato do Pica-pau (cem mil d&#243;lares&#8230; mulheres&#8230; autom&#243;veis&#8230; mulheres&#8230; iates&#8230;). Ainda cobraram uma taxa a mais dos meus pais.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Ao fim de tudo, era bom. Faz&#237;amos viagens pelo estado, de &#244;nibus pra l&#225; e pra c&#225;, t&#237;nhamos uma torcida fiel (repleta de pais empolgados com o jogo dos seus filhos) e, como falei, at&#233; fomos campe&#245;es.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Mas a hierarquia me agoniava. &#201;ramos dois goleiros &#8212; o outro, menino mais velho que eu em um ano, havia entrado antes na equipe e permanecia titular. O problema &#233; que n&#227;o tinha cara de goleiro. Certeza que hoje ele deve mexer com TI ou farm&#225;cia. Ele, titular. Eu, reserva. Em geral, eu entrava em muitos jogos; por um lado pela rotatividade, por outro porque o cara engolia todo o tipo de franga&#231;o imagin&#225;vel.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Mesmo assim, com a teimosia de um t&#233;cnico falido, de um Abel Braga em fim de carreira, o professor o mantinha. Eu, aspirante a jogador provocador e incomodado, questionava. A resposta era: hierarquia.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Se ao menos eu fosse pior, v&#225; l&#225;. Me pediram paci&#234;ncia. Eis o jogo: Santa Cruz X N&#225;utico. Se n&#227;o me engano, semifinal de outro campeonato pernambucano. Primeiro tempo: tomamos 6. Ou melhor, o outro goleiro tomou. A bola passando entre ele e a trave, pelo meio das pernas, escorregando entre as m&#227;os. A intimidade dele com a bola era a de uma tainha com um apontador de l&#225;pis.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Entro no intervalo para tentar n&#227;o levar mais seis. E n&#227;o levamos. Apesar do outro time ser muito melhor do que o nosso e continuar a atacar, n&#227;o levamos gol. Devo ter feito umas dez defesas. Nosso time, desfalcado, s&#243; fez um. Perdemos, desclassificados por uma atua&#231;&#227;o rid&#237;cula e uma insist&#234;ncia na derrota anunciada.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Quando questionei de novo sobre a titularidade, a resposta era a mesma: hierarquia. Bom, que ficassem ent&#227;o com a hierarquia. Depois de algum tempo, sa&#237; do time, de desgosto de jogar.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Nunca me passou de novo pela cabe&#231;a que eu tivesse futuro no futebol. Se o leitor pensou nisso, esque&#231;a. O &#8220;e se&#8230;?&#8221; n&#227;o se aplica.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Ano passado, fui jogar futsal com uns amigos. Formamos time, 2 gols ou 10 minutos, vaquinha pra pagar o campo, aquela coisa toda.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Tr&#234;s meses depois, numa sa&#237;da para dividir uma bola com um atacante (sim, eu sou o tipo de goleiro que sai da barra, que no escanteio espera no meio de campo para chutar, etc.) fui eu para um lado e meu joelho para o outro. Ca&#237; de ladinho, que nem peixe fora d&#8217;&#225;gua, sem conseguir mexer a perna direita. Na minha cabe&#231;a, era tipo a cena do Fen&#244;meno no ch&#227;o. Gritei pra cacete, dor miser&#225;vel.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>A patela voltou pro lugar quando os socorristas me puseram na ambul&#226;ncia. Um m&#234;s sem andar direito. Eu j&#225; sabia: havia acontecido dez anos antes e os m&#233;dicos disseram que tenho a patela solta. N&#227;o devia ter jogado &#8212; era melhor ter se mantido fiel &#224; desist&#234;ncia de crian&#231;a.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Enfim, a natureza se imp&#244;s. Hierarquia.</span></p><p style="text-align: center;"><span>***</span></p><p style="text-align: justify;"><span>J&#225; tivemos grandes videntes do futebol. Polvo Paul &#233;, talvez, o melhor deles. J&#225; tivemos tamb&#233;m tartarugas, gatos, elefantes, rinocerontes, tamandu&#225;s-bandeiras, orcas, focas, ornitorrincos. Todos muito divertidos, apesar de s&#243; o Paul acertar tudo.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Agora a internet est&#225; infestada de astr&#243;logos cretinos e tar&#243;logos palpiteiros, que d&#227;o qualquer palpite gen&#233;rico com texto de chat GPT e ainda conseguem errar.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Pior ainda &#233; o matem&#225;tico alem&#227;o. Eu respeito mais os astr&#243;logos do que os matem&#225;ticos quando se trata de futebol. Pelo menos, h&#225; algo de mais m&#225;gico, misterioso, de destino, de &#8220;est&#225; escrito nas estrelas&#8221;. O matem&#225;tico, al&#233;m de ser chato, quer falar de probabilidade no futebol.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Haja saco.</span></p><p style="text-align: center;"><span>***</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Tamb&#233;m estou de saco cheio de Mauro C&#233;sar Pereira. Tanto estou que n&#227;o consigo n&#227;o falar mal dele em qualquer oportunidade. Estou me sentindo Salieri, no fim da vida, resmungando contra um Mozart famoso por todo o lado. Com a diferen&#231;a de que o meu Mozart n&#227;o &#233; um g&#234;nio e sim um falastr&#227;o.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Mauro C&#233;sar Pereira n&#227;o parece que d&#225; bom dia para o porteiro.</span></p><p style="text-align: center;"><span>***</span></p><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">Martinelli 

O her&#243;i do improv&#225;vel 
Escondido entre a defesa 
&#8212; A v&#237;bora e a sua presa,
Kamikaze inevit&#225;vel &#8212;

Faz o gol sofrido, no fim,
Da loucura o estopim 

De uma torcida ag&#244;nica
Descrente da vit&#243;ria
Em sua luta nip&#244;nica,

Lembrando-nos, com ra&#231;a,
Que s&#243; quem sofre chega &#224; Gra&#231;a.
</pre></div><div><hr></div><p style="text-align: justify;"><span>Desaprendemos a elogiar. Elogiar exageradamente. O Brasil vence o Jap&#227;o de virada, de maneira &#233;pica e heroica, a partir da supera&#231;&#227;o, criando casca e resili&#234;ncia. Mas nossos maravilhosos comentaristas n&#227;o consegue elogiar uma atua&#231;&#227;o, uma camisada sinistra, resultado da ra&#231;a e da for&#231;a.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Devemos saber elogiar. E quando elogiar, precisamos esquecer todos os mas, os apesares, os &#8220;veja s&#243;&#8221;, os &#8220;por outro lado&#8221;. At&#233; para aprender a xingar. S&#243; sabe xingar completamente quem sabe elogiar completamente.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Mauro C&#233;sar Pereira n&#227;o sabe elogiar.</span></p><p style="text-align: justify;"></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!1BiU!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5e35834e-cf9b-41f7-a209-d2b0e3dbeb73_5124x2887.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!1BiU!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5e35834e-cf9b-41f7-a209-d2b0e3dbeb73_5124x2887.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!1BiU!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5e35834e-cf9b-41f7-a209-d2b0e3dbeb73_5124x2887.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!1BiU!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5e35834e-cf9b-41f7-a209-d2b0e3dbeb73_5124x2887.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!1BiU!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5e35834e-cf9b-41f7-a209-d2b0e3dbeb73_5124x2887.jpeg 1456w" sizes="100vw"><img src="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!1BiU!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5e35834e-cf9b-41f7-a209-d2b0e3dbeb73_5124x2887.jpeg" width="1456" height="820" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/5e35834e-cf9b-41f7-a209-d2b0e3dbeb73_5124x2887.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:820,&quot;width&quot;:1456,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:null,&quot;alt&quot;:&quot;Martinelli deixa campo com olho inchado ap&#243;s choque em Brasil x Jap&#227;o; veja  | CNN Brasil&quot;,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:null,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="Martinelli deixa campo com olho inchado ap&#243;s choque em Brasil x Jap&#227;o; veja  | CNN Brasil" title="Martinelli deixa campo com olho inchado ap&#243;s choque em Brasil x Jap&#227;o; veja  | CNN Brasil" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!1BiU!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5e35834e-cf9b-41f7-a209-d2b0e3dbeb73_5124x2887.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!1BiU!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5e35834e-cf9b-41f7-a209-d2b0e3dbeb73_5124x2887.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!1BiU!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5e35834e-cf9b-41f7-a209-d2b0e3dbeb73_5124x2887.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!1BiU!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5e35834e-cf9b-41f7-a209-d2b0e3dbeb73_5124x2887.jpeg 1456w" sizes="100vw" loading="lazy"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://matheusaraujo.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Matheus Ara&#250;jo - Literatura! 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O Brasil tem chances de vencer a copa.]]></description><link>https://matheusaraujo.substack.com/p/cronicas-da-copa-05-so-os-canalhas</link><guid isPermaLink="false">https://matheusaraujo.substack.com/p/cronicas-da-copa-05-so-os-canalhas</guid><dc:creator><![CDATA[Matheus Araújo]]></dc:creator><pubDate>Mon, 29 Jun 2026 13:57:24 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!yN1h!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4c6ae6d4-c273-4ba2-95c2-60184954e6dc_924x492" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Conta-se por a&#237; que Stephen Hawking sempre apostava contra a sua vontade para nunca sair perdendo. J&#225; ouvi isso da boca de pessoas elogiando a atitude do f&#237;sico como algo de muita intelig&#234;ncia, perspic&#225;cia, realmente not&#225;vel vindo de um esp&#237;rito diferenciado.</p><p>Eu penso que s&#243; os canalhas apostam contra a pr&#243;pria vontade. Tomados pela vergonha de perder, fugindo das pr&#243;prias convic&#231;&#245;es e receosos do fracasso, procuram artimanhas para sempre, de um modo ou de outro, sa&#237;rem por cima, mesmo que isso exponha a fraqueza das pr&#243;prias cren&#231;as.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://matheusaraujo.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Matheus Ara&#250;jo - Literatura! Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>A torcida brasileira parece tomada pelo t&#237;pico pensamento derrotista stephen hawkiano. Inseguros em acreditar na vit&#243;ria do Brasil, apostam contra, exaltam advers&#225;rios, torcem para inimigos, vestem a camisa de quem os despreza, beija a boca que lhes escarra.</p><p>E, claro, s&#227;o guiados pelo baluarte do derrotismo canalha e vira-lata, repleta de mauros c&#233;sares pereios, esses seres dostoievskianos, mistura de homens do subsolo com cafajestes de pornochanchadas, que independentemente da situa&#231;&#227;o da sele&#231;&#227;o anunciam a derrota, promovem a trag&#233;dia, incitam o desespero.</p><p>Qualquer um que assistisse atentamente aos jogos da fase de grupos poderia ver que o Brasil &#8212; apesar da p&#233;ssima eliminat&#243;ria, da vergonha na Copa Am&#233;rica, dos recordes negativos, das trocas de t&#233;cnicos e das derrotas vexat&#243;rias &#8212; n&#227;o est&#225; t&#227;o mal quanto anunciam os arautos do falso apocalipse.</p><p>O lobo mau espanhol esbarrou na vovozinha e na &#250;ltima rodada cometeu uma vit&#243;ria culposa contra o Uruguai (quando n&#227;o h&#225; inten&#231;&#227;o de vencer). Portugal empatou com RD Congo, foi dominado pela Col&#244;mbia e venceu um morto Uzbequist&#227;o. A Argentina, para tes&#227;o dos vira-latas e orgasmo dos canalhas, venceu tr&#234;s sele&#231;&#245;es fraqu&#237;ssimas, dependendo do g&#234;nio Messi e da ajuda da arbitragem em n&#227;o expuls&#225;-lo, assim como para ceder alguns p&#234;naltis ou faltas na beira da &#225;rea. </p><p>A Fran&#231;a venceu bem seus jogos, apesar ter revelado uma defesa que, quando pressionada, entrega gols. A Inglaterra fez uma primeira fase t&#237;pica de um caf&#233; da manh&#227; ingl&#234;s: sem gosto, sem gra&#231;a, uma mistura que n&#227;o funciona. A Cro&#225;cia continua ra&#231;uda e inteligente, apesar da  velhice e do cansa&#231;o dos seus. Alemanha est&#225; em transi&#231;&#227;o de gera&#231;&#245;es, sem novos g&#234;nios. Holanda n&#227;o ganhou nem com Cruyff, Van Basten, Bergkamp ou Robben &#8212; n&#227;o vai ser agora.</p><p>E ent&#227;o vemos o Brasil: 25 minutos de inseguran&#231;a e do time n&#227;o se encontrando no in&#237;cio de um jogo contra Marrocos. Gol de Vin&#237;cius com aproxima&#231;&#227;o de Guimar&#227;es e o jogo come&#231;a a se estabilizar, algumas chances pra l&#225;, outras pra c&#225;. Pronto: foi o suficiente para desacreditarem a sele&#231;&#227;o.</p><p>Mesmo o dom&#237;nio sobre Haiti e Esc&#243;cia n&#227;o serviram para o m&#237;nimo elogio do submundo. Mesmo o encaixe da jogada tipicamente ancelottiana (chama o advers&#225;rio pro seu campo de defesa, p&#245;e o armador entre as linhas dele e infiltra Vin&#237;cius entre os zagueiros, como tantas vezes fez no Real Madrid) n&#227;o encantou os cegos. Nem as soberbas atua&#231;&#245;es de Vin&#237;cius Junior, Guimar&#227;es e Cunha fizeram os fi&#233;is &#224; derrota se dobrarem um pouco.</p><p>Sim, o Brasil tem chances de levar essa. Mais do que em 22, mais do que em 18, mais do que em 14. O time come&#231;ou a encaixar, promete evolu&#231;&#227;o e tem margens para isso. O chaveamento permite pegar uma pedrada somente nas quartas (Inglaterra) que, acredito eu, o Brasil seria favorito no confronto. A semi pode ser contra a Argentina? Sim, mas uma intui&#231;&#227;o metaf&#237;sica me diz que eles n&#227;o chegar&#227;o l&#225;. Ent&#227;o, talvez o advers&#225;rio seja a Col&#244;mbia.</p><p>N&#227;o aposto em nada, nunca. Mas se fosse, apostaria na vit&#243;ria.</p><p></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!yN1h!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4c6ae6d4-c273-4ba2-95c2-60184954e6dc_924x492" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!yN1h!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4c6ae6d4-c273-4ba2-95c2-60184954e6dc_924x492 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!yN1h!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4c6ae6d4-c273-4ba2-95c2-60184954e6dc_924x492 848w, 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pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://matheusaraujo.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Matheus Ara&#250;jo - Literatura! Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Crônicas da Copa 04: Vinicius Jr. contra os hipsters]]></title><description><![CDATA[Amor a Messi. Mauro C&#233;sar Pereira. Alberto da Cunha Melo. Um poema para Vini Jr. Palpite para Brasil X Esc&#243;cia.]]></description><link>https://matheusaraujo.substack.com/p/cronicas-da-copa-04-vinicius-jr-contra</link><guid isPermaLink="false">https://matheusaraujo.substack.com/p/cronicas-da-copa-04-vinicius-jr-contra</guid><dc:creator><![CDATA[Matheus Araújo]]></dc:creator><pubDate>Wed, 24 Jun 2026 13:13:07 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Ay5m!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe23758d8-6663-4ca0-9d77-61df9fc7c63b_1200x767.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Eu entendo que gostem do Messi. Eu entendo at&#233; que amem o Messi. Do mesmo modo, tenho que compreender quem quer ver Cristiano Ronaldo vencendo, marcando gols, ainda ativo. S&#227;o dois, queiramos ou n&#227;o, g&#234;nios da bola que, assim como o sol antes de morrer, desesperadamente iluminam tudo ao redor.</p><p>Mas eu n&#227;o consigo entender a paix&#227;o por um Haaland, ou um Harry Kane, ou um Mbapp&#233;, um Modric ou Yamal antes de uma paix&#227;o por Vin&#237;cius Jr.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://matheusaraujo.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Matheus Ara&#250;jo - Literatura! Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>Lembro-me cristalinamente de assistir o primeiro jogo de Vini Jr. pela gloriosa Libertadores da Am&#233;rica. O Flamengo (time que, ali&#225;s, &#233; dos que mais detesto, perdendo somente para o ALT-MG e para o Sport Club do Recife) <span>passava maus bocados contra um time fraco. Entra um moleque franzino, </span>j&#225; vendido para o maior clube do mundo, desengon&#231;ado, mas descarado, sorriso no rosto e, mesmo com as passadas meio travadas, foi para cima e marcou dois gola&#231;os, classificando o time rubro-negro para pr&#243;xima fase.</p><p>De l&#225; para c&#225;, foi sempre desacreditado. Xingado das piores coisas poss&#237;veis, cuspido pelos racistas na Europa e no mundo.</p><p>Jornalistas brasileiros esportivos, essa ra&#231;a curiosa repleta de mauros c&#233;sares pereiras, homens do subsolo futebol&#237;stico, sempre o apoiaram com ressalvas: &#8220;&#233;, coitado, mas veja bem&#8221;, &#8220;&#233; bom, mas tamb&#233;m&#8230;&#8221;, &#8220;n&#227;o est&#225; errado, s&#243; que tem o seguinte&#8230;&#8221;. E a desculpa que mais ouvimos: &#8220;na Sele&#231;&#227;o, nunca jogou o que joga no Brasil&#8221;.</p><p>Em Eliminat&#243;rias e Copas Am&#233;ricas, realmente. Mas, no Brasil, seu volante era o genial Jude Bellingham ou a porpeta do Casemiro? Seu goleiro era o monstruoso Courtois ou Alisson &#8220;se for muito longe eu n&#227;o pego&#8221; Becker? Quem lhe servia era Toni Kroos, Modric, Benzema ou Jo&#227;o Gomes, Andreas Pereira, Rony R&#250;stico? Seus treinadores foram sempre Carlo Ancelotti ou esteve nas m&#227;os do antiquado e teimoso Tite, do incompetente Ramon Menezes, do lun&#225;tico Fernando Diniz e do bunda mole Dorival J&#250;nior?</p><p>E em Copas do Mundo, n&#227;o apareceu em v&#225;rios jogos? N&#227;o foram com participa&#231;&#227;o dele os &#250;ltimos dois ter&#231;os de gols do Brasil em Copas? N&#227;o foram deles as cinco jogadas, passes ou finaliza&#231;&#245;es dos gols desta edi&#231;&#227;o at&#233; agora?</p><p>Quando pega a bola, n&#227;o vai para cima dos advers&#225;rios? Quando erra, n&#227;o continua tentando? Quando precisa, n&#227;o volta para marcar? Quando necess&#225;rio, n&#227;o d&#225; assist&#234;ncias, passes desconcertantes, dribla a defesa?</p><p>Enquanto vejo um grande jogador como Vini Jr. ser posto de lado jogando muita bola, alguns fals&#225;rios e traidores da p&#225;tria torcem para advers&#225;rios claramente favorecidos, colocando-os inclusive maior do que os nossos maiores &#8212; Pel&#233;, Garrincha, Didi, Ronaldo, Rom&#225;rio e tudo o mais.</p><p>Apesar de entender o amor a Messi, ver bares de brasileiros comemorando os assaltos favorecendo o jogador no in&#237;cio desta copa &#233; algo que n&#227;o s&#243; d&#225; pena, mas revolta, pois &#233; um tipo de burrice criminosa. (Messi este, ali&#225;s, que deveria ter sido expulso no primeiro jogo por uma entrada criminosa, um pis&#227;o por tr&#225;s com as travas da chuteira de baixo para cima; logo, tamb&#233;m estaria fora do segundo jogo, e n&#227;o teria feito esse tanto de gols &#8212; em, vale dizer, duas sele&#231;&#245;es fraqu&#237;ssimas).</p><p>Parece, por um momento, que o Brasil foi tomado de hipsters que sentem nojinho de torcer pelos seus.</p><p style="text-align: center;">***</p><p>S&#227;o de Alberto da Cunha Melo os mais belos poemas sobre futebol da nossa l&#237;ngua (pelo menos, os que eu conhe&#231;o, contradizendo meu exagero; somente uma figura de linguagem para elogiar este poeta que, al&#233;m de amar, terei a honra e o prazer de publicar na minha editora).</p><p>Publicados em<em> Medita&#231;&#245;es sob os Lajedos</em> (2002), foram escritos sob uma forma diferente, composta de um quarteto, um d&#237;stico, um terceto e outro d&#237;stico, criada pelo pr&#243;prio Alberto e muito utilizada em diversos de seus livros.</p><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">ROM&#193;RIO

At&#233; parece estar no banco
Rom&#225;rio, o perigo parado
do r&#233;ptil, no ch&#227;o do inimigo,
para algum bote inesperado,

com toda uma &#233;tica malandra
 vai calando toda cassandra

que anuncia fogo no sonho
menor de um povo abandonado,
povo adiado, povo estranho,

que troca a in&#250;til liberdade
pelo mais belo gol da tarde.


GARRINCHA

A fama, F&#250;ria, esmaga aqueles
que s&#243; buscavam seu lugar,
que chegaram antes do tempo
ou demoraram a chegar;

feita de louros radioativos,
essa coroa dos cativos

da luz calcina o calend&#225;rio
menor, o da vida em neblinas
de Deus, em contas de Ros&#225;rio,

&#233; o fim dos astros, estertores:
que s&#243; engorda os bastidores.

</pre></div><p>Destino ou n&#227;o, o nome da forma &#233; Retranca. Nome tirado do futebol. E &#233; o jeito com que a Sele&#231;&#227;o deve jogar sob o comando de Ancelotti: atr&#225;s, parada, calada, aguentando press&#227;o. Quando virem a Flecha Negra despontar, que lancem.</p><p style="text-align: center;">***</p><p>Inspirado por Alberto e por Vin&#237;cius, escrevi o poeminha abaixo, corrigido e melhorado por Vicente Pess&#244;a, at&#233; porque n&#227;o sou e nem quero ser poeta (que n&#227;o &#233; coisa de gente, muito mais digno seria ter me tornado jogador de futebol).</p><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">VIN&#205;CIUS

Ultrapassa a Flecha Negra
toda a linha advers&#225;ria,
nota Sol adentra a &#225;ria
ludibriando a defesa.

Um astro negro e retinto,
D&#233;dalo no labirinto

Contra os &#205;caros v&#225;rios
que sejam daqui ou de l&#225;
nas derrotas solid&#225;rios.

Um preto Apolo a anunciar
um dia, o gol a raiar.
</pre></div><p style="text-align: center;">***</p><p>Hoje, contra a Esc&#243;cia, &#233; 4x0. Dois de Vini.</p><p></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Ay5m!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe23758d8-6663-4ca0-9d77-61df9fc7c63b_1200x767.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Ay5m!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe23758d8-6663-4ca0-9d77-61df9fc7c63b_1200x767.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Ay5m!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe23758d8-6663-4ca0-9d77-61df9fc7c63b_1200x767.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Ay5m!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe23758d8-6663-4ca0-9d77-61df9fc7c63b_1200x767.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Ay5m!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe23758d8-6663-4ca0-9d77-61df9fc7c63b_1200x767.jpeg 1456w" sizes="100vw"><img src="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Ay5m!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe23758d8-6663-4ca0-9d77-61df9fc7c63b_1200x767.jpeg" width="1200" height="767" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/e23758d8-6663-4ca0-9d77-61df9fc7c63b_1200x767.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:767,&quot;width&quot;:1200,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:null,&quot;alt&quot;:&quot;Vinicius Junior sai do banco, decide e Flamengo vira sobre o Emelec no  Equador - Estad&#227;o&quot;,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:null,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="Vinicius Junior sai do banco, decide e Flamengo vira sobre o Emelec no  Equador - Estad&#227;o" title="Vinicius Junior sai do banco, decide e Flamengo vira sobre o Emelec no  Equador - Estad&#227;o" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Ay5m!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe23758d8-6663-4ca0-9d77-61df9fc7c63b_1200x767.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Ay5m!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe23758d8-6663-4ca0-9d77-61df9fc7c63b_1200x767.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Ay5m!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe23758d8-6663-4ca0-9d77-61df9fc7c63b_1200x767.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Ay5m!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe23758d8-6663-4ca0-9d77-61df9fc7c63b_1200x767.jpeg 1456w" sizes="100vw" loading="lazy"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://matheusaraujo.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Matheus Ara&#250;jo - Literatura! Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Crônicas da Copa 03: Todo pessimismo será castigado.]]></title><description><![CDATA[Ou: porque, segundo a mitologia cl&#225;ssica, a jornada do her&#243;i e Fulton Sheen, seremos Hexa. Al&#233;m disso: versos para cada jogador e previs&#227;o para Brasil X Haiti.]]></description><link>https://matheusaraujo.substack.com/p/cronicas-da-copa-03-todo-pessimismo</link><guid isPermaLink="false">https://matheusaraujo.substack.com/p/cronicas-da-copa-03-todo-pessimismo</guid><dc:creator><![CDATA[Matheus Araújo]]></dc:creator><pubDate>Fri, 19 Jun 2026 18:13:02 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Cc15!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3e5c80c3-7958-410b-b27d-86920a384185_1919x1079.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><span>          </span></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Cc15!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3e5c80c3-7958-410b-b27d-86920a384185_1919x1079.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Cc15!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3e5c80c3-7958-410b-b27d-86920a384185_1919x1079.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Cc15!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3e5c80c3-7958-410b-b27d-86920a384185_1919x1079.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Cc15!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3e5c80c3-7958-410b-b27d-86920a384185_1919x1079.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Cc15!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3e5c80c3-7958-410b-b27d-86920a384185_1919x1079.jpeg 1456w" sizes="100vw"><img src="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Cc15!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3e5c80c3-7958-410b-b27d-86920a384185_1919x1079.jpeg" width="1456" height="819" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/3e5c80c3-7958-410b-b27d-86920a384185_1919x1079.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:819,&quot;width&quot;:1456,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:null,&quot;alt&quot;:&quot;Fabinho fica com nariz ensanguentado em Brasil x Marrocos; veja v&#237;deo | Ge&quot;,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:null,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:true,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="Fabinho fica com nariz ensanguentado em Brasil x Marrocos; veja v&#237;deo | Ge" title="Fabinho fica com nariz ensanguentado em Brasil x Marrocos; veja v&#237;deo | Ge" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Cc15!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3e5c80c3-7958-410b-b27d-86920a384185_1919x1079.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Cc15!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3e5c80c3-7958-410b-b27d-86920a384185_1919x1079.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Cc15!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3e5c80c3-7958-410b-b27d-86920a384185_1919x1079.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Cc15!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3e5c80c3-7958-410b-b27d-86920a384185_1919x1079.jpeg 1456w" sizes="100vw" fetchpriority="high"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://matheusaraujo.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Matheus Ara&#250;jo - Literatura! Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p><span>N&#227;o sei se foi Fulton Sheen, Groucho Marx ou alguma p&#225;gina do Instagram que disse que toda preocupa&#231;&#227;o &#233; uma esp&#233;cie de ate&#237;smo. Claro, se voc&#234; cr&#234; na provid&#234;ncia divina e se preocupa com a sua vida, em algum grau sua f&#233; est&#225; abalada.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>        Eu digo mais: qualquer pessimismo em rela&#231;&#227;o &#224; conquista do Hexa &#233; atestado de vira-latismo.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#9;</span><span>A Sele&#231;&#227;o e seus jogadores s&#227;o, de um modo ou de outro, o mito fundacional do maior esporte do mundo; nossas vit&#243;rias s&#227;o marcos hist&#243;ricos, nossos maiores jogadores s&#227;o semideuses, Pel&#233; &#233; um tit&#227; ao modo grego. Deste modo, nossas derrotas s&#227;o somente instrumentos narrativos, prepara&#231;&#245;es para as perip&#233;cias que revelar&#227;o o nosso retorno glorioso. Se perdemos, &#233; porque Ulisses precisou passar pelo Hades. Se somos desclassificados, &#233; porque Jonas foi engolido pelo grande peixe. Se em algum momento fomos humilhados, &#233; porque R&#225; precisou enfrentar Ap&#243;fis no submundo.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#9;</span><span>Por isso, nossa vit&#243;ria &#233; inevit&#225;vel. Faz parte dessa jornada que se repete desde os princ&#237;pios do mundo e a Hist&#243;ria mostra que &#233; imposs&#237;vel contorn&#225;-la. H&#243;rus, depois de crescer em segredo, derrota Set; Eneias vence Turno e funda o povo romano; Ulisses revela a morte aos pretendentes de Pen&#233;lope.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#9;</span><span>As seis estrelas logo estar&#227;o no peito de cada brasileiro e buscaremos a s&#233;tima.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#9;</span><span>Aquele que n&#227;o confia nisso precisa come&#231;ar a se perguntar: o que devo mudar na minha vida? Devo come&#231;ar a falar </span><em><span>Todo tranqui!?</span></em><span> em vez de </span><em><span>E a&#237;, beleza?</span></em><span> Devo parar de tomar banho diariamente e come&#231;ar a feder a Vick Vaporub com peixe? No almo&#231;o de domingo, devo comer comida enlatada ou uma bela macaxeira com carne de sol?</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#9;</span><span>O vira-latismo &#233; a doen&#231;a que incendeia a mente dos brasileiros desde sempre. E, se somos pior em tudo, no futebol sempre fomos os melhores &#8212; o que torna a revolta contra o que &#233; nosso e o encantamento pelo que &#233; gringo ainda mais inexplic&#225;vel.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#9;</span><span>Vejam as rea&#231;&#245;es aos jogos da primeira rodada da Copa.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#9;</span><span>Brasil empatou com o que &#233;, hoje, uma das melhores sele&#231;&#245;es do mundo, semifinalista da &#250;ltima competi&#231;&#227;o.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#9;</span><span>Jogo pegado. Marrocos iniciou muito melhor, os canarinhos quase n&#227;o tocaram na bola. Gol dos marrakech num erro da defesa (zagueiros e goleiro).</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#9;</span><span>Vin&#237;cius, a Flecha Negra, num lance de g&#234;nio, tabelou e avan&#231;ou, driblou e guardou, no &#226;ngulo, um petardo, sem chances para o goleiro Bono, que apesar de bom tem nome de biscoito recheado.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#9;</span><span>Depois disso, houve equil&#237;brio. Poucas chances para ambos os lados, jogo truncado, disputas no meio de campo, zagas anulando os ataques.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#9;</span><span>Para o brasileiro descrente, homem de pouca f&#233;, infiel aos deuses do futebol, o empate foi uma vergonha, a sele&#231;&#227;o n&#227;o sabe mais jogar bola, o time n&#227;o presta.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#9;</span><span>Mas, e quando a Espanha empatou com Cabo Verde jogando um futebolzinho de quinta? E quando Portugal empatou com o Congo? E quando a Fran&#231;a sofreu no primeiro e somente no final do segundo tempo conseguiu se imp&#244;r contra uma sele&#231;&#227;o fraca do continente africano, e ainda por cima levando um gol? O vira-lata acredita que essas sele&#231;&#245;es ser&#227;o as vencedoras, s&#227;o as melhores, as mais bem preparadas.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#9;</span><span>Esses s&#227;o sintomas de uma cegueira quase metaf&#237;sica: n&#227;o olharam para o jogo, olharam para dentro de si mesmos.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#9;</span><span>O que n&#227;o nos impede de criticar os jogadores e pedir altera&#231;&#245;es na sele&#231;&#227;o ancelottiana.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#9;</span><span>Enquanto certas figuras pipocavam na TV, na minha mente pipocavam versos que poderiam explicar cada um deles.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#9;</span><span>Casemiro e sua lentid&#227;o seriam definidos por Fernando Pessoa como:</span></p><blockquote><p style="text-align: justify;"><span data-color="rgb(10, 10, 10)" style="color: rgb(10, 10, 10);">&#8220;Sem a loucura que &#233; o homem</span></p><p style="text-align: justify;"><span data-color="rgb(10, 10, 10)" style="color: rgb(10, 10, 10);">Mais que a besta sadia,</span></p><p style="text-align: justify;"><span data-color="rgb(10, 10, 10)" style="color: rgb(10, 10, 10);">Cad&#225;ver adiado que procria?</span><span>&#8221;</span></p></blockquote><p style="text-align: justify;"><span>&#9;</span><span>Marquinhos, e suas eternas furadas, me lembraram Cam&#245;es:</span></p><blockquote><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;Errei todo o discurso dos meus anos&#8221;.</span></p></blockquote><p style="text-align: justify;"><span>&#9;</span><span>Gabriel Magalh&#227;es, correndo atrasado atr&#225;s o marroquinho, lembrou-me de Manoel de Barros:</span></p><blockquote><p><span>&#8220;Prezo a velocidade das tartarugas mais que a dos m&#237;sseis.</span></p><p><span>Tenho em mim um atraso de nascen&#231;a.&#8221;</span></p></blockquote><p style="text-align: justify;"><span>        Igor Thiago, e seu avantajado tamanho, parecia ter sa&#237;do de um almo&#231;o servido por Vin&#237;cius de Moraes:</span></p><blockquote><p><span>&#8220;deem-me feij&#227;o com arroz</span></p><p><span>E um bife, e um queijo forte, e parati&#8221;.</span></p></blockquote><p style="text-align: justify;"><span>     J&#225; Danilo flamenguista, com sua idade avan&#231;ada, parecia o Velho do Restelo camoniano:</span></p><blockquote><p><span>&#8220;Um velho de aspecto venerando&#8221;.</span></p></blockquote><p style="text-align: justify;"><span>       Fabinho, sorrindo coringado com sangue na boca, estava digno de um poema de Cruz e Souza:</span></p><blockquote><p><span>&#8220;como um palha&#231;o, que desengon&#231;ado,</span></p><p><span>nervoso, ri, num riso absurdo, inflado&#8221;.</span></p></blockquote><p style="text-align: justify;"><span>        J&#225; Neymar, acabado, gordo e torto, como num verso de Bandeira:</span></p><blockquote><p><span>&#8220;Espelho, amigo verdadeiro,</span></p><p><span>tu refletes as minhas rugas,</span></p><p><span>os meus cabelos brancos,</span></p><p><span>os meus olhos m&#237;opes e cansados.&#8221;</span></p></blockquote><p style="text-align: justify;"><span>      Apesar disso, nada tira a f&#233;, a firme certeza naquilo que n&#227;o vemos, de que seremos, apesar de tudo, campe&#245;es.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>       Como?, pode perguntar o vira-lata. Principalmente vendo a dificuldade da Sele&#231;&#227;o em jogar, trocar passes din&#226;micos, fazer jogadas incr&#237;veis. Como, sem escalar Endrick, podemos ganhar?</span></p><p style="text-align: justify;"><span>        Digo: qualquer racionalismo precisa ser rejeitado. N&#227;o foi o ciclo de 2002 o mais conturbado da hist&#243;ria? A Sele&#231;&#227;o n&#227;o precisou ser ajudada pela arbitragem contra a B&#233;lgica para poder passar de fase? N&#227;o penou contra a Turquia? N&#227;o precisou de um lance anto e ontol&#243;gico de Ronaldinho para vencer? E em 94, n&#227;o teve o Brasil dificuldades contra, bem dizer, quase todos os times? Vencendo na ra&#231;a, no gol no final, no p&#234;nalti perdido, apelando para a genialidade de uns poucos &#8212; e tamb&#233;m para a sorte?</span></p><p style="text-align: justify;"><span>       N&#227;o h&#225; espa&#231;o para a raz&#227;o no futebol, que muito a transcende: o que existe &#233; magia, m&#237;stica do esporte, for&#231;a m&#237;tica e destino.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>       Ali&#225;s, hoje &#224; noite sonhei com o jogo contra o Haiti.<br>       Partida f&#237;sica, truncada, dif&#237;cil.<br>       Gol no final, na ra&#231;a, 1x0. Do inesperado Raphinha.<br>       S&#243; pode ser um sinal.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>       Seremos.</span></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://matheusaraujo.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Matheus Ara&#250;jo - Literatura! Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Crônicas da Copa 02: Nelson Rodrigues na marca do pênalti]]></title><description><![CDATA[Futebol na literatura. Escritores que dariam bons jogadores. Poss&#237;veis romances sobre o maior esporte do mundo.]]></description><link>https://matheusaraujo.substack.com/p/cronicas-da-copa-02-nelson-rodrigues</link><guid isPermaLink="false">https://matheusaraujo.substack.com/p/cronicas-da-copa-02-nelson-rodrigues</guid><dc:creator><![CDATA[Matheus Araújo]]></dc:creator><pubDate>Sat, 13 Jun 2026 16:57:42 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!vrAT!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F98010ebe-95d7-467b-bb0a-a3c1ac05aee2_500x340.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Dizem que o Brasil nunca fez um grande romance com o tema do futebol e que isso seria uma l&#225;stima. Concordo com a primeira afirma&#231;&#227;o, mas discordo da segunda.</p><p style="text-align: justify;">A hist&#243;ria do nosso futebol j&#225; &#233;, de algum modo, um &#233;pico: cheio de altos e baixos, grandes her&#243;is e terr&#237;veis vil&#245;es, confrontos sinistros, batalhas intermin&#225;veis, supera&#231;&#245;es quase m&#225;gicas. Algu&#233;m que lesse somente um relato desses acontecimentos, do in&#237;cio ao fim, poderia desacreditar de tantas reviravoltas, perip&#233;cias, decep&#231;&#245;es, sonhos frustrados, vit&#243;rias mai&#250;sculas, derrotas destruidoras. Essa hist&#243;ria &#233;, por ela mesma, uma imensa fic&#231;&#227;o.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://matheusaraujo.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Matheus Ara&#250;jo - Literatura! Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p style="text-align: justify;">Por isso considero o conjunto de cr&#244;nicas de Nelson Rodrigues sobre futebol a grande obra sobre o tema da nossa literatura. N&#227;o &#233; fic&#231;&#227;o, podem dizer, e n&#227;o &#233; mesmo &#8212; porque, como j&#225; disse, o tema j&#225; &#233; ficcional o suficiente.</p><p style="text-align: justify;">Duvido que Tolst&#243;i dissesse que Djalma Santos batia lateral como um Cristo negro. Ou que Dostoi&#233;vski conseguisse expressar que h&#225; na bola uma alma de cachorra. Balzac daria o apelido de Rei a Pel&#233;? Talvez o chamasse de Napole&#227;o da bola ou coisa semelhante. Flaubert nunca formularia o problema da s&#237;ndrome de vira-latas.</p><p style="text-align: justify;">Um Lampedusa escreveria isso?</p><blockquote><p style="text-align: justify;">&#8220;E n&#227;o h&#225; d&#250;vida de que, por uma tend&#234;ncia natural e por se tratar de um tri, v&#227;o ca&#231;ar os brasileiros a pauladas. Outrora, o brasileiro babava de inveja e deslumbramento s&#243; de ouvir falar no ingl&#234;s. Mas verdade &#233; bem diferente. Hoje sabemos que o &#250;nico ingl&#234;s da vida real &#233; o brasileiro. Sim, qualquer favelado nosso, desdentado e negro, &#233; um monstro de boas maneiras&#8221;.</p></blockquote><p style="text-align: justify;">Duvido que Joyce tivesse a capacidade de escrever assim:</p><blockquote><p style="text-align: justify;">&#8220;Ora, para fazer um gol assim n&#227;o basta apenas o simples e puro futebol. &#201; preciso algo mais, ou seja, essa plenitude de confian&#231;a, de certeza, de otimismo, que faz de Pel&#233; o craque imbat&#237;vel. Quero crer que a sua maior virtude &#233;, justamente, a imod&#233;stia absoluta. P&#245;e-se por cima de tudo e de todos. E acaba intimidando a pr&#243;pria bola, que vem aos seus p&#233;s com uma lambida docilidade de cadelinha. Hoje, at&#233; uma cambaxirra sabe que Pel&#233; &#233; imprescind&#237;vel na forma&#231;&#227;o de qualquer escrete. Na Su&#233;cia, ele n&#227;o tremer&#225; de ningu&#233;m. H&#225; de olhar os h&#250;ngaros, os ingleses, os russos de alto a baixo. N&#227;o se inferiorizar&#225; diante de ningu&#233;m. E &#233; dessa atitude viril e mesmo insolente que precisamos. Sim, amigos: &#8212; aposto minha cabe&#231;a como Pel&#233; vai achar todos os nossos advers&#225;rios uns pernas-de-pau. Por que perdemos, na Su&#237;&#231;a, para a Hungria? Examinem a fotografia de um e outro time entrando em campo. Enquanto os h&#250;ngaros erguem o rosto, olham duro, empinam o peito, n&#243;s baixamos a cabe&#231;a e quase babamos de humildade. Esse flagrante, por si s&#243;, antecipa e elucida a derrota. Com Pel&#233; no time, e outros como ele, ningu&#233;m ir&#225; para a Su&#233;cia com a alma dos vira-latas. Os outros &#233; que tremer&#227;o diante de n&#243;s&#8221;.</p></blockquote><p style="text-align: justify;">Nelson Rodrigues, mais do que cronista &#8220;&#225;cido e ir&#244;nico&#8221;, como costumam colocar os adjetivos logo depois de falar dele, &#233; um daqueles escritores que enxergaram a alma brasileira &#8212; e o futebol &#8212; com personalidade e agudeza. Suas cr&#244;nicas s&#227;o, reunidas, o gigantesco romance da vida nacional.</p><p style="text-align: justify;">J&#225; temos o nosso livro sobre o futebol, vamos parar de procur&#225;-lo.</p><p style="text-align: center;"><strong>***</strong></p><p style="text-align: justify;">Nelson Rodrigues disse, ou deve ter dito, em alguma cr&#244;nica, talvez numa entrevista, que o mal da literatura brasileira &#233; que nossos escritores n&#227;o sabem bater um escanteio.</p><p style="text-align: justify;">Se ele est&#225; certo ou n&#227;o, &#233; dif&#237;cil saber. O fato &#233; que ningu&#233;m consegue imaginar Machado de Assis dando um chute de trivela no &#226;ngulo, Clarice Lispector aplicando um chap&#233;u nos advers&#225;rios, Cora Coralina pedalando para cima da defesa Argentina (com Borges, do outro lado, tentando dar um carrinho cego), nem o velho Graciliano, do meio de campo, fazendo o gol que Pel&#233; n&#227;o fez.</p><p style="text-align: justify;">Se era assim na literatura do s&#233;culo XIX e XX, imagine na literatura do XXI?</p><p style="text-align: justify;">&#201; imposs&#237;vel imaginar Itamar Vieira dando um el&#225;stico. Daniel Galera dividindo firme uma bola na defesa. Ou mesmo Concei&#231;&#227;o Evaristo na banheira esperando um cruzamento de Jefferson Ten&#243;rio para cabecear para o gol.</p><p style="text-align: justify;">Mas eu consigo imaginar alguns escritores que podem jogar bem a pelota.</p><ul><li><p style="text-align: justify;">Orlando Tosetto daria um bom volante. Ele tem cara de que, no passado, tinha as qualidades de um defensor de usina;</p></li><li><p style="text-align: justify;">Dmitri Ramus faria as vezes de um meio campo cerebral, armador, que calcula as jogadas. Calcularia tanto que &#224;s vezes se atrasaria na jogada, ou faria a jogada r&#225;pido demais, tocando para o vazio;</p></li><li><p style="text-align: justify;">Leandro Carvalho poderia ser um bom lateral, fazer uns cruzamentos decentes, trombador, jogador seguro;</p></li><li><p style="text-align: justify;">Alexandre Sugamosto &#233; o zagueiro violento e brigador, estilo Pepe, que provavelmente seria expulso aos 25 minutos do primeiro tempo em uma final de Libertadores;</p></li><li><p style="text-align: justify;">Rodrigo Duarte Garcia seria um meia classudo, bom de bola, mas entraria em decad&#234;ncia por trocar, assim como Bale fez com o Golf, o futebol pelo surf;</p></li><li><p style="text-align: justify;">Milton Gustavo n&#227;o seria muito bom, mas conseguiria fazer a fun&#231;&#227;o daquele atacante que entra nos &#250;ltimos minutos quando o time est&#225; perdendo para tentar um gol de cabe&#231;a. N&#227;o faria o gol, mas ajudaria na briga quando o juiz apitasse o centro.</p></li></ul><p style="text-align: center;">***</p><p style="text-align: justify;">Ideias de romances sobre futebol:</p><ul><li><p style="text-align: justify;">O roubo da ta&#231;a Jules Rimet &#8212; romance policial ao estilo Simenon sobre o desaparecimento da cl&#225;ssica ta&#231;a da Copa;</p></li><li><p style="text-align: justify;">O <em>Maracanazo </em>pelo lado dos uruguaios &#8212; romance com ares de &#233;pico sobre a vit&#243;ria dos desacreditados e a queda dos gigantes;</p></li><li><p style="text-align: justify;">Os anos finais de Garrincha &#8212; narrado em primeira pessoa pelo Anjo das Pernas Tortas, contaria a ascens&#227;o e queda do maior ponta brasileiro;</p></li><li><p style="text-align: justify;">As aventuras sexuais de Neymar Junior &#8212; Neymar, velho e acabado, seria o narrador, relembrando sua juventude, num estilo <em>Moll Flanders</em> ou <em>A Casa dos Budas Ditosos</em>;</p></li><li><p style="text-align: justify;">Os trambiques dos cartolas brasileiros &#8212; romance policial narrado em primeira pessoa por quatro dirigentes dos maiores clubes do Rio (Vasco, Botafogo, Fluminense e Bangu) ao mesmo tempo, mostrando a rela&#231;&#227;o do futebol com o tr&#225;fico, jogo do bicho, jogadores bandidos, torcidas organizadas, prostitui&#231;&#227;o e todos os pol&#237;ticos corruptos do estado. De prefer&#234;ncia, poderia ser escrito pelo Alberto Mussa.</p></li></ul><p>N&#227;o escreverei nenhum deles, mas gostaria de l&#234;-los.</p><p style="text-align: center;">***</p><p>Hoje a sele&#231;&#227;o estreia na Copa. Qualquer um que torcer contra dever&#225; ser recha&#231;ado. Vamos, Brasil!</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!vrAT!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F98010ebe-95d7-467b-bb0a-a3c1ac05aee2_500x340.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!vrAT!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F98010ebe-95d7-467b-bb0a-a3c1ac05aee2_500x340.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!vrAT!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F98010ebe-95d7-467b-bb0a-a3c1ac05aee2_500x340.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!vrAT!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F98010ebe-95d7-467b-bb0a-a3c1ac05aee2_500x340.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!vrAT!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F98010ebe-95d7-467b-bb0a-a3c1ac05aee2_500x340.jpeg 1456w" sizes="100vw"><img src="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!vrAT!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F98010ebe-95d7-467b-bb0a-a3c1ac05aee2_500x340.jpeg" width="500" height="340" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/98010ebe-95d7-467b-bb0a-a3c1ac05aee2_500x340.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:340,&quot;width&quot;:500,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:null,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:null,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!vrAT!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F98010ebe-95d7-467b-bb0a-a3c1ac05aee2_500x340.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!vrAT!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F98010ebe-95d7-467b-bb0a-a3c1ac05aee2_500x340.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!vrAT!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F98010ebe-95d7-467b-bb0a-a3c1ac05aee2_500x340.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!vrAT!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F98010ebe-95d7-467b-bb0a-a3c1ac05aee2_500x340.jpeg 1456w" sizes="100vw" loading="lazy"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://matheusaraujo.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Matheus Ara&#250;jo - Literatura! Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Crônicas da Copa 01: Tempo Gigantesco é um dia]]></title><description><![CDATA[Inf&#226;ncia. Sorte. Aposta. Freud. Roberto Carlos. Brasil 4 x 0 China. 8 de junho de 2002.]]></description><link>https://matheusaraujo.substack.com/p/cronicas-da-copa-01-tempo-gigantesco</link><guid isPermaLink="false">https://matheusaraujo.substack.com/p/cronicas-da-copa-01-tempo-gigantesco</guid><dc:creator><![CDATA[Matheus Araújo]]></dc:creator><pubDate>Mon, 08 Jun 2026 14:22:42 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!wKc5!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F34697701-8552-4e08-9415-2d32b1772eac_736x441.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;">&#8220;para quem sonhava dist&#226;ncia<br>da pr&#243;pria hist&#243;ria e n&#227;o consegue,<br>sem asco, lembrar-se da inf&#226;ncia,<br><br>mesmo com Deus por companhia,<br>tempo gigantesco &#233; um dia.&#8221;</p><p style="text-align: right;">Em &#8220;Aeroporto&#8221;, de Alberto da Cunha Melo</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://matheusaraujo.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Matheus Ara&#250;jo - Literatura! 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Uma n&#233;voa de enorme ilus&#227;o se cria e, quando essa n&#233;voa se dissipa, a mente infantil enxerga os gigantescos monstros ao seu redor.</p><p style="text-align: justify;">A primeira vez em que vi al&#233;m do v&#233;u da inf&#226;ncia foi no dia 8 de junho de 2002. Claro que eu n&#227;o lembrava a data de cabe&#231;a, o trauma n&#227;o foi t&#227;o grande assim &#8212; tenho pra mim que aqueles que lembram de datas traum&#225;ticas com tanta exatid&#227;o t&#234;m algo de psicop&#225;tico. Eu pesquisei na internet.</p><p style="text-align: justify;">Manh&#227;, um sol et&#237;ope esquenta os telhados de brasilit. Apesar do sol ter nascido h&#225; poucas horas, algumas latas de cerveja vazia se acumulam na beira da cal&#231;ada, m&#250;sica alta sai dos r&#225;dios de pilha, fuma&#231;a de cigarro &#233; baforada no ar, misturando-se com a fuma&#231;a dos espetinhos que torram na churrasqueira improvisada de lata de tinta Coral 20 litros branco-gelo.</p><p style="text-align: justify;">A pequena tev&#234; de tubo em cima de uma escrivaninha marrom velha na garagem de casa, as cadeiras amarelas de pl&#225;stico da skol espalhadas pela rua e o quadro verde com os nomes de cada um e os placares apostados ao lado denunciam que &#233; dia de jogo do Brasil na Copa.</p><p style="text-align: justify;">Nasci em um tempo em que os adultos costumavam incluir as crian&#231;as nos seus projetos. Todo mundo tem uma foto com uma lata de cerveja na m&#227;o, ou um cigarro na boca, ou os dois. Se os pais fossem a um barzinho, os filhos iam tamb&#233;m, e se juntavam a outras crian&#231;as que precisavam matar o t&#233;dio enquanto os pais tomavam uma. Naquele dia, for&#231;ados pelo &#237;mpeto da inclus&#227;o infantil (um erro tremendo), decidiram me incluir no bol&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">Sempre tive a impress&#227;o que era uma pessoa de m&#225; sorte, que nunca ganhava jogos, sorteios. Mas, por algum motivo que n&#227;o me lembro, era uma falsifica&#231;&#227;o: absorvi esse discurso de algu&#233;m em algum lugar e fui replicando como verdade. Mas a verdade &#233; outra: eu sou muito sortudo.</p><p style="text-align: justify;">J&#225; ganhei um livro dist&#243;pico de literatura contempor&#226;nea em um sorteio h&#225; uns 10 anos (o livro era muito ruim, mas eu ganhei). Fui terceiro lugar na Olimp&#237;ada Brasileira de Astronomia e Astron&#225;utica (o que s&#243; pode ser sorte, devido &#224; minha falta de qualquer aptid&#227;o para a &#225;rea). Fiquei uns anos sem estudar para o vestibular e, quando fiz, passei em primeiro (ok, ok, o curso era letras, ningu&#233;m muito inteligente faz essa prova, mas <em>primeiro lugar</em> foi muita sorte). J&#225; sentei em cima de um copo de vidro que se espatifou, mas eu n&#227;o me cortei (n&#227;o tem gente que morre assim? Art&#233;ria aorta, etc. Ent&#227;o, &#233; sorte). Passei anos estacionando irregular no mesmo lugar, bem movimentado, sem tomar uma m&#237;sera multa (minha carteira &#233; zeradinha).</p><p style="text-align: justify;">E aquele dia, 8 de junho, manh&#227; maldita, &#233; uma prova da minha sorte.</p><p style="text-align: justify;">Crian&#231;a &#233; naturalmente hiperb&#243;lica. &#201; por isso que quem faz piada apela para hip&#233;rbole e tamb&#233;m &#233; por isso que quem acredita muito em hip&#233;rboles &#233; meio imbecil. Eu era uma crian&#231;a, logo meio imbecil, logo naturalmente hiperb&#243;lico. Portanto, quando me perguntaram e a&#237;, quanto vai ser o jogo?, eu disse, sem pestanejar: 4x0. Qual a gra&#231;a de um jogo que seja 1x0? 2x1? Na cabe&#231;a de um menino orelhudo como os burros de Goya, nenhuma. O bom mesmo era o placar el&#225;stico, a domina&#231;&#227;o total, a humilha&#231;&#227;o dos advers&#225;rios. Quando me perguntaram de novo, repeti: 4x0. Tem certeza? Sim, 4x0. E anotaram no quadro: Matheus = 4x0.</p><p style="text-align: justify;">Se eu disser que lembro do jogo, estaria mentindo. O &#250;nico lance que me lembro razoavelmente &#233; o gol de Roberto Carlos. De falta, um petardo explodindo no &#226;ngulo do advers&#225;rio. E, &#233; claro, da tristeza avassaladora que se abatia sobre os chineses, uma impot&#234;ncia de dar pena, como se fossem os personagens tr&#225;gicos gregos diante da crueldade e da implacabilidade dos deuses. A fam&#237;lia inteira comemorava, cerveja no ar, gritaria. Todos pareciam bem contentes, a felicidade por um momento parecia eterna. No quarto gol, me levantaram, alguns olharam surpresos, me apontando os dedos como se dissessem, olha s&#243;! voc&#234; vai ganhar! E assim terminou, 4x0, como eu havia dito.</p><p style="text-align: justify;">Mas, &#233; claro, ningu&#233;m ia querer dividir o bol&#227;o com um garoto. Considerando que tinha muita gente, imagino que hoje o valor seria equivalente a uns 500 pila. Quem entrega isso na m&#227;o de um moleque? Claro, eu me contentaria com 5 &#8212; naquela &#233;poca isso comprava todo tipo de chiclete, bombom, pirulito e chocolate na venda de dona S&#244;nia na esquina l&#225; da rua (saudoso governo FHC?). Hoje, n&#227;o d&#225; um cafezinho. T&#225; foda.</p><p style="text-align: justify;">Foi uma grande frustra&#231;&#227;o &#8212; Freud chamaria de &#8220;quebra na personalidade narc&#237;sica&#8221;, eu chamaria de &#8220;perceber que voc&#234; n&#227;o vale nada&#8221;. N&#227;o julgo, faria exatamente o mesmo. At&#233; j&#225; fiz, com meu irm&#227;o mais novo, quando na copa de 18 acertou um placar de algum jogo. Vamos ver se no futuro ele tamb&#233;m escreve uma cr&#244;nica.</p><p style="text-align: justify;">Comecei, de algum modo, a ver os adultos de um modo diferente: entendi que, ao me deixarem participar do bol&#227;o, com todo aquele incentivo, aquela felicidade, havia escondida alguma mal&#237;cia, talvez um tipo de tristeza encoberta pela dissimula&#231;&#227;o da felicidade.</p><p style="text-align: justify;">Estavam l&#225; meu tio-av&#244;, que morreria alguns anos depois de uma cirrose, brigado com a fam&#237;lia. O outro tio-av&#244;, j&#225; sem parte da perna, que morreria de diabetes. Meu pai, de infarto. Meus bisav&#243;s, de velhice. Uns casais ali se divorciaram, por trai&#231;&#227;o ou por cansa&#231;o do cotidiano. Os primos nem haviam nascido. Algumas das crian&#231;as de l&#225; cresceram e hoje nem nos falamos mais. E outras figuras que, se n&#227;o est&#227;o mortas, desapareceram na profus&#227;o das coisas acontecidas, e hoje n&#227;o se h&#225; qualquer not&#237;cia ou paradeiro. Nem aquela casa h&#225; mais, porque ao longo dos anos foi desfigurada por in&#250;meras reformas, com grades e muros e port&#245;es enormes para proteger dos ladr&#245;es &#8212; depois, vendida para qualquer um. At&#233; a venda de dona S&#244;nia fechou uns anos depois; ela ficou reclusa em casa, nem sei que fim levou.</p><p style="text-align: justify;">Se resta alguma alegria daquele dia, &#233; a bomba de esquerda de Roberto Carlos. Que gola&#231;o.<br><br></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!wKc5!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F34697701-8552-4e08-9415-2d32b1772eac_736x441.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!wKc5!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F34697701-8552-4e08-9415-2d32b1772eac_736x441.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!wKc5!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F34697701-8552-4e08-9415-2d32b1772eac_736x441.jpeg 848w, 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class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" 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Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Existe uma boa literatura contemporânea. ]]></title><description><![CDATA[Uma lista com 60 recomenda&#231;&#245;es de obras brasileiras do s&#233;culo XXI]]></description><link>https://matheusaraujo.substack.com/p/existe-uma-boa-literatura-contemporanea</link><guid isPermaLink="false">https://matheusaraujo.substack.com/p/existe-uma-boa-literatura-contemporanea</guid><dc:creator><![CDATA[Matheus Araújo]]></dc:creator><pubDate>Sun, 29 Sep 2024 14:38:21 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!_SC_!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fd35e81c8-8e97-40b5-b3ca-ccc40722260c_750x413.webp" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!_SC_!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fd35e81c8-8e97-40b5-b3ca-ccc40722260c_750x413.webp" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!_SC_!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fd35e81c8-8e97-40b5-b3ca-ccc40722260c_750x413.webp 424w, 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stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" 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data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://matheusaraujo.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Matheus Ara&#250;jo - Literatura! 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Minha inten&#231;&#227;o &#233; mostrar que existe sim uma boa literatura contempor&#226;nea e esse tipo de reducionismo n&#227;o nos cabe. <br><br>N&#227;o digo que n&#227;o exista tamb&#233;m a m&#225; literatura contempor&#226;nea. Ou que ela n&#227;o seja a maior parte da nossa produ&#231;&#227;o atual. Mas esse tipo de exagero hiperb&#243;lico, t&#227;o t&#237;pico dos que querem imitar o discurso virtual de Olavo de Carvalho, acaba dando a impress&#227;o, para muitos, de que s&#243; existe um tipo de literatura contempor&#226;nea, o que n&#227;o &#233; verdade.</p><p>Aos que quiserem tirar suas pr&#243;prias conclus&#245;es a respeito deste tema, tomei a liberdade de elaborar uma pequena lista que demonstra a riqueza da literatura brasileira atual. Na falta de um aparato cr&#237;tico e metodol&#243;gico que me permita definir o que seria literatura contempor&#226;nea (algo que tamb&#233;m parece faltar ao Rodrigo Gurgel, mas eu n&#227;o sou cr&#237;tico liter&#225;rio), pus na minha lista obras que foram publicadas no s&#233;culo XXI, apenas. </p><p>Nela est&#227;o tr&#234;s tipos de escritores: aqueles de outras gera&#231;&#245;es, j&#225; falecidos, mas que ainda publicaram livros no s&#233;culo XXI; aqueles de outras gera&#231;&#245;es, mas que est&#227;o vivos e produzindo; aqueles de uma nova gera&#231;&#227;o, que surgiram de 2010 para c&#225;, que est&#227;o apenas iniciando sua caminhada liter&#225;ria. Alguns desses &#250;ltimos autores publicaram somente uma obra, a de estreia.</p><p>Como regra, me impus selecionar apenas um livro de cada autor. Deste modo, temos 60 obras de 60 autores diferentes. Caso n&#227;o me impusesse tal regra, facilmente chegar&#237;amos a 100 boas obras da literatura contempor&#226;nea. <br><br>O que fazer com esta lista? Voc&#234; escolhe. Pe&#231;o que n&#227;o acredite em mim ou no Rodrigo Gurgel. Leia os contempor&#226;neos que listei abaixo e tire as suas pr&#243;prias conclus&#245;es. N&#227;o espere que algu&#233;m da internet pense por voc&#234;, nem se agarre &#224;s certezas deles. </p><p>Por &#250;ltimo, listei tamb&#233;m o meu livro de contos, que acaba de sair pela Editora Dan&#250;bio, &#8220;<a href="https://livrariadanubio.com.br/nunca-mais-sera-domingo">Nunca Mais Ser&#225; Domingo</a>&#8221;. Porque, obviamente, o considero bom. E, &#233; claro, eu n&#227;o perderia a oportunidade de divulg&#225;-lo em meio &#224; pol&#234;mica. <br></p><p>Bom, segue a lista:<br></p><ol><li><p>O Senhor do Lado Esquerdo, Alberto Mussa</p></li><li><p>O Senhor Agora Vai Mudar de Corpo, Raimundo Carrero&nbsp;</p></li><li><p>O Romance de Dom Pantero no Palco dos Pecadores, Ariano Suassuna</p></li><li><p>O Filho Eterno, Crist&#243;v&#227;o Tezza</p></li><li><p>Barba Ensopada de Sangue, Daniel Galera</p></li><li><p>Cinzas do Norte, Milton Hatoum</p></li><li><p>Rep&#250;blica do Pampa, Carlos Nejar</p></li><li><p>Pornopop&#233;ia, Reinaldo Moraes</p></li><li><p>O Albatroz Azul, Jo&#227;o Ubaldo Ribeiro</p></li><li><p>Nove Noites, Bernardo Carvalho</p></li><li><p>Miserere, Ad&#233;lia Prado</p></li><li><p>Entre as Ondas, &#194;ngelo Monteiro</p></li><li><p>A Imita&#231;&#227;o do Amanhecer, Bruno Tolentino&nbsp;</p></li><li><p>Medita&#231;&#245;es Sob os Lajedos, Alberto da Cunha Melo&nbsp;</p></li><li><p>V&#233;spera: Debris, Pedro Mohallem</p></li><li><p>Cavalos de Cronos, Jos&#233; Francisco Botelho&nbsp;</p></li><li><p>Casa dos Poetas, Leonardo Antunes</p></li><li><p>Auto da Romaria, Jo&#227;o Filho</p></li><li><p>O Corvo e o Colibri, Bernardo Souto</p></li><li><p>Guardem as Cinzas, Andrea Ferraz</p></li><li><p>O Que Choram os Mortos, Igor Maria Sales</p></li><li><p>O Mundo pelo Espelho, Leandro Carvalho</p></li><li><p>Paisagem Absoluta, Leandro Costa</p></li><li><p>Se Houvesse um Homem Justo na Cidade, Diogo Fontana</p></li><li><p>Milagre em Parais&#243;polis, F&#225;bio Gon&#231;alves</p></li><li><p>Deixe-me enterrar meu pai, Eliseu Xavier</p></li><li><p>O Deus Oculto no Canto do Corner, Milton Gustavo</p></li><li><p>O Homem que lia seus pr&#243;prios pensamentos, Alexandre Soares Silva</p></li><li><p>Para&#237;zo-Paraguay, Marcelo Labes</p></li><li><p>G&#243;tico Nordestino, Christiano Aguiar</p></li><li><p>Enquanto Deus n&#227;o est&#225; olhando, D&#233;bora Ferraz</p></li><li><p>Corpo Nulo, Lorena Miranda Cutlak</p></li><li><p>C&#227;es e Astrom&#233;lias, Mariana Machado</p></li><li><p>Linha D&#8217;&#225;gua, Jaci Bezerra</p></li><li><p>A Musa Roubada, Teresa Ten&#243;rio&nbsp;</p></li><li><p>A Quarta Forma do Del&#237;rio, Lucila Nogueira</p></li><li><p>No Tempo Fr&#225;gil das Horas, Luzil&#225; Gon&#231;alves Ferreira</p></li><li><p>Minha Amante em Leipzig, C&#233;sar Leal</p></li><li><p>O Natal de Herodes, Wladimir Saldanha</p></li><li><p>Verdades e Mentiras, Tiago Amorim</p></li><li><p>At&#233; Voc&#234; Saber Quem &#233;, Diogo Rosas</p></li><li><p>Claridade, Renato Moraes&nbsp;</p></li><li><p>P&#225;ssaros na Noite, Henrique Nascimento</p></li><li><p>Berkeley em Bellagio, Jo&#227;o Gilberto Noll</p></li><li><p>Fernanflor, Sidney Rocha</p></li><li><p>Sob o Sol do Meu Sangue, Igor Chacon</p></li><li><p>O Seminarista, Rubem Fonseca</p></li><li><p>Poesia Reunida, Leonardo Fro&#233;s</p></li><li><p>Nenhum Mist&#233;rio, Paulo Henriques Britto</p></li><li><p>Sentida M&#250;sica, Claudio Sousa Pereira</p></li><li><p>Forte como a Morte, Otto Leopoldo Winck&nbsp;</p></li><li><p>Poemas de Natal, Igor Barbosa</p></li><li><p>&#192; Sombra do Pai, Luiz C&#233;zar de Ara&#250;jo&nbsp;</p></li><li><p>Hars&#237;ese, Jacyntho Lins Brand&#227;o&nbsp;</p></li><li><p>Em alguma parte alguma, Ferreira Gullar</p></li><li><p>Icterofagia, Dirceu Villa</p></li><li><p>Nossos Ossos, Marcelino Freire</p></li><li><p>Contos, Luiz Arraes</p></li><li><p>Os Invernos da Ilha, Rodrigo Duarte Garcia</p></li><li><p>Nunca Mais Ser&#225; Domingo, Matheus Ara&#250;jo&nbsp;</p></li></ol><p></p><p>Espero que fa&#231;am bom proveito!</p><p></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://matheusaraujo.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Matheus Ara&#250;jo - Literatura! Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Adão ]]></title><description><![CDATA[Um conto para o Natal]]></description><link>https://matheusaraujo.substack.com/p/adao</link><guid isPermaLink="false">https://matheusaraujo.substack.com/p/adao</guid><dc:creator><![CDATA[Matheus Araújo]]></dc:creator><pubDate>Sat, 23 Dec 2023 14:33:38 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!7Ard!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F97ef7126-8d2a-45ad-b7e4-2a7e98c0ce77_800x569.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!7Ard!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F97ef7126-8d2a-45ad-b7e4-2a7e98c0ce77_800x569.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!7Ard!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F97ef7126-8d2a-45ad-b7e4-2a7e98c0ce77_800x569.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!7Ard!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F97ef7126-8d2a-45ad-b7e4-2a7e98c0ce77_800x569.jpeg 848w, 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stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" 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Os p&#233;s descal&#231;os pisavam na terra firme, a batina arrastava-se desgastada e suja na barra enquanto o velho crucifixo era segurado fortemente entre os dedos. Com o rosto contra&#237;do de dor e o queixo afundado no peito, sentiu uma brisa fresca e uma luz morna que descia em feixe pelos galhos das copas das altas &#225;rvores. Levantou o rosto cansado, abriu um sorriso leve, fei&#231;&#227;o serena, como se flutuasse.&nbsp;</strong></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://matheusaraujo.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Matheus Ara&#250;jo - Literatura! 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Ele aben&#231;oou a todos e dirigiu-se ao pequeno altar constru&#237;do dentro da maior casa da aldeia. Enquanto passava, olhavam-no como se contemplassem o som do trov&#227;o e faziam o sinal da cruz tal qual haviam aprendido com ele.&nbsp;</strong></p><p><strong>O rosto brilhava, ao redor dele fiapos de sol sa&#237;am &#224; semelhan&#231;a de uma coroa, movia-se t&#227;o devagar e graciosamente que parecia estar debaixo d&#8217;&#225;gua. Ajoelhou-se em frente ao Cristo Crucificado e orou, compenetradamente, de olhos fechados. Seus filhos o acompanharam em um coro silencioso. Quando terminou suas ora&#231;&#245;es, levantou-se, foi ao lado de fora e confessou um por um os &#237;ndios que esperavam enfileirados.</strong></p><p><strong>Andava pelas matas dia e noite, batizava os pag&#227;os, encenava pe&#231;as, entoava cantos, proferia serm&#245;es, declamava poemas, aconselhava os pecadores, aprendeu as l&#237;nguas dos nativos e conversava em seus termos, apresentava-lhes o Deus agonizante, salvava-os da escravid&#227;o, curava os enfermos, levantava os mortos, trazia paz aos aflitos. Contam que, ao caminhar em selva escura, repeliu uma on&#231;a somente com uma imposi&#231;&#227;o de m&#227;os; assim como a cobra que assustava uma tribo ao ouvir a voz daquele homem embrenhou-se novamente pela relva; assim como povos inimigos, ao atacar seu acampamento, somente de sentir o fogo branco que ardia em seus olhos desistiram da investida. Ensinava aos esquecidos o nome das coisas, como o primeiro nomear o mundo ainda no &#201;den. Certa vez, notando o desespero de uma fam&#237;lia ao ver o seu beb&#234; morto por doen&#231;a de brancos, sussurrou no ouvido da crian&#231;a e ela despertou para a vida novamente. As hist&#243;rias corriam pelos cipoais da mata feito saguis e chegavam aos mais diversos povos nos confins daquela terra prometida, e no cora&#231;&#227;o dos homens se agitava um fervor cujo nome eles n&#227;o conheciam, mas se chamava f&#233;.&nbsp;</strong></p><p><strong>Apesar da mansid&#227;o e do aspecto resoluto, vivia cansado, ofegava, as costas do&#237;am de tanto palmilhar, pelos dedos dos p&#233;s escorria o sangue que alimentava a terra, seiva divina, e o corpo pensava, dia ap&#243;s dia, conta ap&#243;s conta, em desistir; por&#233;m, levantava-se com uma for&#231;a que n&#227;o era dele, m&#227;os sustentavam-lhe os ombros e, quando o andar vacilava, parecia caminhar com outras pernas que n&#227;o eram suas. De tanto percorrer as bandas para l&#225; e para c&#225; &#233; que chamaram-lhe de pai.</strong></p><p><strong>Quando havia terminado de atender as confiss&#245;es, a noite levantava-se com a lua, h&#243;stia em brasa, o pio da coruja, o coaxar dos sapos e o lamento do urutau enchia os ecos das florestas assim como os sussurros sibilantes dos galhos e folhas. Foi deitar-se, ch&#227;o de palha, quase fechando os olhos, quando uma m&#227;o silenciosa tapou-lhe a boca.&nbsp;</strong></p><p><strong>Observou compenetradamente o &#237;ndio que o olhava com ardor na face. Pintado de cima a baixo, despido, mas de lan&#231;a na m&#227;o, sussurrou em sua l&#237;ngua, que Anchieta entendia:</strong></p><p><strong>&#8212; O anci&#227;o precisa de ti. N&#227;o &#233;s inimigo. Venha conosco.&nbsp;</strong></p><p><strong>Levantou-se com calma e cuidado para n&#227;o acordar os companheiros nas outras ocas e foi, seguindo o selvagem.&nbsp;</strong></p><p><strong>Andaram por um longo caminho de mata densa at&#233; chegar a um rio onde outros companheiros o esperavam. Olhavam-no com estranheza, mas n&#227;o ofereciam perigo. Pareciam ter sa&#237;do de um estado agitado de esp&#237;rito h&#225; pouco tempo e que, naquele momento, ao olhar o fraco homem que se aproximava, foram possu&#237;dos por uma grave calmaria. Subiu no barco e teve espa&#231;o para deitar. Olhou para a cruz que se desenhava no c&#233;u e entendeu que o Senhor havia lhe enviado ali por algum motivo. Orou e dormiu.</strong></p><p><strong>Acordou pela manh&#227; com respingos de &#225;gua na face, como orvalhos numa flor. Ainda navegavam, o sol ardia no gigantesco rio, por&#233;m l&#225; no alto as aves faziam sombra sobre o padre. Os &#237;ndios ao redor viram a cena e trocaram olhares calados. Desceram o rio por mais algumas horas, ancoraram na beira de uma outra aldeia. Era semelhante &#224; anterior, mas homens, mulheres e crian&#231;as andavam nus e observavam Anchieta com curiosidade. O primeiro &#237;ndio que o abordara tocou em seu ombro.</strong></p><p><strong>&#8212; Entre ali &#8212; apontava para a tenda maior.</strong></p><p><strong>Caminhou com calma, entre os &#237;ndios adornados, pintados e cheios de furos nos narizes e orelhas. Alguns tentaram se aproximar sem saberem o porqu&#234;, mas foram repelidos pela escolta que se formou ao lado do homem.&nbsp;</strong></p><p><strong>Quando entrou, viu no centro um amontoado de mulheres, que logo sentiram sua presen&#231;a e abriram espa&#231;o para que passasse. Ali estava sentado, apoiado em um tronco, de bra&#231;os abertos, um velho &#237;ndio. O nariz era largo, o rosto enrugado de sol, cabelos queimados, brancos e quebradi&#231;os, como uma ru&#237;na que ca&#237;a sobre si, mas ao mesmo tempo forte, ombros largos, bra&#231;os e pernas muito grandes, m&#250;sculos fl&#225;cidos que outrora teriam sido usados na ca&#231;a e na guerra contra os inimigos. Olhos fechados. Estava sendo banhado com unguento ind&#237;gena e respirava vapores que vinham de bacias ao seu redor. Cabisbaixo, respirava muito devagar e de maneira for&#231;ada, fazendo sons graves, &#224; maneira de algu&#233;m que tenta se salvar de um afogamento. Abriu vagarosamente o olhar e, ao enxergar o padre, um sorriso alargou-se na face e Anchieta percebeu&nbsp; o brilho dourado que o velho homem exalava.&nbsp;</strong></p><p><strong>&#8212; Finalmente &#8212; disse, arrastando a voz &#8212; esperei por voc&#234; a vida inteira.&nbsp;</strong></p><p><strong>Um raio desceu sobre o corpo do Padre, que tremeu diante da frase. Naquele momento, sua vis&#227;o tornou-se turva e quando voltou a ver estava &#224; beira de um longo rio, o maior que j&#225; havia visto em toda a terra, e a natureza ao seu redor era mais primitiva, parecia respirar. Uma m&#227;o vinda do alto, ent&#227;o, juntou um punhado de terra molhada das margens e com apenas alguns movimentos moldava distintas imagens, primeiro de uma linda crian&#231;a ind&#237;gena, que mais tarde cresceu e tornou-se um homem esbelto e depois um velho e depois mais nada e as imagens multiplicavam-se at&#233; tornarem-se uma s&#243; que diante de um sopro quente e vivo despertou. Viu o &#237;ndio nascer do ventre da sua m&#227;e, crescer entre os semelhantes, nu &#224; maneira dos animais, viu o pai dele morrer em uma violenta invas&#227;o que escureceu os rios de sangue, viu sua tribo tomada pelo fogo, viu ser escravizado e quase morto, viu fugir e vingar-se com as pr&#243;prias m&#227;os, viu copular com mulheres e mais mulheres, ter filhos e mais filhos, viver entre as &#225;rvores, ca&#231;ando p&#225;ssaros, matando on&#231;as, pescando, saltando, guerreando. Viu nele a inquieta&#231;&#227;o ao cometer cada pecado, sonhando com o Para&#237;so, pedindo perd&#227;o a um Deus que pensava ser imagin&#225;rio. Viu sua velhice, a derrocada, o abismo escuro e sombrio da morte, a f&#233; quase minguando ao perceber-se diante do fim sem resposta. Por fim, viu ele mesmo, Anchieta, batizando o &#237;ndio em seus sonhos, v&#225;rias e v&#225;rias vezes, e acima deles uma gigantesca pomba branca que espalhava suas penas como raios de sol e fazia descer sobre suas cabe&#231;as capit&#233;is em chamas.&nbsp;</strong></p><p><strong>Viu tudo isso em um instante que n&#227;o conseguia descrever. Estava novamente diante do homem quase morto, abaixou-se para falar com ele, pousando a m&#227;o sobre sua testa.&nbsp;</strong></p><p><strong>&#8212; Como &#233; teu nome, meu filho?&nbsp;</strong></p><p><strong>A resposta foi um murm&#250;rio que n&#227;o entendeu.&nbsp;</strong></p><p><strong>&#8212; Ser&#225;s o primeiro batizado da tua tribo. Dar-te-ei o nome de Ad&#227;o.&nbsp;</strong></p><p><strong>Voltou ao rio, onde encontrou uma cumbuca e com ela apanhou um pouco de &#225;gua, voltando &#224; tenda.</strong></p><p><strong>&#8212; Ad&#227;o, eu te batizo em nome do pai&#8230;</strong></p><p><strong>Um fio de &#225;gua desceu feito ouro na testa do &#237;ndio.</strong></p><p><strong>&#8211; Do filho&#8230;</strong></p><p><strong>E Ad&#227;o respirou profundamente, com olhos arregalados de alegria e agonia.</strong></p><p><strong>&#8212; E do esp&#237;rito santo. Am&#233;m.&nbsp;</strong></p><p><strong>O l&#237;quido caiu completamente sobre Ad&#227;o. Seu &#250;ltimo suspiro foi t&#227;o forte que os &#237;ndios ali sentiram a terra tremer. Fechou os olhos. O corpo desabou para o lado com uma batida seca na terra, levantando p&#243;.</strong></p><p><strong>Fizeram o funeral de acordo com o que Anchieta pediu, observaram as ora&#231;&#245;es do padre que pregou na l&#237;ngua deles, e ao redor do morto ficaram cabisbaixos. Naquele dia, Anchieta batizou toda a tribo.&nbsp;</strong></p><p><strong>Prometeram que levariam-no de volta na manh&#227; seguinte. &#192; noite, ap&#243;s o enterro e antes de dormir, Anchieta rezou ajoelhado na terra enquanto da fogueira no centro da aldeia erguia-se a fuma&#231;a que subia, leve como uma pluma, e dissolvia-se na imensid&#227;o das estrelas.&nbsp;</strong></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://matheusaraujo.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Matheus Ara&#250;jo - Literatura! 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Todo m&#234;s passo um exerc&#237;cio de escrita, al&#233;m das exposi&#231;&#245;es te&#243;ricas e corre&#231;&#245;es. Em outubro, os alunos propuseram uma brincadeira de escrevermos contos com a tem&#225;tica de terror. Alguns j&#225; tinham contos prontos (inclusive eu), outros os produziram nas &#250;ltimas semanas. Deixo abaixo o resultado dessa pequena brincadeira de dia das bruxas. Um abra&#231;o e boas leituras!</p><h2><strong>Dan&#231;a dos Alicates</strong></h2><p><em>Matheus Ara&#250;jo</em></p><p>1</p><p>&#9472; O dem&#244;nio tem olhos verdes.</p><p>A mo&#231;a, de olhos fechados, tremia. Eu tamb&#233;m tremia e descarregava o nervosismo no cigarro. Abri uma garrafa de u&#237;sque, ofereci, ela negou. Coloquei no meu copo duas doses e duas pedras de gelo.&nbsp;</p><p>&#9472; Posso come&#231;ar a grava&#231;&#227;o?</p><p>&#9472; Sim, senhora.&nbsp;</p><p>*</p><p>Madrugada, ruas vazias. Havia chovido, meu p&#233; ficou cheio de lama, &#224;s vezes um carro ou outro passava, r&#225;pido, ningu&#233;m fica de noite nos Bultrins. Eu voltava da igreja, o culto terminou mais tarde. Ouvi um barulho de motor, bem distante, se aproximando. Sempre ando preparada, abri o canivete e esperei. Vi a lambreta chegar mais perto, devagar, os far&#243;is desligados, s&#243; o fiapo de luz de um poste alumiava a treva. O homem parou &#224; minha frente.&nbsp;</p><p>&#9472; Fazendo o qu&#234; aqui essa hora?</p><p>&#9472; Voltando para casa.</p><p>&#9472; Quer carona?</p><p>&#9472; N&#227;o, j&#225; estou chegando, obrigado.</p><p>Continuei a andar, ele me pegou pelo bra&#231;o. Era um menino, branco, galego dos olhos verdes. Olhos muito, muito verdes. Tentei sair, mas ele segurou forte pelos ombros.&nbsp;</p><p>&#9472; Me larga</p><p>&#9472; Calma, s&#243; quero conversar.</p><p>Passei o canivete no bra&#231;o dele. O sangue escorria, arregalou os olhos. Paralisei. Bateu na minha m&#227;o, o canivete voou. Me deu uma tapa na cara e apertou meu pesco&#231;o. Vi a arma na m&#227;o dele.</p><p>&#9472; Desculpe, me desculpe, por favor.</p><p>&#9472; Voc&#234; prefere um tiro ou um belisc&#227;o?</p><p>&#9472; Um belisc&#227;o, um belisc&#227;o.</p><p>Tirou um alicate do bolso.&nbsp;</p><p>*</p><p>Ela solu&#231;ava, tentando segurar o choro.&nbsp;</p><p>&#9472; Quer continuar? N&#227;o precisa ficar nervosa, ele n&#227;o vai fazer mais nada. Se quiser que ele seja pego, precisa falar.&nbsp;</p><p>&#9472; Ele prendeu o alicate no meu peito e retorceu, apertou, girou, de um lado para o outro, at&#233; arrancar o mamilo. Ele me deixou l&#225; no ch&#227;o. Gritei muito, mas ningu&#233;m foi acudir.&nbsp;</p><p>Um gole e um trago. Ela levantou a blusa e vi a cicatriz no peito sem bico.&nbsp;</p><p>2</p><p>O Recife acordara. Fedor de mangue, canaletas cheias de mijo, o Capibaribe barrento e encrespado se arrastando pela cidade. Saltei do &#244;nibus e aproveitei para comprar a primeira carteira do dia, qual vai levar hoje, Esther? O mais barato, por favor. Com calor, tirei o colete e amarrei na cintura, pus os &#243;culos escuros.&nbsp;</p><p>A Pra&#231;a do Di&#225;rio estava um inferno. Gritos de um lado para o outro, gente correndo, quero nem imaginar a reda&#231;&#227;o. Um fusca azul, buzinando, parou do meu lado. Luiz abriu a porta.&nbsp;</p><p>&#9472; Entra, gatinha.</p><p>&#9472; Voc&#234; de novo?</p><p>&#9472; Bom dia para voc&#234;, tamb&#233;m.</p><p>Entrei no carro, fazer o qu&#234;? Aquele tro&#231;o fedia a meia velha. Tinha uma meia velha no banco de tr&#225;s. Luiz estava com um charuto na boca.&nbsp;</p><p>&#9472; Cubano, dos bons.</p><p>&#9472; O que &#233; que voc&#234; quer?</p><p>&#9472; N&#227;o consegue conversar com as pessoas?</p><p>&#9472; Se n&#227;o falar, abro a porta e vou embora.&nbsp;</p><p>&#9472; Tem calma, gatinha, vou te falar. Sabe aquela crente que voc&#234; me mandou para abrirmos a investiga&#231;&#227;o sobre Biu do Olho Verde?&nbsp;</p><p>&#9472; Sim. E a&#237;?</p><p>&#9472; N&#227;o quis fazer o corpo de delito. Ou seja, o delegado n&#227;o vai abrir a investiga&#231;&#227;o.</p><p>&#9472; Puta merda. Com essa quantidade de absurdos que soltam sobre o cara, d&#225; pra entender por que o delegado n&#227;o quer abrir o caso.&nbsp;</p><p>&#9472; Vou te confessar uma coisa: at&#233; agora eu n&#227;o acredito.&nbsp;</p><p>&#9472; Eu vi com meus pr&#243;prios olhos, babaca. Vou embora, preciso trabalhar.&nbsp;</p><p>Desci do carro e atravessei a rua, o vi fechar a porta e correr atr&#225;s de mim, esse desgra&#231;ado n&#227;o sai do meu p&#233;. Andei pela pra&#231;a esbarrando os ombros enquanto protegia o bolso dos trombadinhas. Luiz me segurou pelo bra&#231;o. Garotos com jornais na m&#227;o gritavam as manchetes.</p><p>&#9472; Eu queria falar com voc&#234;, Esther.</p><p>&#8220;Biu do olho verde faz mais uma v&#237;tima nos Bultrins.&#8221;&nbsp;</p><p>&#9472; &#201; que pode n&#227;o parecer, mas tenho sentimentos.&nbsp;</p><p>&#8220;Desconfiam que tenha roubado um banco no interior do estado&#8221;</p><p>&#9472; Sou um homem s&#233;rio, e voc&#234; &#233; uma mulher s&#233;ria.</p><p>&#8220;Um ex&#237;mio atirador&#8221;</p><p>&#9472; Voc&#234; deveria pensar, sabe, s&#243; pensar, com carinho, sobre n&#243;s.</p><p>&#8220;Psicopata &#224; solta em Recife e Olinda&#8221;</p><p>&#9472; Dever&#237;amos nos conhecer melhor.</p><p>&#8220;Arranca o bico dos seios das mulheres com um alicate&#8221;</p><p>&#9472; Topa sair comigo, gatinha?</p><p>&#8220;Loiro, atende pelo apelido de Biu do olho verde&#8221;</p><p>Joguei o cigarro no ch&#227;o, apagando a ponta com o sapato. O rel&#243;gio marcava sete e meia. Cocei os olhos enquanto bocejava.&nbsp;</p><p>&#9472; Olha s&#243;, Luiz, n&#227;o estou com tempo agora, preciso ir para a reda&#231;&#227;o. Quem sabe depois?</p><p>*</p><p>M&#227;os carregavam caixas e pap&#233;is de um lado para outro, telefones tocavam sem parar, impressoras rodavam o jornal da tarde, datil&#243;grafos enchiam a reda&#231;&#227;o com o tec-tec infernal e o censor riscava as not&#237;cias num canto escuro. Tomei dois goles de caf&#233;, bom dia Raimundo, Clarice, Bruno, um grito atravessou meus ouvidos, Esther, preciso de voc&#234; na minha sala, agora. Fui at&#233; l&#225;, hoje meu chefe acordou puto.&nbsp;</p><p>&#9472; Bom dia, Rodrigues.</p><p>&#9472; Chegou mais uma v&#237;tima para voc&#234;.</p><p>&#9472; Pelo visto os an&#250;ncios est&#227;o dando certo.</p><p>&#9472; E aquele rapaz, o policial?</p><p>&#9472; Luiz?</p><p>&#9472; Disse mais alguma coisa?</p><p>&#9472; O delegado n&#227;o quis abrir o caso. A v&#237;tima que entreguei a eles, aquela da mat&#233;ria da semana passada, n&#227;o quis fazer o exame.&nbsp;</p><p>&#9472; Eles est&#227;o achando que &#233; mentira. T&#234;m medo de que seja mais uma Perna Cabeluda, um mito qualquer. Voc&#234; tem certeza do que viu, Esther?</p><p>&#9472; Certeza. Absoluta. Te mostrei o &#225;udio, aquilo n&#227;o era mentira. Biu do olho verde existe.&nbsp;</p><p>&#9472; V&#225; falar com a nova v&#237;tima, depois conversamos.</p><p>Na minha sala, uma garota jovem esperava sentada. Cabe&#231;a baixa, os cabelos cobriam o rosto. Cumprimentei-a e sentei na cadeira. Acendi um cigarro, abri a garrafa de u&#237;sque, quer um gole? Ela negou, coloquei no meu copo, duas doses, duas pedras de gelo.&nbsp;</p><p>&#9472; Nome?</p><p>&#9472; Sofia.&nbsp;</p><p>&nbsp;&#9472; De que?</p><p>&#9472; Menezes.</p><p>&#9472; Idade?</p><p>&#9472; Vinte e um.</p><p>&#9472; Trabalha? Estuda?</p><p>&#9472; Curso teatro.</p><p>&#9472; Posso gravar a conversa?</p><p>&#9472; Sim.&nbsp;</p><p>Liguei o gravador.&nbsp;</p><p>*</p><p>Foi sexta-feira passada. Estava em Olinda com umas amigas, naquela parte hist&#243;rica, sabe? Nas ladeiras. Algumas j&#225; chegaram l&#225; b&#234;badas, eu n&#227;o bebi, n&#227;o podia, tinha exame de sangue no dia seguinte. Paramos em alguns bares, elas dan&#231;aram, mas eu estava meio desanimada. Tomei refrigerante e comi uma tapioca. Subimos e descemos as ladeiras a noite toda, entramos pela madrugada, n&#227;o fiquei muito atenta &#224; hora, ia dormir na casa de uma delas. Quando percebi, n&#227;o tinha mais ningu&#233;m na rua, tive que ajudar um bando de b&#234;badas a ir embora. Elas me prometeram que iam ficar sentadas no banco da pra&#231;a enquanto eu chamava o t&#225;xi. Fui sozinha e um cara me segurou pelo bra&#231;o. N&#227;o consegui me soltar, era forte demais. Quando olhei nos olhos dele, eram verdes, um verde berrante e monstruoso, tinha a l&#237;ngua bifurcada e chifres na cabe&#231;a.</p><p>*</p><p>Levantei da cadeira esmurrando a mesa.&nbsp;</p><p>&#9472; Tenho certeza que leu minha mat&#233;ria da semana passada e queria aparecer na capa tamb&#233;m. Pelo menos conte uma hist&#243;ria direito.</p><p>&#9472; O que houve? Estou falando a verdade.</p><p>&#9472; Saia da minha sala, antes que eu quebre isto na sua cabe&#231;a.</p><p>Segurei a garrafa de u&#237;sque e ela correu. Quando sa&#237; da sala, a reda&#231;&#227;o inteira olhava para mim. Respirei fundo, ajeitei o colete. Rodrigues se aproximou.</p><p>&#9472; E ent&#227;o?</p><p>&#9472;Mentirosa deslavada. N&#227;o aguento mais esse povo querendo aparecer.&nbsp;</p><p>&#9472; Calma, Esther. Amanh&#227; tem mais &#8212; disse com um sorriso ir&#244;nico.</p><p>Me tranquei na sala, fechei a cortina. No copo, mais duas doses. Acendi outro cigarro baforando calmamente a fuma&#231;a que emba&#231;ava minha vista.&nbsp;</p><p>3</p><p>Arrumava os arquivos quando bateram na porta, pode entrar. Rodrigues, de testa enrugada, trazia um jornal. Abriu numa p&#225;gina e entregou na minha m&#227;o.&nbsp;</p><p>&#9472; Veja o que o concorrente est&#225; falando sobre voc&#234;.</p><p>&#9472; Mentiras. Apenas disso &#233; formada a mat&#233;ria de Esther Magalh&#227;es publicada domingo passado no Di&#225;rio. O texto trata do depoimento de uma &#8220;v&#237;tima&#8221;; com aspas, que filho da puta; que teria sido violentada pelo psicopata e assassino Biu do Olho Verde, que vem assombrando Recife, Olinda e proximidades. Mas, veja s&#243;, quando levada para a pol&#237;cia, a &#8220;v&#237;tima&#8221; n&#227;o quis provar, por meio de um exame, que teria realmente sofrido a viol&#234;ncia. A mat&#233;ria de Esther foi um sucesso, o Di&#225;rio bateu recordes de venda, teria sido &#8220;coincid&#234;ncia&#8221;? Claro que n&#227;o, &#233; jornalismo barato, sujo, feito para vender, n&#227;o merece o m&#237;nimo de respeito e credibilidade. A mat&#233;ria s&#243; fez a pol&#237;cia perder tempo, e ainda faz, j&#225; que incitou uma onda de trotes de pessoas que dizem ter visto ou sido atacadas por Biu. O delegado fez bem em n&#227;o ter iniciado o caso, mas deveria prender a senhorita Esther Magalh&#227;es.&nbsp;</p><p>&#9472; E ent&#227;o?</p><p>&#9472; N&#227;o sei o que dizer.</p><p>&#9472; Escuta aqui, essa merda pode feder para o jornal inteiro ou s&#243; para voc&#234;. N&#227;o quero te demitir, mas agora seu &#250;nico trabalho &#233; provar a exist&#234;ncia de Biu do Olho Verde. Estamos entendidos?</p><p>*</p><p>A televis&#227;o chiava. Troquei as esta&#231;&#245;es dando porradas, o chiado aumentou, bati mais forte sacudindo o m&#243;vel, at&#233; que a imagem apareceu. Me afastei e o chiado voltou, desliguei aquela merda.</p><p>Sentei na poltrona do quarto, roupas pelo ch&#227;o, pacotes de comida e farelos espalhados em cima da cama desforrada, a parede com infiltra&#231;&#227;o fedendo a mofo. Pus gelo na cabe&#231;a. O corpo amolecendo, o quarto escurecia, o telefone tocou.</p><p>&#9472; Quem &#233;?</p><p>&#9472; Falo com Esther Magalh&#227;es?</p><p>&#9472; Sim, quem &#233;?</p><p>&#9472; Vi seu an&#250;ncio, sei que est&#225; procurando pistas de Biu do Olho Verde.</p><p>&#9472; Sim.&nbsp;</p><p>&#9472; Tenho muitas informa&#231;&#245;es, mas n&#227;o posso me identificar.</p><p>&#9472; Voc&#234; poderia se dirigir &#224; reda&#231;&#227;o?</p><p>&#9472; N&#227;o, anote meu endere&#231;o e venha aqui amanh&#227; &#224;s duas horas. Sozinha.</p><p>Rabisquei o endere&#231;o em minha agenda enquanto tentava desvendar aquela voz feminina. Assim que ela desligou, girei a roda discando os n&#250;mero do telefone e esperei.</p><p>&#9472; Al&#244;?</p><p>&#9472; Luiz, preciso de voc&#234;.&nbsp;</p><p>*</p><p>Bebi dois goles de caf&#233; e entreguei alguns cruzeiros para a balconista. Sentada na lanchonete, eu olhava para a delegacia no outro lado da rua esperando Luiz sair enquanto queimava o copo de pl&#225;stico com a ponta do cigarro. Havia me dito que era o dia de folga, s&#243; ia buscar alguns pap&#233;is. O fusca azul estava estacionado do lado de fora. Eu batia o p&#233; no ch&#227;o, vou me atrasar.&nbsp;</p><p>Uma menina gritava na lanchonete. Esperneando, batia na m&#227;e, chorava. O pai permanecia parado na mesa. Olhos castanhos, cabelos pretos. Um velho tomava sorvete com um menino; o av&#244;, de olhos azuis, cabelos brancos; o neto, de olhos azuis, cabelos pretos. Um casal se levantava da mesa, ainda conversando. A mo&#231;a tinha o cabelo encaracolado e ficava na frente do rapaz, eu n&#227;o conseguia v&#234;-lo. Levantei e fui andando em dire&#231;&#227;o a porta. Loiro, &#233; loiro, qual a cor dos olhos? Os olhos? Fiquei na frente da porta, n&#227;o deixei sa&#237;rem, a namorada se espantou, segurei ele pelo bra&#231;o. Olhos castanhos. Me afastei.</p><p>&#9472; Desculpe-me, achei que lhe conhecesse.</p><p>Atravessei a rua e fiquei em frente &#224; delegacia. Luiz apareceu logo depois, com pastas na m&#227;o. Fumava um charuto que tomei da boca dele e experimentei.&nbsp;</p><p>&#9472; Horr&#237;vel.</p><p>&#9472; N&#227;o diga isso, esse &#233; enrolado nas coxas da cubana.&nbsp;</p><p>&#9472; Vamos logo, n&#227;o podemos atrasar.&nbsp;</p><p>&#9472; Luiz, vejo que trouxe uma amiga.</p><p>Um senhor, vestido num terno gasto e sapatos brancos meio amarelados se aproximou de n&#243;s, careca e de barba grisalha, andava passo por passo, lento, sem pressa. Estendeu a m&#227;o, apertei firme.&nbsp;</p><p>&#9472; Boa tarde, senhorita Esther, sou o delegado Ant&#244;nio Rocha.</p><p>&#9472; Boa tarde, delegado.</p><p>&#9472; N&#227;o foi ela que nos trouxe aquela mo&#231;a, Luiz?</p><p>&#9472; Ela mesma, senhor.</p><p>&#9472; Vi que voc&#234; est&#225; com fama de mentirosa na cidade. Acho que perdeu a credibilidade nos jornais. E tenho certeza que perdeu com a pol&#237;cia.&nbsp;</p><p>&#9472; Meu servi&#231;o &#233; com a verdade dos fatos, senhor. Uma hora ver&#225; isso.&nbsp;</p><p>&#9472; Tome cuidado com essa da&#237;, Luiz. Depois converso com voc&#234;. At&#233; mais.&nbsp;</p><p>Estalou um beijo em minha m&#227;o, me olhando nos olhos, acenou com a cabe&#231;a para Luiz e foi embora. Ficamos calados durante um tempo, depois entramos no carro. Luiz deu a partida, o fusca engasgou, porra.</p><p>&#9472; Algu&#233;m vai ter que empurrar.</p><p>&#9472; Eu fa&#231;o isso.</p><p>&#9472; Sou o dono do carro, deixe que eu fa&#231;o.</p><p>&#9472; N&#227;o saia da&#237;, eu empurro.&nbsp;</p><p>N&#227;o precisei fazer muita for&#231;a, logo o carro engatou. Luiz parou, entrei, come&#231;ou a dirigir e nem ligou o r&#225;dio, olhava para mim de vez em quando. Acendi um cigarro encostada na janela, observando as &#225;guas do canal. As verdes &#225;guas do canal.</p><p>&#9472; N&#227;o aguento mais.</p><p>&#9472; O qu&#234;?</p><p>&#9472; Biu do Olho Verde. Todo lugar, toda pessoa que vejo, enxergo ele. Preciso encontrar esse cara.&nbsp;</p><p>&#9472; E n&#227;o &#233; isso que estamos fazendo?</p><p>&#9472; &#201;. Tem que ser. N&#227;o posso estar errada.</p><p>&#9472; N&#227;o est&#225;. Vamos encontr&#225;-lo, pode contar comigo.</p><p>O carro parou no sem&#225;foro. Luiz repousou a m&#227;o no meu joelho, ficou cara a cara comigo, se aproximando. Apertei a m&#227;o dele e dei dois tapinhas no ombro.</p><p>&#9472; O sinal abriu.</p><p>4</p><p>&#9472; &#201; aqui?</p><p>&#9472; Foi o endere&#231;o que ela me deu.</p><p>Paramos no topo duma ladeira. Hav&#237;amos subido um morro, entrado por vielas, os moradores nos olhavam, estranhando. A rua era um amontoado de casas no ch&#227;o de barro, algumas eram de madeira. O esgoto descia ao ar livre.&nbsp;</p><p>&#9472; Luiz, fique aqui e espere. Se eu gritar, entre na casa.&nbsp;</p><p>&#9472; Certo.</p><p>&#9472; Trouxe sua arma?</p><p>&#9472; &#201; claro.</p><p>&#9472; At&#233; logo.</p><p>Desci do carro e fui. Vinte e dois, a &#250;nica casa com n&#250;mero, s&#243; pode ser aqui. Num barraco do outro lado da rua, uma velha me olhava da janela. Muito magra, cabelos finos e brancos, tremendo, fez um n&#227;o com o dedo. Bati na porta. Abriram.&nbsp;</p><p>Uma garota gorda amamentando uma crian&#231;a me convidou para entrar. A casa era pequena e apertada, na sala s&#243; cabiam o sof&#225; rasgado e o r&#225;dio no canto, na cozinha uma mesa redonda e a pia. As paredes tinham tijolos &#224; mostra, faltavam telhas no teto.&nbsp;</p><p>&#9472; Quantos meses?</p><p>&#9472; Tr&#234;s.</p><p>&#9472; Voc&#234; mora com o pai dele?</p><p>&#9472; Sim. Ele saiu, estamos s&#243;s.</p><p>&#9472; Concorda que nossa conversa seja gravada?&nbsp;</p><p>&#9472; Sim, mas n&#227;o quero que saibam quem sou.</p><p>&#9472; O seu anonimato est&#225; garantido. Posso ligar o gravador?</p><p>&#9472; Sim.</p><p>*</p><p>Conheci Biu quando era crian&#231;a. Brinc&#225;vamos de subir na pitombeira, pular corda, esconde-esconde. A fam&#237;lia dele &#233; &#243;tima, me tratavam bem, a m&#227;e deixava a gente jogar bola de gude no quintal. Sempre foi conhecido em qualquer ladeira deste lugar. Quando cresceu, ficou famoso com as garotas. Galego e do olho verde, n&#227;o tinha uma menina que n&#227;o era apaixonada por Biu. E ele n&#227;o reclamava, claro, mulherengo do jeito que &#233;. Mas veja bem, nunca maltratou suas mulheres, nunca. Muito educado, n&#227;o espalhava nada sobre elas por a&#237;, pelo contr&#225;rio, elas que faziam isso. Era quase um t&#237;tulo: a namorada de Biu do Olho Verde.&nbsp;</p><p>Eu n&#227;o sei o que houve com ele. Quando ouvi as primeiras not&#237;cias, os boatos, duvidei. Perguntei e ele me prometeu que n&#227;o fizera, voc&#234; me conhece, eu nunca faria isso. Mas voltava b&#234;bado, gritando no meio da rua, a vizinhan&#231;a via e ouvia. No dia seguinte saia no jornal, Biu do Olho Verde ataca novamente.&nbsp;</p><p>N&#227;o aguentei, falei s&#233;rio com ele. N&#227;o podia continuar daquele jeito, gritei, pus o dedo na cara. Ele ficou calado. Depois que me acalmei, ele me segurou pela cintura, como n&#227;o fazia h&#225; tempos, deu um beijo. E depois fez isso aqui.&nbsp;</p><p>*</p><p>Ela descobriu o peito que n&#227;o amamentava a crian&#231;a. Estava sem o bico. Cheguei mais perto, as marcas estavam l&#225;, uma cicatriz esticava a pele, quase se partindo. O beb&#234; tirou a boca do outro peito, que ela limpou e cobriu. Colocou a crian&#231;a no bra&#231;o e deu tapinha nas costas. O menino era bochechudo, o rosto coberto de gordura apertava os dois olhos verdes como ervilhinhas. Cheguei mais perto, alisei o cabelo loiro. A garota se virou chorando.</p><p>&#9472; Precisa falar o que Biu fez para o gravador.&nbsp;</p><p>&#9472; Ele arrancou o bico do meu peito. Com um alicate. Como fez com todas as outras. Ele precisa parar de fazer isso. Ele precisa ser preso.&nbsp;</p><p>Escutamos um barulho de carro estacionando na frente de casa. Ela viu pela brecha da janela e virou para mim com os olhos arregalados.</p><p>&#9472; Voc&#234; tem que ir.</p><p>A porta se abriu com um estrondo e um homem magro e alto entrou. O corpo impedia a chegada do sol na sala, as r&#233;stias de luz contornavam a silhueta. Passou a vista pela casa depois pairou sobre mim.&nbsp;</p><p>&#9472; O que esta mulher faz aqui em casa?</p><p>&#9472; Calma, amor, eu posso explicar.&nbsp;</p><p>Se aproximou, apertando meu rosto, vi-o de perto, os olhos verdes me chuparam como a ressaca da mar&#233;, o empurrei no peito e ele bateu de costas na parede, sa&#237; correndo pela porta, guardei o gravador no bolso, fui at&#233; o carro de Luiz no fim da rua, corri assoviando, sem olhar para tr&#225;s, entrei no fusca azul, ofegava; vai, dirige, r&#225;pido; Luiz girou a chave e acelerou, o carro continuava parado, Biu sa&#237;a da casa, a mulher segurando ele pelo bra&#231;o; vai logo, anda, calma, caralho; o carro engasgava, barulho de pe&#231;a solta, o cara de longe apontou a arma, me abaixei, Luiz gritava, peguei a rev&#243;lver dele embaixo do banco e atirei contra Biu, os cacos de vidro se espalharam pelo&nbsp; carro.&nbsp;</p><p>O fusca ligou e descemos pela ladeira.&nbsp;</p><p>5</p><p>Vestia uma camisola branca de hospital. Na minha frente, uma mesa quadrada e a sala sombria, apenas uma l&#226;mpada solta e fraca iluminava meu rosto. O delegado Rocha, co&#231;ando a barba, ofereceu um cigarro, n&#227;o, obrigada, p&#244;s uma garrafa de u&#237;sque do meu lado, n&#227;o, obrigada. Apoiou as duas m&#227;os sobre a mesa e me encarou.&nbsp;</p><p>&#9472; Voc&#234; ainda n&#227;o contou o final.&nbsp;</p><p>&#9472; Aquela foi a primeira vez que vi Biu do Olho Verde. A &#250;ltima irei contar agora.&nbsp;</p><p>&#9472; Sabe que n&#227;o confio nas suas hist&#243;rias, n&#227;o &#233;?</p><p>&#9472; Ent&#227;o por que estou aqui?</p><p>&#9472; Precisamos de testemunhas. Depois analisaremos tudo com calma.&nbsp;</p><p>&#9472; Estou aqui porque ningu&#233;m conhece esta hist&#243;ria mais do que eu. Mas o senhor n&#227;o d&#225; o bra&#231;o a torcer.&nbsp;</p><p>&#9472; Deixe de lenga-lenga. Conte-me tudo.&nbsp;</p><p>*</p><p>Descemos a ladeira sem pisar no freio. Minha press&#227;o baixara, as m&#227;os tremiam, frias, a pele, p&#225;lida. Luiz s&#243; diminuiu a velocidade quando chegamos numa avenida movimentada. Tinha os olhos esbugalhados, respira&#231;&#227;o forte.&nbsp;</p><p>&#9472; Era ele?&nbsp;</p><p>&#9472; Sim.</p><p>&#9472; Eu n&#227;o vi. Tem certeza que era ele?</p><p>&#9472; Tenho, porra. Era ele. Biu do Olho Verde. Est&#225;vamos na casa dele, conversei com a esposa dele, brinquei com o filho dele.&nbsp;</p><p>&#9472; O tiro pegou?&nbsp;</p><p>&#9472; N&#227;o sei.</p><p>&#9472; Eu deveria ter descido do carro e matado o desgra&#231;ado.&nbsp;</p><p>&#9472; Ele tem fama de bom atirador. Agora temos teu testemunho, uma grava&#231;&#227;o, endere&#231;o.</p><p>&#9472; Preciso falar com o delegado.&nbsp;</p><p>&#9472; E eu preciso escrever esta mat&#233;ria para amanh&#227;.</p><p>&#9472; Vou lhe deixar no Di&#225;rio, depois vou na delegacia. Quando terminar, te busco l&#225;, certo?</p><p>&#9472; Passarei a madrugada na reda&#231;&#227;o, escrevendo.&nbsp;</p><p>&#9472; E eu com voc&#234;.&nbsp;</p><p>Quando Luiz estacionou na frente do jornal, o abracei. Me segurei um pouco para n&#227;o chorar. Ao fim de tudo, n&#227;o conseguiria a prova se n&#227;o fosse por ele. Depois desci do carro e entrei no pr&#233;dio.&nbsp;</p><p>A reda&#231;&#227;o estava quase vazia, uns arrumavam pap&#233;is e outros sa&#237;am de mochila nas costas. N&#227;o cumprimentei ningu&#233;m, entrei na minha sala j&#225; me servindo, n&#227;o contei as doses, enchi o copo. Minhas m&#227;os ainda tremiam, acendi o cigarro, virei o copo inteiro, a boca adormeceu, o est&#244;mago queimava. Enchi outra vez, peguei a m&#225;quina de escrever, coloquei-a na minha frente. Ajustei o rolo, estalei os dedos e o pesco&#231;o.&nbsp;</p><p>Escutava a fita enquanto transcrevia o &#225;udio. Depois de terminar, passei a limpo os erros e comecei a montagem da mat&#233;ria. Rodrigues abriu a porta, tinha rugas na testa.</p><p>&#9472; N&#227;o sabia que estava aqui.</p><p>&#9472; Rodrigues, tudo o que preciso &#233; da reda&#231;&#227;o para mim esta noite. Encontrei Biu do Olho Verde e isto vai sair no jornal de amanh&#227;.&nbsp;</p><p>&#9472; Est&#225; falando s&#233;rio? Voc&#234; tem certeza?</p><p>&#9472; Espero que confie em mim</p><p>&#9472; Est&#225; escrevendo a mat&#233;ria?</p><p>&#9472; Sim.</p><p>&#9472; N&#227;o vou te atrapalhar. A chave fica com voc&#234;, quando sair, deixe-a com o porteiro.&nbsp;</p><p>Jogou a chave no meu colo e desejou boa sorte.&nbsp;</p><p>Escrevia p&#225;ginas, rasgava, jogava no lixo, escrevia, rasgava, cansada, a cabe&#231;a do&#237;a, mais uma dose, o cigarro acabou, meia noite. Escutei um barulho na sala, cadeiras se mexiam, abri a porta.</p><p>&#9472; Luiz?</p><p>Um homem alto, parado entre as mesas. Vestia jaqueta marrom, &#243;culos escuros e usava um chap&#233;u. Caminhando vagarosamente na minha dire&#231;&#227;o, os passos ecoavam.&nbsp;</p><p>&#9472; Voc&#234; &#233; Esther Magalh&#227;es?</p><p>&#9472; Sou. O que quer?</p><p>&#9472; Vi seus an&#250;ncios no jornal. Precisa de testemunhas para o caso de Biu do Olho Verde?</p><p>&#9472; Sim, mas neste momento n&#227;o posso atender ningu&#233;m. Como entrou aqui? O porteiro lhe viu?</p><p>&#9472; Viu de relance. Depois caiu para tr&#225;s com o bucho rasgado&nbsp;</p><p>Tirou os &#243;culos e colou o rosto no meu. Os olhos verdes. Dei um murro na cara dele, o chap&#233;u caiu, vi o cabelo loiro, tentei me afastar. Me jogou do outro lado da sala, voei por cima da mesa, quebrando a garrafa de u&#237;sque no ch&#227;o. Com um caco de vidro, cortei o ar enquanto ele se aproximava. Me encurralou no canto da sala, pisou no meu tornozelo, quebrando. Gritei e soltei o vidro. Biu torceu meu bra&#231;o, escutei o estalo, estrebuchei. Arranhava a cara dele, sangue escorria. Deu uma cotovelada na minha testa, a sala escureceu por alguns segundos, quando vi, eu j&#225; estava sem blusa deitada na mesa.</p><p>De joelhos em cima de mim, ele tirava um alicate do bolso. Eu n&#227;o conseguia mexer o bra&#231;o quebrado, e ainda estava deitada em cima do outro, Biu fazia peso, apertando os ossos da minha perna, que quase cediam. Olhou para a ponta do alicate e sorriu. Abrindo-o com calma, repousou o objeto sobre meu peito, fechando-o devagar, at&#233; que senti a press&#227;o sobre o mamilo. A dor preencheu meu corpo, tive vontade de vomitar, ele retorcia o alicate, rindo, girava, de um lado para o outro, minha vista escurecia, eu escutava as gargalhadas. Ele ergueu o peda&#231;o de carne, ainda preso no alicate. Pingava sangue.&nbsp;</p><p>Deu duas tapas no meu rosto, a &#226;nsia subia ainda mais.&nbsp;</p><p>&#9472; Nem imagina o que tive que fazer com aquela mulher depois que voc&#234; foi embora. Nem com a crian&#231;a.</p><p>Engasguei, senti o v&#244;mito sair pelo nariz.</p><p>&#9472; Queria me pegar, n&#227;o &#233;? Peguei voc&#234; primeiro.&nbsp;</p><p>Enterrou a ponta do alicate no outro mamilo e puxou de uma vez, n&#227;o arrancou, e continuava puxando, eu n&#227;o conseguia mais gritar, minha cabe&#231;a pendia de lado, eu via a porta aberta e a reda&#231;&#227;o vazia. Senti mil agulhas penetrando meu corpo e o sangue minando de cada ferida. Ele saiu de cima e me deixou cair no ch&#227;o.&nbsp;</p><p>Escutei um grito. Mesmo com a vis&#227;o emba&#231;ada, reconheci Luiz entrando na reda&#231;&#227;o, empunhava a arma. Quando me viu, veio correndo. Tentei gritar, mas Biu j&#225; havia enterrado duas balas na testa do meu amigo.&nbsp;</p><p>*</p><p>Delegado Rocha me olhava sem express&#227;o. Verificou o rel&#243;gio, respirou fundo e trouxe a l&#226;mpada para perto do meu rosto. Meus olhos deviam estar vermelhos, senti l&#225;grimas, a voz presa na garganta. Ele examinou meu bra&#231;o engessado, o tornozelo e o hematoma no rosto. Levantei a camisola.</p><p>&#9472; &#201; isso que voc&#234; precisa ver?&nbsp;</p><p>Levou as m&#227;os &#224; cabe&#231;a, vermelho. O queixo tremia. Bateu na mesa e gritou fechando os olhos, respirando fundo. Sentou-se, segurou na minha m&#227;o.</p><p>&#9472; Biu do Olho Verde matou um policial, um dos meus melhores, que eu considerava filho. Te garanto que vai ser pego num instante. Quer que eu fa&#231;a alguma coisa, qualquer coisa?</p><p>&#9472; Quero que voc&#234; mate aquele filho da puta.&nbsp;</p><p>6</p><p>&#9472; Desde quando voc&#234; toma tarja preta?</p><p>Tomei o rem&#233;dio com &#225;gua. Rodrigues me olhava com pena, talvez fosse tristeza. Ficou de p&#233; e continuei sentada na poltrona&nbsp;</p><p>&#9472; De vez em quando ajuda. Mas aumentei a frequ&#234;ncia depois do que aconteceu.&nbsp;</p><p>&#9472; Voc&#234; n&#227;o mistura com bebida, n&#227;o &#233;?</p><p>&#9472; De jeito nenhum.&nbsp;</p><p>Ele acendia um cigarro, olhando pela janela. Chovia forte, o c&#233;u estava emba&#231;ado, e o &#250;nico barulho era dos pingos batendo no telhado. Andou de um lado para outro, olhou o rel&#243;gio, depois se agachou na minha frente.&nbsp;</p><p>&#9472; N&#227;o conseguiram pegar Biu. Nem pista, uma pista sequer. Foram no endere&#231;o que voc&#234; indicou, n&#227;o havia nada comprometedor. O sangue e as digitais n&#227;o serviram de muita coisa. Tem certeza de tudo que aconteceu, Esther?</p><p>&#9472; Voc&#234; vem na minha casa dizer que sou uma mentirosa?</p><p>&#9472; N&#227;o, de forma alguma. Deixe isso para l&#225;.&nbsp;</p><p>Comecei a suar, as m&#227;os tremendo, respirei fundo, mais um gole. Me levantei e fui andando apoiada nas muletas at&#233; o quarto. Rodrigues veio atr&#225;s de mim, com medo de que eu ca&#237;sse.&nbsp;</p><p>&#9472; &#201; muito dif&#237;cil sem voc&#234; no Di&#225;rio.</p><p>&#9472; Ainda vou voltar, fique tranquilo.</p><p>&#9472; Ent&#227;o, &#233; por isso que vim aqui.</p><p>Peguei um estojo no arm&#225;rio, e me sentei. Cortava as unhas da m&#227;o enquanto conversava com Rodrigues.</p><p>&#9472; Tive uma reuni&#227;o com o pessoal e decidimos que voc&#234; n&#227;o precisa voltar. Agradecemos imensamente o trabalho que fez, mas preferimos que continue assim.&nbsp;</p><p>&#9472; Por que est&#227;o fazendo isso? Eu j&#225; n&#227;o provei? Eu j&#225; n&#227;o disse que Biu do Olho Verde existe? Ainda duvidam de mim?</p><p>&#9472; O que voc&#234; fez foi muito importante. Mas agora precisamos que fique mais tempo afastada. Quem sabe no futuro? Talvez voc&#234; encontre outra coisa.</p><p>&#9472; Voc&#234; acha que sou louca.</p><p>&#9472; De jeito nenhum.</p><p>Tirei um alicate do estojo. Rodrigues olhava fixamente para mim. N&#227;o era tristeza. Nem pena.</p><p></p><p><strong>Matheus Ara&#250;jo</strong> &#233; professor de literatura, revisor e escritor. O seu primeiro livro de contos, Nunca Mais Ser&#225; Domingo, ser&#225; publicado em 2024. Ministra a Mentoria de Escrita Liter&#225;ria desde o in&#237;cio de 2023.</p><div><hr></div><h2><strong>O &#218;ltimo ele n&#227;o Pega</strong></h2><p><em>Lucas Juliano</em></p><p>Meu vizinho era um cara cheio das brincadeiras estranhas. Costumava nos assustar com todo tipo de narrativa ligada ao sinistro; falava sobre assombra&#231;&#227;o, alma penada, nome na boca do sapo e at&#233; dava dicas de mandingas pra se livrar do mau olhado. O problema era que todas aquelas suas hist&#243;rias n&#227;o eram vistas como fic&#231;&#227;o por mim e por meu irm&#227;o, elas se misturavam &#224; realidade. Isso era consequ&#234;ncia do h&#225;bito que o farsante tinha de dar sempre ar de seriedade &#224;s pr&#243;prias mentiras, como por exemplo a hist&#243;ria de que ele havia levado tr&#234;s tiros cruzados numa briga, e que sua sobreviv&#234;ncia tinha sido obra de reza forte. Pra completar o espet&#225;culo, ainda mostrava as cicatrizes na barriga. Mam&#227;e retrucava e mandava a gente n&#227;o cair nas ladainhas do sujeito; a barriga era marca de &#225;gua quente que teria ca&#237;do nele quando o vizinho ainda era crian&#231;a. Eu e meu irm&#227;o, por mais que confi&#225;ssemos em nossa m&#227;e, n&#227;o consegu&#237;amos desacreditar de todo naquelas hist&#243;rias de natureza estranha.</p><p>Outro exemplo de como esses contos da carochina invadiam nosso cotidiano, &#233; o caso da vela. A hist&#243;ria era que numa noite, quando estava indo dormir, apagou a vela, e j&#225; no escuro, ouviu uma respira&#231;&#227;o al&#233;m da sua. Para deixar a gente mais amedrontado, ainda disse que aquilo era normal: aparecer coisa ruim antes de dormir. Essa hist&#243;ria fez eu e meu irm&#227;o nos apavorarmos na hora de apagar a luz. Passamos a competir ou decidir na sorte quem apagaria a vela. Quando nossa m&#227;e percebeu como est&#225;vamos vivendo aquele folclore, foi brigar com vizinho, disse pra ele parar com aquilo, que estava atormentando as nossas noites com aquelas hist&#243;rias. Ele ent&#227;o pediu desculpas, deu umas justificativas sem sentido e terminou dizendo precisava ir dormir pois o outro dia come&#231;ava cedo. &#8220;Boa noite&#8221;, ele disse. &#8220;Boa noite pro senhor tamb&#233;m&#8221;. &#8220;Boa noite&#8230;&#8221;, ele disse novamente, completando a frase enquanto entrava na sua casa &#8220;&#8230;dou sempre esse &#250;ltimo boa noite, porque o &#250;ltimo o Sass&#225; n&#227;o pega&#8221;, e fechou a porta.</p><p>N&#243;s, que est&#225;vamos ouvindo toda a conversa do canto da nossa porta, sab&#237;amos do que ele estava falando. <em>Sass&#225;, Tinhoso, Coisa-ruim;&nbsp;</em>todos esses nomes. N&#243;s sab&#237;amos do que se tratava. Esse nome j&#225; tinha sido citado em outras narrativas. Era mais uma de suas supersti&#231;&#245;es, sempre deveria ser o &#250;ltimo a dar boa noite porque &#8220;o &#250;ltimo o diabo n&#227;o pega&#8221;. N&#243;s nunca entendemos o que isso significava, mas o C&#227;o poder vir nos pegar de madrugada era um medo real, e mesmo que o objetivo da minha m&#227;e tivesse sido acabar com o medo causado por suas hist&#243;rias e brincadeiras, o resultado foi outro: agora, nenhum de n&#243;s queria ser o &#250;ltimo.</p><p>Naquela noite, eu e meu irm&#227;o, no quarto, tent&#225;vamos sobreviver ao Sem-nome. Os dois sussurravam, &#8220;boa noite&#8221;, sabendo que aquele que n&#227;o dissesse poderia ter sua alma levada embora pra um mundo de n&#227;o-sei-onde. O medo era tanto que quando eu ainda estava terminando a palavra &#8220;noite&#8221;, ele j&#225; come&#231;ava &#8220;boa&#8230;&#8221;. &#8220;Boa noite&#8221;, &#8220;boa noite&#8221;, &#8220;boa noite&#8221;. A &nbsp;competi&#231;&#227;o se estendeu&nbsp;durante algum tempo, at&#233; que fomos cansando. Eu disse: &#8220;boa noite&#8221; e ele n&#227;o falou nada. Esperei alguns segundos, era a vez dele tentar livrar a alma do mal, mas n&#227;o ouvi nada. Naquele instante olhei pra ele com medo de que algo terr&#237;vel pudesse ter acontecido ao meu irm&#227;o, mas n&#227;o era nada, s&#243; o sono que j&#225; havia chegado; ele estava dormindo. Desisti. Achei que n&#227;o havia mais nada pra nos pegar e resolvi dormir. &#8220;Boa noite&#8221;, falei uma &#250;ltima vez. Ent&#227;o, fechei os olhos pra dormir, e uma voz sussurrou: &#8220;Tem certeza que &#233; o &#250;ltimo que eu n&#227;o pego?&#8221;.</p><p></p><p><strong>Lucas Juliano</strong><em> </em>nasceu em Santos (S&#227;o Paulo). Por trabalhar com tecnologia escreve pouco.</p><div><hr></div><p></p><h2><strong>Um po&#231;o</strong></h2><p><em>Dm&#237;tri Ramus</em></p><p>A mulher achou no c&#233;u o vermelho do come&#231;o do dia, por entre os galhos secos das &#225;rvores. Nos seus bra&#231;os, a crian&#231;a chorou fraquinho; enquanto a menina tentava ver a silhueta de ambas &#224; janela.</p><p>&#8212; Antes que o sol esquente &#233; melhor que tu v&#225;s. Pega o balde e vai l&#225; na fonte do riacho. Tem de ser. Ningu&#233;m daqui de perto tem mais &#225;gua de sobra pra dar e j&#225; abusamos da boa vontade com esse beiju que vais comer no caminho. O resto expliquei, quando esquentar, procura as sombras.</p><p>A menina foi at&#233; o balde e o levantou, o fundo perto do ch&#227;o; era franzina. Abra&#231;ou a m&#227;e com o irm&#227;o para se despedir. Dando um beijo na testinha, sentiu o quente da febre, em contraste com a frieza da madrugada que fugia.</p><p>Saiu com as sand&#225;lias levantando poeira; duras como o ch&#227;o, protegiam-na das pedras pontudas. Os ombros desencolheram &#224; medida em que o frio passou e o balde pesou. Trocava-o de m&#227;os quando n&#227;o suportava a dor da al&#231;a na carne.</p><p>Quando os galhos pelo caminho d&#227;o tr&#233;gua e abrem espa&#231;o, a menina acompanha as linhas do ch&#227;o, ouve o chiado da terra sobre os p&#233;s e conta at&#233; o &#250;ltimo n&#250;mero que lembra. Pensando no beiju, esquece a dorm&#234;ncia nos dedos, at&#233; o sol subir e a m&#227;o solta puxar os cabelos, colando no rosto. </p><p>Com os olhos estreitos, afastados do c&#233;u e do ch&#227;o pelo sol e seu reflexo, ela percorre o horizonte; a colina da fonte do riachinho desponta, a quase uma hora de caminhada, com aquele passo mi&#250;do. Rezou em um sussurro, o caminho amolecia na vista, sentiu fome.</p><p>Parou na sombra de uma barriguda seca e largou o balde no ch&#227;o. N&#227;o encontrou o beiju que a m&#227;e dera horas antes. Mexeu na roupa, como se ela tivesse outros bolsos, procurou no ch&#227;o, andou por onde viera. Nem sombra da comida. Se contorceu de raiva e chorou com um grito.</p><p>De volta &#224; &#225;rvore, vizinha ao balde, o salgado de uma l&#225;grima apertou-lhe a sede; irada, marchou pro riacho. </p><p>A fonte &#233; toda marcada com pedras grandes, n&#227;o tem como passar reto. Ventava. Ouviu um marulho e arfando subiu nas rochas maiores, raspando o balde. Passou do topo, procurando o ru&#237;do, nem um brilho. O sopro do outro lado do morro batia as folhas nas reentr&#226;ncias. Secas, farfalhavam, o som que ouvira agora h&#225; pouco. Nada de &#225;gua.</p><p>&#8212; Que djabo. S&#243; o djabo pra me dar &#225;gua agora.</p><p>Jogou o balde de lado. Esgoelou-se e xingou de novo. Marcou o tempo bufando. Arrancou o balde de onde ca&#237;ra e saiu, olhando pro ch&#227;o, apressada. S&#243; o diabo. Desceu a colina chutando cascalho, levantando p&#243;, sem prestar aten&#231;&#227;o ao caminho.</p><p>Minutos depois escancarou os olhos, apesar da luz intensa. N&#227;o havia sinal da &#225;rvore onde se deu conta da perda do beiju. Rodou tr&#234;s vezes, olhando as plantas, todas parecidas no emaranhado de amarelo, cinza. Devagar, como ainda em d&#250;vida, voltou a caminhar. E andou.</p><p>Andou por horas. &#192;s vezes r&#225;pido, como apressada de chegar; depois lenta, vacilante. Andou at&#233; doer o p&#233; tanto quanto doeu a m&#227;o. Animou-se quando viu um peda&#231;o de cerca, devia estar perto do povoado. Mais tr&#234;s passos e viu.</p><p>Do lado de dentro da cerca, parcialmente oculto por um avel&#243;s, com um telhado faltando peda&#231;o e as madeiras podres, enxergou um po&#231;o, redondo, com alguns tijolos alaranjados soltos. Olhar ao redor foi instintivo e j&#225; ia se enfiar por um espa&#231;o, quando viu uma passagem de gente, com um toco de evitar bicho. Correu por ali, segurando o balde com os dois bracinhos. De longe viu que n&#227;o tinha corda.</p><p>Inclinou-se esperan&#231;osa pela borda. Sentiu o &#250;mido subir, como vapor ameno; a imagem do rosto, torcido, no reflexo da &#225;gua. N&#227;o era t&#227;o fundo. Hesitou; subiu e desceu o balde com o bra&#231;o sentindo o peso, do&#237;a as m&#227;os. A aus&#234;ncia de reparos deixara uma abertura na parede do po&#231;o. Por dentro, havia uma parede toda rugosa, com espa&#231;o para o p&#233;; alguns peda&#231;os de ra&#237;zes faziam uma s&#233;rie de apoios, al&#231;as. A menina p&#244;s uma perna por cima dos tijolos, levantou o balde e pisou com a outra perna. A sand&#225;lia resvalou no barro seco.</p><p>Longe, a m&#227;e andava do filho doente &#224; ang&#250;stia da janela. Depois de passar o meio dia, hora da mais quente, preocupou-se. No fim da tarde, lembrou da recomenda&#231;&#227;o de evitar o sol e sentiu um alento. Ela h&#225; de chegar. Cabeceava o ar cada vez com mais for&#231;a sentada ao lado do ber&#231;o de madeira em que o menino ainda cabia, apesar da idade. Ele tiritou de frio; son&#226;mbula, fechou a janela. Resistiu &#224; noite, mas o sono veio inclemente. J&#225; amanhecera quando abriu os olhos, talvez um barulho l&#225; fora a despertasse.</p><p>Levantou logo em dire&#231;&#227;o ao menino, que respirava raspando, definhado. Pegou-o nos bra&#231;os e foi abrir a porta, ouvia passos. Era a menina. A luz d&#233;bil entrou na casa, junto com a silhueta que ia pelo ch&#227;o espichada &#224; sua frente. Ela p&#244;s o balde cheio no p&#233; ao p&#233; da entrada.</p><p>Precipitou-se ao agradecer, esqueceu de si e deu pouca aten&#231;&#227;o &#224; filha, foi direto &#224;s cumbucas, para limpar o menino, tirar o grude de terra e suor que se juntava nas bochechas, pesco&#231;o. No come&#231;o nem cuidou para n&#227;o desperdi&#231;ar, separou em uma tina o que daria de beber, parando para dar uns goles. Inclinou um copo de lata e a boquinha da crian&#231;a encheu. Passaram uns minutos e j&#225; parecia menos abatida.</p><p>Com o pequeno mais animado, de pronto preparou um banho com os trapos mais limpos que possu&#237;a, para limpar de verdade. A crian&#231;a melhorava visivelmente; deu-lhe um pouco de comida, que sobrara n&#227;o sabia como. Passou a tarde cuidando dele, absorvida. Exausta com todos os afazeres que a chegada do balde provocara, p&#244;s o menino de volta no ber&#231;o. Deu, ent&#227;o, por falta da garota. </p><p>Chamou. Nada. De p&#233;, via o c&#244;modo inteiro, &#250;nico. Contornou a casa por fora, m&#227;o nos quadris. Afastou-se um pouco, no rumo das &#225;rvores, por todos os lados, a tarde ia alta, a m&#227;o sobre os olhos, tentando enxergar por entre os galhos. Berrou o nome dela para todos os cantos, a m&#227;o em concha ao redor da boca. Deu uns passos pelo caminho que sa&#237;a do terreno e voltou para dentro apertando o vestido na altura do peito.</p><p>Arrumava as coisas no c&#244;modo, pondo-as de volta no mesmo lugar. Antes de escurecer, ainda chamou umas vezes, da porta. Dormiu inquieta. Torcia-se no jirau. Suava. Frio.</p><p>Dessa vez o ru&#237;do l&#225; fora a acordou de um pulo. Um raspar compassado e um gemido baixo. Tentou pisar leve e pela fresta da porta viu uma sombra pequena, se arrastando no sentido da casa. Disse o nome da menina, baixo, mas aud&#237;vel. A figura mexeu-se e sua face levantou. Era ela.</p><p>A m&#227;e correu em sua dire&#231;&#227;o. Estava machucada, suja. Uns rasg&#245;es espalhavam-se pela roupa e pelos furos percebia-se um vermelho barrento. Um dos olhos mal abria e tinha um fio de sangue que lhe descia por tr&#225;s da orelha. Balbuciava palavras soltas.</p><p>Carregou-a como p&#244;de para dentro, a p&#244;s em cima da madeira em que dormia. A menina balan&#231;ava a cabe&#231;a, de um lado pro outro. Gemia. Uma baba descia por vezes da boca, aberta num esgar, a m&#227;e enxugava. Pano molhado na testa. Marca no entorno dos olhos, como se cinzas de carv&#227;o tivessem se acumulado no &#250;mido de um choro recente. </p><p>A m&#227;e vigiou o quanto p&#244;de. Parecia n&#227;o ter rem&#233;dio. Segurava a m&#227;o magrinha, com marcas nas palmas e arranh&#245;es. Passou a orar, uma ladainha que sabia de cor. Rezou, rezou, quase inconsciente, enquanto o tempo se arrastava.</p><p>&#8212; M&#227;e?</p><p>Abriu os olhos, a menina a fitava com um olhar suplicante. Aparentava uma moment&#226;nea lucidez, devolvia o aperto de m&#227;o. &#8212; Diga, minha filha?</p><p>&#8212; Me desculpe, me desculpe, me desculpe. Por favor. Eu tentei&#8230; rezei. Eu fiz praga. Eu ca&#237;. N&#227;o consegui. Me desculpa que eu n&#227;o trouxe &#225;gua, mam&#227;e.</p><p>A mulher salta da cadeira. A menina fecha os olhos. A m&#227;o afrouxa o aperto. Atordoada, a m&#227;e se baixa sobre a filha e a sacode. Nada. Cola a face sobre o nariz. Nada. Chama seu nome e n&#227;o tem resposta. Morta.</p><p>Ela larga o bra&#231;o sobre o corpo e leva as duas m&#227;os tapando a boca ofegante. Seu rosto branco no quarto mal iluminado. Corre para o menino. Um, dois, tr&#234;s passos em dire&#231;&#227;o ao ber&#231;o.</p><p>Inclinou-se esperan&#231;osa pela borda. Estava vazio.</p><p></p><p><strong>Dm&#237;tri Ramus</strong> &#233; pernambucano e canhoto. Fez poemas, curtas, cr&#244;nicas e tradu&#231;&#245;es. Ex-ateu. Acha que &#233; alfabetizado. Quase morreu quatro vezes.</p><p></p><div><hr></div><p></p><h2>Costelare</h2><p><em>Fernanda Santos </em></p><p>Como Alzira fora parar naquele corredor a essa hora da noite? Estava at&#244;nita e perdida, n&#227;o deveria ter tomado o Venvance t&#227;o tarde. Porra, Alzira, tu &#233; retardada mesmo, seguiu em busca da sa&#237;da. </p><p>O corredor tinha fama no hospital. Todos sabiam a hist&#243;ria da Elis. Originalmente era o corredor que levava os corpos dos falecidos para o Morgue, mas como o hospital cresceu fizeram v&#225;rias conex&#245;es, transformando-o em um labirinto subterr&#226;neo no Complexo. Sem janelas, o odor era peculiar. </p><p>Alzira, cursava o quinto ano da faculdade. Habituada desde o terceiro ano a trabalhar com ratos no seu estudo de artrite, j&#225; estava acostumada com odores no m&#237;nimo diferentes. </p><p>O plant&#227;o no pronto-socorro da cirurgia era sempre intenso. Trinta e um de outubro parecia o carnaval. O &#193;guia tinha descido tr&#234;s vezes. Acabou excedendo o seu hor&#225;rio para ajudar os colegas. Afinal era tempo de aprender. </p><p>O trem passou por cima e levou as duas pernas do paciente. Sobram-lhe as coxas. A cirurgia de limpeza demorou bem mais que o esperado e Alzira saiu depois das vinte e duas.</p><p>O dia come&#231;ou com um suicida. Se jogara do sexto andar e o carro amorteceu a queda. Chegou vivo com um colapso tor&#225;cico. Reanima. Como medida heroica, o Dr. Frederico abriu o t&#243;rax para massagem intracard&#237;aca. Alzira nunca tinha visto essa manobra e ficou encantada. Tamb&#233;m n&#227;o funcionou. </p><p>Voltou &#224;s fichas e ao trabalho sujo, uma miiase, um fecaloma, uma crian&#231;a espoleta com um ferimento no bra&#231;o para dar os pontos. </p><p>J&#225; tinha decidido que n&#227;o faria cirurgia, reumatologia era sua paix&#227;o. E por isso entrou na cirurgia das pernas &#224;s dezessete horas. </p><p>Decidiu ir pelos corredores do Morgue de um pr&#233;dio ao outro do complexo. A cidade estava perigosa para mo&#231;as andarem sozinhas a noite. </p><p>S&#243; tinha andado por ele durante o dia. Escutou passos vindo detr&#225;s, olhou e nada. </p><p>O cora&#231;&#227;o palpitando a desconcentrou e errou a sa&#237;da, indo em dire&#231;&#227;o ao Morgue. Os passos se aproximavam e sentiu um toque no ombro. </p><p>Gelou, t&#244; fudida. Ao olhar para tr&#225;s n&#227;o havia ningu&#233;m. Esse Venvance est&#225; me dando alucina&#231;&#245;es, caralho, preciso parar com isso. E seguiu. </p><p>Ao entrar na sala dos mortos viu um caderninho sendo arremessado em sua dire&#231;&#227;o. N&#227;o viu ningu&#233;m, mas tinha uma prova f&#237;sica que n&#227;o estava sozinha. </p><p>Abriu o caderno:</p><p>Aos 22 de outubro de 1942, 21 h recebo o corpo de Elis, apresenta rigor mortis, manchas de hip&#243;stase em dorso, desidrata&#231;&#227;o com opacifica&#231;&#227;o das c&#243;rneas. Inspe&#231;&#227;o: les&#245;es por arranhadura em membro superiores, bilateral. Mordidas de animal desconhecido no torso direito&#8230;.</p><p>Folheou as anota&#231;&#245;es que continham descri&#231;&#245;es de aut&#243;psias e de possibilidades cir&#250;rgicas sendo estudadas. Ao fechar o caderno estava diante do pr&#243;prio Dr. Henrique Costelare. N&#227;o podia respirar. Piscou tr&#234;s vezes. Como um morto apareceu ali? Puta que pariu. </p><p>Alzira, preciso que leia atentamente essas anota&#231;&#245;es guardadas por todos esses anos. Tenho visto que &#233;s destemida e dedicada &#224; medicina. Estude meus apontamentos e publique a informa&#231;&#227;o mais importante que a&#237; encontrar. </p><p>Alzira assentiu com a cabe&#231;a. Queria perguntar muitas coisas, especialmente se era real. As palavras n&#227;o sa&#237;ram. </p><p>Guardou o caderno na bolsa. O Dr. Corstelare n&#227;o estava mais l&#225;. Apertou o t&#233;rreo no elevador do Morgue e seguiu pela rua. </p><p></p><p><strong>Fernanda Santos</strong> &#233; paulista, m&#233;dica do sangue e amante do bom futebol. Aspirante a escritora.</p><p></p><p></p><div><hr></div><h2>CAVEIRA</h2><p><em>Ben Schaeffer</em></p><p>Gritei com uma senhora na rua. </p><p>Era uma mendiga, veio me importunando, pedindo dinheiro, eu disse que n&#227;o tinha nenhum trocado, mas ela n&#227;o ouviu, continuou falando enquanto eu entrava no meu carro. Por favor, s&#243; um tost&#227;o, eu leio sua sorte, ela disse. N&#227;o, eu n&#227;o tenho nada, senhora, desculpe, disse sem ser sincero. Quando eu j&#225; estava dentro do carro e fechando a porta, a ouvi dizer &#8220;pau no cu&#8221;. Sei que n&#227;o devia, mas me ofendi e voltei at&#233; ela. N&#227;o lembro do que a xinguei, mas ela foi se encolhendo, como uma vez vi um poodle fazer na presen&#231;a de um cachorro grande. O pobre bicho se urinou e, tive a impress&#227;o, quando me dei conta do que fazia, de que a velha poderia estar a ponto disso tamb&#233;m. Incapaz de decidir se me desculpava ou n&#227;o, simplesmente me afastei e voltei para o carro. Ela falou novamente se dirigindo a mim. </p><p>Uma &#250;nica palavra. </p><p>- Caveira.</p><p>N&#227;o dei muita aten&#231;&#227;o a isso e fui embora. Estava atrasado para pegar minha caveira na creche. </p><p>...</p><p>Alguns dias se passaram, eu estava deitado no sof&#225; descansando e minha filha via tev&#234; enquanto, Marta, minha esposa preparava o almo&#231;o. Tudo muito tranquilo e comum. </p><p>- Voc&#234; vai trabalhar na segunda? &#8211; Marta perguntou da cozinha. </p><p>- N&#227;o sei ainda. &#8211; Respondi enquanto trocava o canal. </p><p>Aline, minha caveira, que brincava com bonecas, falava para si mesma. </p><p>- Vamos viajar e descansar na praia &#8211; dizia a menina. </p><p>- Pensei em irmos na casa da minha m&#227;e. </p><p>- No interior?</p><p>- N&#227;o tem nada melhor que um banho de mar. </p><p>- Qual o problema? Se n&#227;o for trabalhar na segunda, podemos ter o domingo todo pra ver as cachoeiras. </p><p>- N&#227;o, acho que n&#227;o. &#8211; Respondi mudando o canal. Por um momento, tive a impress&#227;o de que vira algo na tela, entre a troca de canais. Era meu rosto, mas... estava estranho. N&#227;o como deveria ser. </p><p>- E o que vamos fazer aqui ent&#227;o? &#8211; Marta veio da cozinha, segurando uma colher de pau. </p><p>- Vamos de m&#227;os dadas, maridinho. O sol t&#225; t&#227;o quente. </p><p>- Porque n&#227;o ficamos por aqui e assistimos a caveira na Netflix?</p><p>Minha esposa olhou pra mim por um momento antes de responder. </p><p>- Assistimos o que? </p><p> - Ah, amorzinho, tem que tomar cuidado com o tubar&#227;o, me deixa te ajudar. </p><p>- A um filme na Netflix. &#8211; Respondi, s&#233;rio. </p><p>- Acho que entendi errado alguma coisa ent&#227;o. &#8211; Ela disse e voltou ao fog&#227;o. </p><p>Voltei a zapear os canais. Era como se n&#227;o tivesse uma &#250;nica caveira que prestasse pra assistir. </p><p>- Maridinho, voc&#234; est&#225; morrendo!</p><p>- Amor, com o que a Aline est&#225; brincando? </p><p>Ainda desatento respondi. </p><p>- Com a morte, eu acho. </p><p>- Aline! &#8211; Ouvi Marta gritar e vi que a menina estava brincando com duas bonecas e uma delas, de um homem, acho, estava sem a cabe&#231;a. </p><p>- Mam&#227;e, um tubar&#227;o comeu a cabe&#231;a dele. &#8211; Aline respondeu sorrindo. </p><p>- Eu olhei para o ch&#227;o procurando pela cabe&#231;a do boneco e a localizei. Enquanto minha mulher ralhava com a menina, eu olhava para a cabe&#231;a... era apenas uma pobre caveira arrancada. </p><p>...</p><p>Faz uma semana desde que vi a caveira que me xingou na rua... Ando procurando por ela. Minha mulher disse que estou esquisito, falando coisas e repetindo uma palavra, algo idiota, parece, mas eu n&#227;o sei do que ela est&#225; falando. Hoje, quando me levantei da cama, fui at&#233; o banheiro e me olhei no espelho. N&#227;o me reconheci. Ent&#227;o fui at&#233; a cozinha e peguei uma faca de corte bem afiada que uso em churrascos. Minha mulher veio at&#233; o banheiro um pouco depois e deu grito ao me ver. Eu estava removendo a pele, que n&#227;o deveria estar ocultando o que sou. Ela pegou Aline e saiu correndo de casa. Quando terminei o trabalho, sai de casa procurando a mulher da rua. </p><p>Nem sei por qu&#234;. </p><p>...</p><p>Por onde passo todos me olham e se afastam. Eu ainda n&#227;o achei a velha caveira, mas quando eu a encontrar... </p><p>Acho que vou dar aqueles tost&#245;es que ela queria.  Acho que, de certo modo, ela trouxe algo de mim que estava escondido.  Ou&#231;o o som de sirenes. Uma crian&#231;a que andava com a m&#227;e na rua chora ao olhar pra mim. </p><p>Ora, parece que ela nunca viu uma caveira na vida. </p><p></p><p><strong>Davis Feij&#243; </strong>&#233; natural de Porto Alegre, aficionado por historias de mist&#233;rio, fantasia e fic&#231;&#227;o cient&#237;fica, publicou em 2020 Cr&#244;nicas do Reino de Puphantia - O Grande Assalto e em 2022 Dan Plagg - O Porto das Bruxas. Escreve sob o pseud&#244;nimo Ben Schaeffer.</p><p></p><p></p><div><hr></div><h2>Ode ao Cangaceiro Chico Robalo</h2><p><em>Igor Chacon</em></p><p>A luz do sol entrava pelos vitrais da janela luxuosa do escrit&#243;rio e coloria o rosto do cangaceiro. Ele despertou com aquela luminosidade nas p&#225;lpebras fechadas e olhou o rel&#243;gio de bolso. O objeto n&#227;o fora presente do chefe de Estado, como sempre contava. Na verdade, ele o tirara de um defunto, anos antes, quando trabalhava para o homem em sua extensa equipe de guarda-costas.</p><p>Por que algu&#233;m poderoso como o presidente precisaria de tanta seguran&#231;a, era uma pergunta que esse cangaceiro n&#227;o estava muito disposto a fazer. Se o dinheiro era bom, por que fazer perguntas?</p><p>&#8212; Senhor Francisco Robalo? &#8212; disse a voz no computador. &#8212; Senhor Francisco Robalo, o senhor tem uma mensagem da&#8230; Vi&#250;va&#8230; Santana.</p><p>Ele se endireitou na cadeira muito confort&#225;vel.</p><p>&#8212; Leia para mim &#8212; disse.</p><p>A voz eletr&#244;nica demorou alguns segundos para responder.</p><p>&#8212; Vossa Senhoria&#8230; Cangaceiro Chico Robalo&#8230; est&#225; convidado para o jantar em sua homenagem que ocorrer&#225; na noite de hoje na&#8230; Resid&#234;ncia Fazenda Santana. Todo o seu bando est&#225; tamb&#233;m convidado.</p><p>Ele escutou a mensagem com uma express&#227;o s&#233;ria no rosto, mas s&#243; percebeu ao final. Ent&#227;o, relaxou o corpo e se esticou na cadeira, m&#227;os na nuca. Sorriu.</p><p>Por que estaria preocupado? O que uma velha vi&#250;va sem um vint&#233;m no bolso e inv&#225;lida poderia fazer contra duas d&#250;zias de homens armados? Uma vi&#250;va e, ele jamais poderia deixar de lembrar, suas tr&#234;s filhas solteiras. Por&#233;m, n&#227;o intocadas. Isso ele poderia garantir. A lembran&#231;a o fez abrir mais o sorriso de dentes perfeitos e posti&#231;os.</p><p>&#8212; O senhor confirma presen&#231;a nesse evento? &#8212; perguntou a voz eletr&#244;nica, interrompendo as lembran&#231;as. &#8212; H&#225; um compromisso com o governador esta tarde, por&#233;m, o hor&#225;rio n&#227;o &#233; conflitante.</p><p>&#8212; Confirme &#8212; disse e caminhou at&#233; a pequena adega anexa a seu escrit&#243;rio de governo. Serviu-se de um copo de u&#237;sque. Aquela garrafa fora presente de algum pol&#237;tico, mas n&#227;o lembrava qual. Parou com o copo a meio caminho da boca, afastou-o e, segurando com o polegar e o indicador, derramou um pouco da bebida no ch&#227;o.</p><p>&#8212; A mim &#8212; disse. &#8212; E aos dias de gl&#243;ria.</p><p>***</p><p>O sol tamb&#233;m bateu numa outra janela de uma fazenda n&#227;o muito distante de onde um certo cangaceiro tomava o &#250;ltimo drinque de sua vida.</p><p>Por essa janela de vidro meio fosco e cortinas pesadas, escuras, a vi&#250;va Santana observava, sentada em uma cadeira de rodas, o motor fazendo um suave som de apito que a acompanhara por quase toda a vida.</p><p>Em quase cinquenta anos, ela, que h&#225; tr&#234;s d&#233;cadas era conhecida apenas como Senhora Santana, hoje vivia uma vida que era apenas a sombra do que fora um dia. Suas terras, tomadas como &#8220;imposto&#8221;. Pura conversa para boi dormir. Roubo legalizado, era como ela chamava, ou eles n&#227;o precisariam de todo aquele armamento. E em nome do qu&#234;? Dos mais pobres? Que piada. Metade para os cangaceiros, metade para o governo. Aos pobres, as migalhas que por ventura ca&#237;ssem da mesa.</p><p>&#8212; Minha senhora? &#8212; falou Raimundo &#224;s costas dela. &#8212; Est&#225; na hora.</p><p>Raimundo fora o empregado mais fiel de seu marido, jamais sa&#237;ra da fazenda, nem mesmo quando as vacas magras chegaram, e tudo que tinham para comer era um milho mirrado e uma horta que mal dava para a fam&#237;lia. Outrora sempre animado e festivo, seu rosto lapeado pelo sofrimento agora era um quadro de natureza morta.</p><p>&#8212; Elas est&#227;o prontas? &#8212; perguntou a vi&#250;va. Falava das filhas, pois n&#227;o era delas e apenas delas que sua velha boca falava j&#225; h&#225; tantos meses?</p><p>&#8212; Est&#227;o &#8212; ele disse. &#8212; Tem certeza, minha dama, que deseja d&#225;-las assim &#224;quele cangaceiro?</p><p>Ela continuou certo tempo im&#243;vel, as m&#227;os sobre as pernas, o vestido negro que sempre vestia &#8212; ao menos desde que o marido fora assassinado &#8212; tremulando na barra sob a leve brisa quente que entrava pelas portas abertas.</p><p>Com o toque de um bot&#227;o, ela fez a cadeira de rodas girar, ficou de frente para Raimundo, que vestia seu traje comum de trabalho, sujo e t&#227;o antigo quanto a pr&#243;pria fazenda Santana.</p><p>&#8212; Voc&#234; ainda as ama, Raimundo? &#8212; ela perguntou.</p><p>&#8212; Sempre, minha senhora &#8212; Raimundo respondeu, meio sem jeito pelo questionamento, e completou: &#8212; Como se fossem minhas pr&#243;prias filhas.</p><p>&#8212; Ent&#227;o, Raimundo, ame as meninas. Ame s&#243; mais uma vez, mais que antes, e mais que nunca. Ame para fazer esse &#250;ltimo sacrif&#237;cio por elas. E por mim, meu filho. E pelo falecido patr&#227;o seu.</p><p>&#8212; E depois? &#8212; agora foi a vez dele de perguntar, dando um passo em dire&#231;&#227;o a ela, seus olhos eram janelas apontando para o passado, mostrando o menino que sempre fora, acorrentado desde o dia em que nasceu naquela fazenda como o mais livre dos escravos. &#8212; E depois, minha senhora, o que vai ser de eu? O que vai ser de eu nesse mund&#227;o perdido l&#225; fora?</p><p>A vi&#250;va Santana fez a cadeira deslizar at&#233; a porta, virou e encarou o empregado uma &#250;ltima vez.</p><p>&#8212; Voc&#234; vai ser livre &#8212; disse. &#8212; E a&#237;, vai ser o que quiser ser.</p><p>Mais tarde, em seu pequeno quarto em cima do celeiro, enquanto todos tiravam a sesta de depois do almo&#231;o, Raimundo contemplava o campo por sua janela. No fundo, apesar de nunca ter lhe faltando o que vestir e comer, aquela vis&#227;o era a &#250;nica coisa que ele acreditava ser realmente dele: campos, pastos, depois, mais campos e mais pastos, dos Santana e de tantas outras fam&#237;lias que sobreviveram &#224;s vacas magras, e &#224;s guerras, e &#224;s pestes, e ao tempo.</p><p>Ele amava aquela vista, amava o toque do vidro aquecido pelo sol na testa. Ficou ali, chorando seus amores perdidos e os que perderia naquela noite, at&#233; que o dia deu seu &#250;ltimo suspiro em luzes alaranjadas.</p><p>Quando sentiu os olhos secos novamente, vestiu sua melhor roupa e caminhou pelos pastos at&#233; a varanda da casa principal da fazenda. Ao longe, vindo pela estrada que seu pai, quando mo&#231;o, ajudou a pavimentar, j&#225; via uma longa comitiva de treze carros oficiais, todos pretos e agourentos como rabec&#245;es do inferno. Ele estremeceu.</p><p>&#8212; O cangaceiro e seus doze pares de cornos &#8212; disse e retorceu o rosto numa careta de desprezo.</p><p>Entrou pisando firme pela varanda, o pensamento nas filhas da vi&#250;va. Foi at&#233; os fundos da casa, num quartinho onde, muito tempo antes, os pais dele moraram e morreram, onde a m&#227;e morreu de velhice e tristeza, dias depois do pai partir para a terra dos p&#233;s juntos.</p><p>De um canto, a viola do velho pai o olhou triste e desafinada. Raimundo a pegou e dedilhou, movendo as tarraxas para afin&#225;-la.</p><p>Livre? O que faria, ent&#227;o, se fosse livre?</p><p>Come&#231;ou a cantar. Cantou sobre cangaceiros e aventuras, e o sert&#227;o e a chuva, e a fome e a colheita, e fogueiras que amavam.</p><p>E seria o qu&#234;? Nesse mund&#227;o de meu Deus, perdido sem Sua presen&#231;a?</p><p>Seria uma voz.</p><p>Cantou sobre o cangaceiro que chegava.</p><p>Na cozinha, o prato principal fumegava numa grande panela de barro. A vi&#250;va Santana subiu em uma plataforma especialmente colocada ali para ela naquela noite. Todos os outros trabalhadores da casa j&#225; haviam sido dispensados, com exce&#231;&#227;o de Raimundo.</p><p>Ela subiu e depositou os &#250;ltimos ingredientes, que afundaram na panela e desapareceram junto com as l&#225;grimas da velha mulher que ca&#237;ram de olhos que j&#225; haviam visto tanta coisa, mas que agora s&#243; queriam descansar.</p><p>Sorriu satisfeita.</p><p>A campainha tocou e ela foi at&#233; a entrada, j&#225; sabendo quem chegara.</p><p>Raimundo j&#225; estava l&#225; e abriu as grandes portas duplas a um aceno de cabe&#231;a dela.</p><p>A varanda se abriu para o grupo de cangaceiros com seu l&#237;der e capit&#227;o de bra&#231;os abertos, sorria. Aquele sorriso falso que enganara seu marido. Que agora surgia todas as noites, no escuro, em seus pesadelos.</p><p>&#8212; Minha senhora &#8212; disse o cangaceiro Chico Robalo.</p><p>&#8212; Bem-vindo a minha humilde fazenda &#8212; respondeu a vi&#250;va. &#8212; A voc&#234; e a seus homens.</p><p>&#8212; E suas filhas? &#8212; foi logo perguntando ao entrar na casa. &#8212; Onde est&#227;o? Elas est&#227;o bem, imagino.</p><p>&#8212; Est&#227;o sendo preparadas &#8212; ela respondeu, os olhos fixos nos dele. &#8212; Especialmente para esta noite.</p><p>O sorriso do cangaceiro se alargou, apesar de continuar sendo falso, morto.</p><p>Raimundo n&#227;o sabia como estava conseguindo conter, ao menos at&#233; aquele momento, a vontade de pular no pesco&#231;o daquele homem cruel e apert&#225;-lo at&#233; que seus olhos saltassem das &#243;rbitas fundas.</p><p>&#8212; Preparadas? &#8212; perguntou o visitante.</p><p>&#8212; Sim, agora, se me d&#227;o&#8230; se nos d&#227;o as honras, por favor, Raimundo, leve nossos convidados &#224; sala de jantar.</p><p>&#8212; Sim, minha senhora &#8212; respondeu o empregado.</p><p>&#8212; Raimundo, meu bom &#8212; disse o cangaceiro virando-se para o homem &#8212;, como est&#227;o seus pais?</p><p>&#8212; Mortos, senhor &#8212; ele falou, olhos fixos no outro, como sua senhora o instru&#237;ra. &#8212; Voc&#234; mesmo os matou, ao menos meu pai, h&#225; vinte e cinco anos.</p><p>O cangaceiro deu uma sonora gargalhada, que foi acompanhada por seus homens.</p><p>&#8212; &#201; verdade, homem &#8212; disse secando as l&#225;grimas. &#8212; &#201; que a gente manda tanto crist&#227;o pra vala esses dias que acaba se esquecendo e comete essas gafes. Me desculpe.</p><p>A isso, Raimundo n&#227;o respondeu, apenas deu as costas e caminhou at&#233; a sala de jantar. Foi seguido por parte do bando de cangaceiros, a outra parte ficou do lado de fora montando guarda, o que j&#225; era esperado.</p><p>O sal&#227;o onde ocorriam os jantares, assim como o resto da fazenda, era apenas a sombra do que fora um dia. As paredes agora nuas, j&#225; haviam ostentado quadros valios&#237;ssimos, todos de artistas sacros sertanejos. Uma solit&#225;ria prateleira ainda restava, com somente meia d&#250;zia de livros sobreviventes. Cord&#233;is de um mundo que n&#227;o voltaria mais.</p><p>&#8212; Sentem-se, por favor &#8212; instruiu a velha senhora Santana e os homens de Chico Robalo obedeceram, dispondo-se nas cadeiras ao redor da mesa longa de madeira que ocupava quase toda a sala.</p><p>&#8212; E suas filhas, onde est&#227;o? &#8212; perguntou Robalo novamente, pondo um guardanapo sobre o colo.</p><p>&#8212; Como j&#225; lhe informei, est&#227;o sendo preparadas para o senhor e para seus homens &#8212; respondeu a vi&#250;va.</p><p>Os cangaceiros se entreolharam, mas nenhum deles disse mais nada. Raimundo, que havia se ausentado por um instante, voltou trazendo uma bandeja com tira-gostos, queijo de cabra, castanha de caju e um copinho de cacha&#231;a para cada um dos convidados.</p><p>A prosa continuou por mais algum tempo, sempre com os cangaceiros falando e a dona da casa e seu empregado quietos. Depois de algumas rodadas de aperitivos, o chefe dos cangaceiros finalmente se inquietou.</p><p>&#8212; Mas e essas meninas, cad&#234;? &#8212; perguntou, batendo na mesa. &#8212; Quero ver as tr&#234;s, como &#233; mesmo o nome delas?</p><p>&#8212; Maria Flor, Francisca e Maria Teresa, se voc&#234; n&#227;o lembra de todas que fez mal &#8212; falou Raimundo entre dentes.</p><p>&#8212; Raimundo &#8212; interveio a velha senhora Santana. &#8212; Est&#225; na hora do prato principal. Por favor, sirva-nos.</p><p>&#8212; Sim, senhora &#8212; disse e retirou-se.</p><p>&#8212; Garanto que a espera vai valer a pena.</p><p>Chico Robalo a olhou com seus olhos fundos. Seus homens inconscientemente mais eretos nas cadeiras.</p><p>&#8212; &#201; bom que sim &#8212; sorriu o cangaceiro. &#8212; &#201; mesmo bom que sim.</p><p>Raimundo retornou empurrando um grande caldeir&#227;o em um carrinho de rodinhas. O conte&#250;do da panela fumegava e o cheiro fez o barulho dos est&#244;magos dos cangaceiros ser aud&#237;vel por toda a sala.</p><p>&#8212; Eita que o bucho j&#225; tava era reclamando era muito &#8212; falou Robalo.</p><p>Junto com o panel&#227;o, foi trazido um conjunto de cumbucas muito antigas, dos tempos do Imp&#233;rio, afirmou a vi&#250;va.</p><p>Raimundo serviu a todos, come&#231;ando por Chico Robalo e rodeando a mesa. Assim que ia colocando a sopa, os homens avan&#231;avam como c&#227;es esfomeados. Parou de servir ao chegar ao lado de sua senhora, deixando, por&#233;m, a cumbuca dela vazia.</p><p>&#8212; N&#227;o vai comer, velha? &#8212; inquiriu Robalo.</p><p>Ela o ignorou e olhou nos olhos de Raimundo.</p><p>&#8212; V&#225;, meu filho &#8212; disse, fazendo o empregado se derramar em l&#225;grimas. &#8212; V&#225; que seu trabalho aqui j&#225; t&#225; feito. S&#243; lembre de ser livre quando estiver l&#225; fora.</p><p>Ele assentiu, dando as costas para os cangaceiros que come&#231;avam a cair mortos.</p><p>S&#243; quando ele saiu da sala a velha senhora Santana fitou novamente o l&#237;der do bando.</p><p>&#8212; Como disse, minhas filhas estavam sendo preparadas para voc&#234;s. &#8212; Ela fez a cadeira de rodas ir at&#233; o lado de Chico Robalo que estrebuchava segurando a garganta. Espuma branca escorrendo pela boca.</p><p>&#8212; Velha filha de uma rameira &#8212; ele conseguiu falar. &#8212; O resto do bando t&#225; l&#225; fora, n&#227;o vai sobrar nada desse lugar, nem de tu.</p><p>&#8212; E quem disse que tem o que sobrar desse lugar? &#8212; perguntou pegando a tigela de sopa e a colher do cangaceiro e come&#231;ando a dar-lhe mais da sopa. &#8212; Coma tudo, seja bonzinho &#8212; disse.</p><p>&#8212; Tu vai morrer velha safada &#8212; ele falou enquanto a espuma que regurgitava se tornava vermelha.</p><p>&#8212; Eu morri &#8212; ela respondeu, entornando o resto da sopa quente da cumbuca no rosto do cangaceiro. &#8212; Quando voc&#234;s vieram aqui e levaram minhas filhas. Sabe o que elas fizeram ontem &#224; noite? Elas tomaram veneno, se mataram, as pobres. Mas eu preparei elas pra voc&#234;s, ah, preparei sim. Pensei se n&#227;o tinha outro jeito, mas tinha n&#227;o, tinha nada.</p><p>Ao dizer isso, a velha senhora Santana terminou de derramar a grossa sopa no homem e, da cumbuca, al&#233;m do l&#237;quido, ca&#237;ram os restos das filhas, envenenadas, primeiro pela maldade daquele endemoniado, e, por &#250;ltimo, por elas mesmas, mas a dose era grande e o veneno era forte.</p><p>&#8212; Voc&#234;s queriam elas, n&#227;o queriam, seus fi de corno? Pois t&#225; a&#237; elas.</p><p>Ela riu, riu olhando os mortos ao redor, riu quando os outros cangaceiros que haviam ficado de guarda entraram na sala de jantar, armas em punho.</p><p>E morreu com um sorriso nos l&#225;bios, cravejada de balas, o mundo explodindo ao redor.</p><p>***</p><p>Antes de deixar o que fora seu lar por toda uma vida, Raimundo n&#227;o p&#244;de evitar de passar no antigo quarto dos pais e recolher a viola de madeira envelhecida pelo tempo.</p><p>Correu para o campo enquanto os disparos trovejavam dentro da casa. Estava feito.</p><p>Continuou correndo pela estrada e fugindo por meses. Parou numa cidadezinha de beira de estrada.</p><p>&#8212; E essa viola? Toca? &#8212; perguntou o dono da bodega quando Raimundo entrou.</p><p>&#8212; Sim, senhor &#8212; Raimundo respondeu.</p><p>&#8212; Ent&#227;o avie e toque pra n&#243;s &#8212; pediu um cliente que bebia no balc&#227;o.</p><p>Raimundo olhou os dois como se tivesse acabado de se dar consci&#234;ncia de si pela primeira vez na vida. Dedilhou a viola.</p><p>&#8212; E tu canta do qu&#234;?</p><p>&#8212; Eu canto dum cangaceiro, coisa-ruim.</p><p></p><p><strong>Igor Chacon</strong> &#233; crist&#227;o e potiguar nascido em Natal, onde vive e passa calor com sua esposa. &#201; formado em psicologia e tem uma especializa&#231;&#227;o em teologia, mas trabalha como programador. Sonha em ser escritor desde crian&#231;a, ent&#227;o vai vivendo de sonho at&#233; que n&#227;o precise mais acordar. "Ode ao Cangaceiro Chico Robalo" &#233; um dos contos do livro que pretende publicar no pr&#243;ximo ano.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O Tigre e o Crocodilo]]></title><description><![CDATA[Uma tentativa de conto infanto-juvenil]]></description><link>https://matheusaraujo.substack.com/p/o-tigre-e-o-crocodilo</link><guid isPermaLink="false">https://matheusaraujo.substack.com/p/o-tigre-e-o-crocodilo</guid><dc:creator><![CDATA[Matheus Araújo]]></dc:creator><pubDate>Sat, 15 Jul 2023 15:00:31 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!hQ8n!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F213f4ed5-3961-4aa3-9651-b2373c28ccd1_768x1152.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="pullquote"><p>Estou preparando um material de leitura e interpreta&#231;&#227;o liter&#225;ria direcionado ao p&#250;blico infanto-juvenil. Para completar uma lacuna no material, senti a necessidade de escrever um breve conto (uma f&#225;bula, quem sabe?) a respeito da virtude da paci&#234;ncia. N&#227;o sei se o texto surtir&#225; o efeito pretendido. Quem puder, leia com jovens de 10 a 14 anos e comente depois o que eles acharam :)</p><p>Ah, as imagens que surgir&#227;o ao longo do texto foram geradas por intelig&#234;ncia artificial, por isso algumas patas possuem v&#225;rios dedos e outras bizarrices.</p></div><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!hQ8n!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F213f4ed5-3961-4aa3-9651-b2373c28ccd1_768x1152.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!hQ8n!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F213f4ed5-3961-4aa3-9651-b2373c28ccd1_768x1152.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!hQ8n!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F213f4ed5-3961-4aa3-9651-b2373c28ccd1_768x1152.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!hQ8n!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F213f4ed5-3961-4aa3-9651-b2373c28ccd1_768x1152.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!hQ8n!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F213f4ed5-3961-4aa3-9651-b2373c28ccd1_768x1152.jpeg 1456w" sizes="100vw"><img src="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!hQ8n!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F213f4ed5-3961-4aa3-9651-b2373c28ccd1_768x1152.jpeg" width="480" height="720" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/213f4ed5-3961-4aa3-9651-b2373c28ccd1_768x1152.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:1152,&quot;width&quot;:768,&quot;resizeWidth&quot;:480,&quot;bytes&quot;:580484,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:true,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!hQ8n!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F213f4ed5-3961-4aa3-9651-b2373c28ccd1_768x1152.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!hQ8n!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F213f4ed5-3961-4aa3-9651-b2373c28ccd1_768x1152.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!hQ8n!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F213f4ed5-3961-4aa3-9651-b2373c28ccd1_768x1152.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!hQ8n!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F213f4ed5-3961-4aa3-9651-b2373c28ccd1_768x1152.jpeg 1456w" sizes="100vw" fetchpriority="high"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p></p><p>Vivia, num grande rio da &#193;sia, um velho crocodilo. Sua coura&#231;a era dura e cheia de lodo entre as escamas, o papo mole balan&#231;ava de um lado para o outro, as patas alargavam-se gordas como pernas de elefante. A cabe&#231;a esbranqui&#231;ada e os olhos ca&#237;dos e calmos denunciavam a idade do crocodilo. N&#227;o se sabe ao certo quantos anos viveu, mas ele recordava-se dos tempos em que Gengis Khan aterrorizava os reinos liderando o ex&#233;rcito mongol, Marco Polo e sua caravana visitavam a China e Alexandre, o Grande, perseguia o imperador da P&#233;rsia vorazmente.&nbsp;</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://matheusaraujo.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">T&#225; curtindo? Inscreva-se!</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>O fato &#233; que ele havia sido um jovem crocodilo muito sagaz. Era implac&#225;vel na ca&#231;a. Comia gazelas, gnus, ant&#237;lopes, kudus, avestruzes e cobras. Certa vez (s&#227;o s&#243; boatos) papou uma girafa, um jovem hipop&#243;tamo e um homem adulto na mesma semana. Ficou conhecido por todo o continente como o maior ca&#231;ador das &#225;guas. Quando estava com muita fome at&#233; mesmo os outros crocodilos sa&#237;am de perto.&nbsp;</p><p>Comeu tanto que ficou gordo. Agora, j&#225; idoso, tinha dificuldades para ca&#231;ar. Os ossos e as juntas do&#237;am, o bucho arrastava-se pelo ch&#227;o e o rabo tornou-se t&#227;o grande que mais parecia um tronco de baob&#225;. Apesar do estoque que guardava nas banhas, come&#231;ou a ficar com fome. N&#227;o pegava nem uma andorinha h&#225; mais de m&#234;s. Sempre que chegava perto de qualquer bicho, era facilmente visto. Lento como s&#243; ele, qualquer presa rapidamente metia o p&#233;.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!SMzp!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff1e96a48-3e5a-499f-add5-040635ad91fb_768x1152.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!SMzp!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff1e96a48-3e5a-499f-add5-040635ad91fb_768x1152.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!SMzp!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff1e96a48-3e5a-499f-add5-040635ad91fb_768x1152.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!SMzp!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff1e96a48-3e5a-499f-add5-040635ad91fb_768x1152.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!SMzp!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff1e96a48-3e5a-499f-add5-040635ad91fb_768x1152.jpeg 1456w" sizes="100vw"><img src="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!SMzp!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff1e96a48-3e5a-499f-add5-040635ad91fb_768x1152.jpeg" width="372" height="558" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/f1e96a48-3e5a-499f-add5-040635ad91fb_768x1152.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:1152,&quot;width&quot;:768,&quot;resizeWidth&quot;:372,&quot;bytes&quot;:630035,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!SMzp!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff1e96a48-3e5a-499f-add5-040635ad91fb_768x1152.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!SMzp!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff1e96a48-3e5a-499f-add5-040635ad91fb_768x1152.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!SMzp!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff1e96a48-3e5a-499f-add5-040635ad91fb_768x1152.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!SMzp!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff1e96a48-3e5a-499f-add5-040635ad91fb_768x1152.jpeg 1456w" sizes="100vw"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p>&#8220;&#201; meu fim&#8221;, pensou. &#8220;Foram-se os tempos de bonan&#231;a. Resta-me aguardar a morte&#8221;. Aproveitando que ainda tinha for&#231;as para caminhar, foi at&#233; a beira do rio para o seu banho de sol matinal. Distra&#237;do, conjecturava a respeito de seus &#250;ltimos momentos, recordando seu passado, as grandes gl&#243;rias que vivera, os animais que ca&#231;ara e os rios que desbravara. Enquanto isso, apontou na outra margem um ant&#237;lope.&nbsp;</p><p>&#8220;Tentarei mais uma vez. Deslizarei vagarosamente pelo rio e tentarei abocanhar o distra&#237;do do outro lado&#8221;. Assim o fez. Foi devagarinho, sem pressa, cuidando para n&#227;o balan&#231;ar muito as pelancas e agitar as &#225;guas. Aproximou-se, viu s&#243; o focinho do bicho submerso matando a sede. De repente, o ant&#237;lope olhou para o lado, deu um pinote e foi em disparada. N&#227;o se assustou com o crocodilo, mas com outra coisa.</p><p>O velho crocodilo p&#244;s os olhos cobertos pela penugem da sobrancelha branca para fora da &#225;gua. &#192; beira do rio chorava um jovem tigre, lamentando-se.</p><p>&#8211; Mais um que me escapou! Meu Deus, quando vou conseguir comer novamente?</p><p>Percebendo a oportunidade, o crocodilo saiu da &#225;gua aos poucos, chegando perto, mais perto e mais perto do tigre chor&#227;o, at&#233; que o felino virou-se rapidamente ao perceber a presen&#231;a pesada do r&#233;ptil.</p><p>&#8211; Quem &#233; voc&#234;? Afaste-se de mim! &#8211; armou-se em posi&#231;&#227;o de ataque, nervoso, os olhos vermelhos de tanto chorar.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Lt8r!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F7d30e2ab-5350-4d29-b23e-707b846ea7b5_768x1152.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Lt8r!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F7d30e2ab-5350-4d29-b23e-707b846ea7b5_768x1152.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Lt8r!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F7d30e2ab-5350-4d29-b23e-707b846ea7b5_768x1152.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Lt8r!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F7d30e2ab-5350-4d29-b23e-707b846ea7b5_768x1152.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Lt8r!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F7d30e2ab-5350-4d29-b23e-707b846ea7b5_768x1152.jpeg 1456w" sizes="100vw"><img src="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Lt8r!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F7d30e2ab-5350-4d29-b23e-707b846ea7b5_768x1152.jpeg" width="410" height="615" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/7d30e2ab-5350-4d29-b23e-707b846ea7b5_768x1152.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:1152,&quot;width&quot;:768,&quot;resizeWidth&quot;:410,&quot;bytes&quot;:513764,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Lt8r!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F7d30e2ab-5350-4d29-b23e-707b846ea7b5_768x1152.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Lt8r!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F7d30e2ab-5350-4d29-b23e-707b846ea7b5_768x1152.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Lt8r!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F7d30e2ab-5350-4d29-b23e-707b846ea7b5_768x1152.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Lt8r!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F7d30e2ab-5350-4d29-b23e-707b846ea7b5_768x1152.jpeg 1456w" sizes="100vw" loading="lazy"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p>&#8211; Acalme-se, meu jovem. Estou aqui para lhe ajudar &#8211; o crocodilo falava com voz mansa.&nbsp;</p><p>&#8211; Voc&#234;, pelo que sei, &#233; um crocodilo. Somos inimigos, foi isso que minha m&#227;e me disse. Saia daqui se n&#227;o vou lhe atacar! &#8211; com medo, o tigre eri&#231;ou os pelos e recolheu-se pronto para fugir.</p><p>&#8211; N&#227;o temas. Ser&#237;amos inimigos em outros tempos &#8211; o crocodilo aproximava-se com calma e fazia de tudo para n&#227;o mostrar os seus mil dentes &#8211; por&#233;m estou velho e cansado. Cheguei a ser grande ca&#231;ador, mas hoje vivo meus &#250;ltimos dias.</p><p>&#8211; E o que eu tenho a ver com isso?&nbsp;</p><p>&#8211; Mesmo &#224; beira da invalidez, tenho bons ouvidos. Sua barriga est&#225; roncando. Tentou abocanhar o ant&#237;lope e n&#227;o conseguiu. Imagino que n&#227;o coma h&#225; um bom tempo, n&#227;o &#233;?</p><p>&#8211; Desde que me perdi dos meus pais.&nbsp;</p><p>&#8211; Oh, que triste. Meus sinceros sentimentos. &#8211; disse o velho crocodilo, sorrindo com mal&#237;cia, o que assustou o jovem tigre. &#8211; Imagino que eles n&#227;o tiveram tempo de ensinar-lhe a arte da ca&#231;a.&nbsp;</p><p>&#8211; N&#227;o&#8230;</p><p>&#8211; Bom, tudo o que eu mais quero nesses momentos finais da minha vida &#233; deixar um legado. Quer ser o meu aprendiz? Desejo transmitir-lhe todo o meu conhecimento de predador.</p><p>O jovem tigre torceu o rosto e apertou os olhos, desconfiado.</p><p>&#8211; E o que voc&#234; quer em troca?</p><p>&#8211; Bem, eu n&#227;o iria pedir nada, mas j&#225; que voc&#234; perguntou&#8230; Quando voc&#234; conseguir ca&#231;ar, &#233; s&#243; fornecer um pedacinho da sua ca&#231;a a esse velho crocodilo cansado.&nbsp;</p><p>&#8211; S&#243; isso? &#8211; respondeu o tigre, surpreso.</p><p>&#8211; S&#243;, claro. O que mais eu poderia querer?</p><p>O tigre, enxugando as l&#225;grimas, aceitou a proposta. Mas retrucou:</p><p>&#8211; Tenho somente uma condi&#231;&#227;o. Voc&#234; n&#227;o vai chegar perto de mim enquanto isso. Ainda n&#227;o confio em voc&#234;.</p><p>&#8211; Aceito sua condi&#231;&#227;o, meu jovem. Mas j&#225; lhe adianto que pode guardar sua desconfian&#231;a. Nem se eu quisesse poderia fazer-lhe mal.&nbsp;</p><p>O crocodilo come&#231;ou o treinamento. Pediu, primeiro, que o tigre tentasse predar por si s&#243; um animal qualquer. Tentou, inicialmente, capturar um javali. Saiu do meio da grama alta e arremessou-se nas costas do bicho. Por&#233;m, um momento antes de cravar suas garras, o porco escapuliu desaparecendo na mata densa.</p><p>&nbsp;&#8211; Voc&#234; &#233; barulhento demais, meu jovem - disse o crocodilo, que observava de longe, lambendo os bei&#231;os &#8211; Isso assusta seu almo&#231;o. Respire mais devagar, tenha movimentos lentos, cuidado ao pisar em galhos ca&#237;dos e ro&#231;ar na relva.</p><p>O jovem tigre seguiu os conselhos e tentou novamente. Viu um pequeno b&#250;falo perdido desgarrando-se da sua manada, que j&#225; subia o rio enquanto o pequeno distra&#237;a-se com uma borboleta. O tigre precipitou-se da copa de uma &#225;rvore, mas n&#227;o t&#227;o alto para alcan&#231;ar o pequeno b&#250;falo, que gritou. Em poucos segundos cinco b&#250;falos grandes uniram-se contra o tigre, que escafedeu-se rapidamente, passando por debaixo do torso de um dos b&#250;falos, fugindo como um peixe escorregadio.</p><p>&#8211; Voc&#234; &#233; apressado demais, meu jovem &#8211; aconselhou o crocodilo, quando o jovem tigre veio lhe contar o que houve, esbaforido &#8211; &#201; preciso controlar o &#237;mpeto e ter, principalmente, paci&#234;ncia. A sua presa deve chegar a voc&#234;. Basta esperar o momento certo.</p><p>O tigre tentou mais uma vez, e mais uma, e mais uma. Empreendeu sua ca&#231;ada durante tr&#234;s dias ininterruptos. J&#225; estava exausto, faminto, a barriga doendo, as pernas bambas. Os conselhos eram sempre os mesmos: tenha calma, seja lento, paciente, astuto, sagaz, n&#227;o fa&#231;a barulho, s&#243; d&#234; um bote certeiro na hora correta, n&#227;o se precipite&#8230; etc, etc, etc. O tigre j&#225; estava de saco cheio dos conselhos do crocodilo.</p><p></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!iTow!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2ba87599-1658-4b44-83f5-09244714b1c0_1024x1536.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!iTow!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2ba87599-1658-4b44-83f5-09244714b1c0_1024x1536.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!iTow!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2ba87599-1658-4b44-83f5-09244714b1c0_1024x1536.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!iTow!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2ba87599-1658-4b44-83f5-09244714b1c0_1024x1536.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!iTow!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2ba87599-1658-4b44-83f5-09244714b1c0_1024x1536.jpeg 1456w" sizes="100vw"><img src="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!iTow!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2ba87599-1658-4b44-83f5-09244714b1c0_1024x1536.jpeg" width="356" height="534" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/2ba87599-1658-4b44-83f5-09244714b1c0_1024x1536.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:1536,&quot;width&quot;:1024,&quot;resizeWidth&quot;:356,&quot;bytes&quot;:1083443,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!iTow!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2ba87599-1658-4b44-83f5-09244714b1c0_1024x1536.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!iTow!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2ba87599-1658-4b44-83f5-09244714b1c0_1024x1536.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!iTow!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2ba87599-1658-4b44-83f5-09244714b1c0_1024x1536.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!iTow!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2ba87599-1658-4b44-83f5-09244714b1c0_1024x1536.jpeg 1456w" sizes="100vw" loading="lazy"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p></p><p>&#8211; N&#227;o est&#227;o funcionando! S&#227;o conselhos in&#250;teis. Tento h&#225; dias e n&#227;o consegui nem um m&#237;sero p&#225;ssaro. Estou matando minha fome com insetos e cogumelos.</p><p>&#8211; Meu jovem, acalme-se.</p><p>&#8211; N&#227;o aguento mais ter calma!</p><p>&#8211; Voc&#234; nunca a teve. H&#225; um prov&#233;rbio indiano, o qual ouvi h&#225; muito tempo, que diz o seguinte: sente-se &#224; margem do rio e ver&#225;s o corpo do teu inimigo passar. Na verdade, esse era um prov&#233;rbio crocodilesco que n&#243;s ensinamos aos homens no tempo em que eles ainda se comunicavam conosco. Se voc&#234; n&#227;o fizer o que eu estou pedindo, morrer&#225; de fome antes de mim.</p><p>Enquanto discutiam, surgiu do outro lado, novamente, o mesmo ant&#237;lope que os animais disputaram dias atr&#225;s.</p><p>&#8211; &#201; a sua chance, meu jovem. V&#225; por dentro do rio, com calma, nadando vagarosamente. &#8211; apontou para uma grande casca de &#225;rvore ca&#237;da ao lado deles &#8211; Cubra-se com isso, utilize-o como disfarce. Chegue perto sem barulho nem agitar a &#225;gua. Quando estiver ao lado do bicho e ele n&#227;o estiver desconfiado da sua presen&#231;a, d&#234; um bote certeiro no seu pesco&#231;o e traga-o at&#233; mim.</p><p>Assim o fez. Controlou o nervosismo, diminuiu o ritmo da respira&#231;&#227;o, mergulhou lentamente e seguiu coberto pela casca da &#225;rvore. Nadou n&#227;o como um tigre, mas como um leg&#237;timo aprendiz de crocodilo anci&#227;o pronto a abater sua ca&#231;a. O ant&#237;lope, inocente, bebia e bebia e bebia toda a &#225;gua, ficando cansado e lento. Olhou para o objeto que se aproximava, por&#233;m n&#227;o viu perigo e voltou a beber com afinco e muita sede. Era a oportunidade perfeita. Numa investida precisa, o jovem tigre cravou os dentes ferozes no pesco&#231;o do ant&#237;lope que se debateu, mas logo desistiu. O tigre havia vencido.</p><p>Atravessou o rio at&#233; a margem onde o crocodilo observava calado e quieto o alegre tigre carregando sua ca&#231;a entre as presas.&nbsp;</p><p>&#8211; Consegui! &#8211; gritou, soltando o almo&#231;o no ch&#227;o.</p><p>&#8211; Parab&#233;ns, meu jovem. Foi paciente e inteligente. Mereceu a recompensa.</p><p>&#8211; Voc&#234; tamb&#233;m merece a sua. Vamos comer.</p><p>Empolgado, o tigre esqueceu-se da sua condi&#231;&#227;o deixando o crocodilo aproximar-se. O jovem matava sua fome lambuzando-se no seu banquete, distra&#237;do, quando ouviu a voz do crocodilo ao seu lado.</p><p>&#8211; Voc&#234; aprendeu a li&#231;&#227;o da paci&#234;ncia, meu jovem.</p><p>&#8211; Obrigado, crocodilo.</p><p>&#8211; Mas lembre-se: sempre pode haver algu&#233;m mais paciente do que voc&#234;. Quem espera mais, vence.</p><p>&#8211; Como assim? &#8211; o tigre parou de comer e virou o rosto para o crocodilo, curioso.</p><p>De repente, o crocodilo abriu a gigantesca boca, expondo todos os dentes assustadores feito l&#226;minas brilhantes, e partiu para cima do tigre. O jovem, transido de medo, fugiu, zunindo como uma flecha. Depois de finalizado o seu plano, o crocodilo arrastou a carca&#231;a do ant&#237;lope para dentro do rio calmamente.&nbsp;</p><p>Dizem que at&#233; os dias de hoje ele pode ser visto nos rios da &#193;sia, cada vez mais velho e gordo.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!iF8_!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff12c1dea-f6ed-432d-891d-ddef1005b29d_768x1152.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!iF8_!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff12c1dea-f6ed-432d-891d-ddef1005b29d_768x1152.jpeg 424w, 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2023 23:09:44 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!bDmx!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb7e28b77-71c0-4c36-aa5b-6f5dd2a44953_357x499.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!bDmx!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb7e28b77-71c0-4c36-aa5b-6f5dd2a44953_357x499.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!bDmx!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb7e28b77-71c0-4c36-aa5b-6f5dd2a44953_357x499.jpeg 424w, 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stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" 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class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Matheus Ara&#250;jo - Literatura! 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Ao lermos os contos destes grandes autores, percebemos toda a vida concentrada em poucas linhas e uma explos&#227;o ecoa na nossa alma de maneira mais impactante do que em outros g&#234;neros &#8211; &#233; a arte de dizer mais com menos palavras.</p><p>Esta habilidade t&#227;o admirada, invejada e requerida por escritores iniciantes e consagrados est&#225; presente no livro de estreia de Igor Maria Sales, O que choram os mortos.</p><p>Em treze narrativas, a obra costura seus contos em torno de um &#250;nico bordado: a morte. De um padre na Revolu&#231;&#227;o Francesa a um Deputado Recifense, do lend&#225;rio vaqueiro Raimundo Jac&#243; ao ladr&#227;o crucificado ao lado de Cristo: os personagens de Sales s&#227;o retratados em seu momento m&#225;ximo de crise &#8211; o instante final do ser humano sobre a terra.</p><p>S&#227;o nesses momentos de ruptura que emergem, do fundo do mar conturbado da exist&#234;ncia, as famosas &#8220;ideias dos n&#225;ufragos&#8221;. E, justamente por isso, o livro trata mais da vida do que da morte. O que se passa na mente de um homem que vendeu sua alma ao dem&#244;nio ao perceber que morrer&#225;? Quais traumas carrega um soldado que participou do exterm&#237;nio de Canudos? Como &#233; a mente de um artista ao contemplar a sua vida como se contemplasse a pr&#243;pria obra?</p><p>Mais do que respostas, a obra nos prop&#245;e perguntas. Como toda boa literatura, n&#227;o tem uma f&#243;rmula pronta da realidade para divulgar ao leitor, pelo contr&#225;rio: convida o leitor a percorrer uma investiga&#231;&#227;o sobre a mat&#233;ria, o destino e o prop&#243;sito da vida humana na terra e para al&#233;m dela. Aqui, nossas cren&#231;as n&#227;o s&#227;o confirmadas, afagadas ou chanceladas; s&#227;o desafiadas, questionadas e enfrentadas, cumprindo o papel que a literatura tem de ser provocativa, n&#227;o somente um vi&#233;s de confirma&#231;&#227;o das nossas certezas.</p><p>Isso se d&#225; em uma jun&#231;&#227;o peculiar entre raz&#227;o e transcend&#234;ncia. Enquanto muitos costumam classificar a racionalidade do dom&#237;nio t&#233;cnico em oposi&#231;&#227;o &#224; tend&#234;ncia transcendental de certos autores (ex: Tolst&#243;i e Dostoi&#233;vski, Jo&#227;o Cabral de Melo Neto e Jorge de Lima); o autor nos mostra que as duas coisas podem andar juntas e de m&#227;os dadas.</p><p>Sales demonstra que, antes de tudo, entende a arquitetura da fic&#231;&#227;o (ou &#8220;o segredo do bordado&#8221;, segundo Raimundo Carrero, ou ainda &#8220;a m&#225;quina do romance&#8221;, segundo Gustave Flaubert). Sua prosa, al&#233;m de bela, &#233; t&#233;cnica: as constru&#231;&#245;es estil&#237;sticas, a psicologia dos seus personagens e o desenrolar dos enredos possuem tom, fun&#231;&#227;o e efeito (citando Allan Poe), criando narrativas coesas que exalam for&#231;a po&#233;tica, densidade humana e apelo dram&#225;tico. H&#225; aqueles escritores que rejeitam as descobertas, inven&#231;&#245;es, artif&#237;cios e mecanismos liter&#225;rios utilizados pelos grandes mestres &#8211; aqui, no entanto, vemos uma obra que est&#225; ancorada na tradi&#231;&#227;o da prosa como grande arte (reta raz&#227;o do fazer, artesanato, cuidado com os m&#237;nimos detalhes). N&#227;o que os contos sejam puro virtuosismo ou pirotecnia lingu&#237;stica: a t&#233;cnica est&#225; a servi&#231;o da hist&#243;ria, do personagem, da condi&#231;&#227;o humana.</p><p>&#201; o que acontece, por exemplo, nos dois primeiros contos: O Dourado Revoar e A Morte do Deputado Jarbas da Cunha. Apesar de serem diferentes em tom e tema, a estrutura das duas narrativas possuem o uso inteligente do foco narrativo e do ponto de vista como semelhan&#231;a. O conto que inicia a obra &#233; quase que inteiramente contado a partir de um narrador oculto em terceira pessoa, por&#233;m com aproxima&#231;&#227;o do personagem no uso do discurso indireto livre. O fim de O Dourado Revoar, seu &#225;pice, ocorre quando o foco narrativo (o pintor) permanece, mas ganha novos contornos quando passa a ser enxergado por outro ponto de vista (T&#233;o, o seu irm&#227;o). Em vez de compreendermos o personagem pela sua pr&#243;pria perspectiva, um segundo personagem surge para guiar o nosso olhar pela narrativa no &#250;ltimo par&#225;grafo e este artif&#237;cio, bem engendrado, torna o conto comovente.</p><p>Em A Morte do Deputado Jarbas da Cunha, a perip&#233;cia (mudan&#231;a repentina do eixo dram&#225;tico, tamb&#233;m chamada de plot-twist) reside no jogo entre foco narrativo e ponto de vista. A tens&#227;o &#233; criada a partir de um bom enredo policial cl&#225;ssico (quem matou fulano?), no entanto a narrativa se transforma ao sermos surpreendidos em seu desfecho com o narrador em primeira pessoa que, ao sair de cena, continua narrando a hist&#243;ria, por&#233;m passando o foco narrativo para outro personagem, mantendo o ponto de vista. A grande surpresa, que nos arrebata ao final da leitura, n&#227;o ocorre somente na &#8220;est&#243;ria&#8221;, mas na maneira como ela &#233; contada.</p><p>H&#225;, tamb&#233;m, em quase todos os contos desta obra, a utiliza&#231;&#227;o dos di&#225;logos internos (que ocorrem dentro do par&#225;grafo, intrometendo-se em meio ao narrador, sem marca&#231;&#227;o) e do discurso indireto livre (uma jun&#231;&#227;o do narrador oculto em terceira pessoa e da voz do personagem na mesma frase, quase como se n&#227;o fosse poss&#237;vel distingui-los). Podemos perceber, no seguinte trecho do conto A Causa, como as vozes dos personagens e do narrador se entrela&#231;am no texto, sem necessidade de intromiss&#227;o, explica&#231;&#227;o ou indica&#231;&#227;o, fazendo com que a leitura flua sem pausas:</p><blockquote><p>&#8220;Desse dia lembrava-se bem. Ainda tinha o livro guardado e folheava-o sempre; continuava encantado com a leveza e as cores daqueles p&#225;ssaros. Da mulher nunca esquecera o rosto. <strong>Uma pele t&#227;o lisa que parecia m&#225;rmore negro, olhos grandes e castanhos,</strong> era quem ele deveria ter amado. <em>Mas o que aconteceu? Qual o motivo de n&#227;o terem sa&#237;do juntos de l&#225;?</em></p><p>Devolveu o livro, negou com a cabe&#231;a, <em>eu insisto, meu bem; fique, &#233; seu, ele n&#227;o teve como negar</em>&#8221;.</p></blockquote><p>&#201; poss&#237;vel perceber tr&#234;s vozes presentes neste pequeno trecho: a do narrador, que descreve a cena (&#8220;Desse dia lembrava-se bem&#8230;&#8221;); o discurso indireto livre (grafado em negrito), onde a voz &#233; d&#250;bia, podendo ser tanto do pr&#243;prio narrador quanto do personagem principal; e o di&#225;logo direto, grafado em it&#225;lico, onde Humberto e a poss&#237;vel m&#227;e adotiva conversam. A transi&#231;&#227;o dessas vozes, a um leitor desacostumado, pode parecer abrupta, mas aquele que entende o mecanismo conseguir&#225; perceber a fluidez dos di&#225;logos e a sutileza com a qual eles s&#227;o costurados.</p><p>Ali&#225;s, a sutileza n&#227;o acompanha somente os di&#225;logos, mas est&#225; presente no pr&#243;prio estilo do autor: s&#243;brio, sem exageros ou histrionices, Sales preocupa-se em comunicar as informa&#231;&#245;es descritas de uma maneira clara, por&#233;m sem ser &#243;bvio demais. Em resumo, mostra, mas n&#227;o subestima o leitor. Como em &#8220;A colheita&#8221;. Enquanto um escritor iniciante menos consciente do seu of&#237;cio n&#227;o resistiria &#224; tenta&#231;&#227;o de deixar ainda mais claro que a esposa e o filho do protagonista haviam morrido, Sales contenta-se em descrever que &#8220;Madeiro se banhou no rio, ap&#243;s trabalhar num dia quente. Depois se sentou aos p&#233;s do monte e acendeu um cigarro. Olhou a &#225;gua que corria limpa e se cobria de rosa ao passar pelo ip&#234;. Via na outra margem sob a sombra, duas cruzes&#8221;. As duas cruzes revelam o drama interior do personagem atrav&#233;s dessa imagem t&#227;o concreta, t&#227;o forte e t&#227;o significativa, um s&#237;mbolo universal que pode ser compreendido por qualquer um. A constru&#231;&#227;o do significado &#233;, portanto, conjunta: n&#227;o se entrega tudo ao leitor, dele tamb&#233;m se exige.</p><p>E exige-se, sobretudo, aten&#231;&#227;o aos detalhes da obra, pois eles resguardam certas p&#233;rolas raras de serem encontradas na prosa contempor&#226;nea. No conto Um Trof&#233;u para Herm&#237;nio, por exemplo, h&#225; uma recorda&#231;&#227;o (tamb&#233;m chamada de flashback) no meio do conto, e ela ocorre sem nenhuma anuncia&#231;&#227;o: apenas pela mudan&#231;a de ambiente e de tempo verbal (em forma de elipse) &#233; poss&#237;vel perceber que a linha narrativa foi modificada temporalmente.</p><p>&#201; preciso perceber, tamb&#233;m, quando o autor faz uso de cen&#225;rios metaf&#243;ricos (descri&#231;&#245;es externas que explicam os estados interiores dos personagens) e antecipa&#231;&#245;es narrativas (dicas sutis que, ao leitor inteligente, mostram o futuro dos personagens). Por exemplo, em Raimundo Jac&#243;, quando Adriano, protagonista que planeja um assassinato, v&#234; &#8220;o carcar&#225; nos galhos secos, atento, at&#233; avistar um pre&#225; e investir sobre ele entre as flores de mandacaru que salpicava de vermelho&#8221;. Para quem conhece a hist&#243;ria, inspirada na Missa do Vaqueiro de Luiz Gonzaga, reconhece que o carcar&#225; emboscando o pre&#225;, salpicando o mandacaru de vermelho, &#233; um s&#237;mbolo, uma met&#225;fora expressa nos cen&#225;rios, que demonstra a crueldade do que vir&#225; a ocorrer.</p><p>Entre elipses, cen&#225;rios metaf&#243;ricos, narradores ocultos, di&#225;logos internos e discursos indiretos, a prosa de Sales, recheada de recursos t&#233;cnicos, pr&#243;pria de quem tem consci&#234;ncia do seu trabalho criativo, &#233; essencialmente forte por aquilo que traz de humano. Seu olhar sobre a vida e a morte &#8211; sempre comovente, como quem olha um doente com piedade, um olhar parecido com que Tolst&#243;i enxerga Ivan Ilitch em seu leito de morte ou Anna Kari&#234;nina nos trilhos do trem &#8211; desabrocha em meio a esse emaranhado de constru&#231;&#245;es elaboradas.</p><p>&#201; como se o trabalho de plantar, regar e cuidar fosse mais complexo justamente porque dele sair&#225; uma bel&#237;ssima flor.</p><p>Sua racionalidade na elabora&#231;&#227;o ficcional contrasta com a sua vis&#227;o evidentemente metaf&#237;sica da vida. A morte, para Sales, n&#227;o encerra a exist&#234;ncia e o &#250;ltimo suspiro terrestre &#233; apenas a antessala do destino final. O t&#237;tulo, inspirado em Baudelaire, demonstra essa preocupa&#231;&#227;o n&#227;o somente com o agora, mas com o depois. Parafraseando outro soneto do mestre franc&#234;s, &#233; como se o c&#233;u, esta &#8220;tampa negra da imensa marmita / onde a humanidade coze a fogo lento e calado&#8221;, repentinamente se abrisse e n&#243;s, afogados nesta aparente pris&#227;o, pud&#233;ssemos enxergar um pouco do que nos espera do outro lado.</p><p>Para isso, o autor reescreve algumas hist&#243;rias e insere sua vis&#227;o pessoal nelas, n&#227;o se preocupando com a realidade hist&#243;rica dos fatos, mas com a possibilidade humana e divina contida naquelas narrativas. Por este motivo &#233; que n&#227;o se preocupa com a fidelidade &#224; realidade factual em O Soldado da Concha, A Balsa da Medusa, Raimundo Jac&#243; ou Dimas. Para ele, de maneira acertada, n&#227;o interessa o que aconteceu, mas o que poderia ter acontecido: ou melhor, o que ele gostaria que tivesse acontecido, para que a partir dessa constru&#231;&#227;o fict&#237;cia a transcend&#234;ncia brote.</p><p>Por incr&#237;vel que pare&#231;a, essa prosa transcendente tem eco no realismo m&#225;gico latino-americano (principalmente Gabriel Garc&#237;a M&#225;rquez e J&#250;lio Cort&#225;zar) e no jogo de luz e sombra dos contos machadianos. Sales traz autores de vis&#245;es existenciais completamente diferentes da sua, mas constr&#243;i a partir deles uma coisa nova &#8211; e isso &#233; propriamente o dom do artista.</p><p>O melhor: engata todos esses elementos sempre numa tens&#227;o crescente que desemboca nas &#250;ltimas frases dos seus contos, como num estouro. Ou como no &#250;ltimo soco antes do nocaute.</p><p></p><p>__________________________________</p><p></p><p>Este texto &#233; o pref&#225;cio &#224; obra de Sales. Tamb&#233;m far&#225; parte do meu livro &#8220;As Vozes e os Ecos&#8221;.</p><p>&#8220;O Que Choram os Mortos&#8221;, de Igor Sales, acabou de ser lan&#231;ado pela Editora Appris. Adquira em qualquer link abaixo:</p><p><a href="https://www.amazon.com.br/Que-Choram-os-Mortos-ebook/dp/B0C15N4CS3/ref=sr_1_1?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&amp;crid=2PDC3SQH4YGDV&amp;keywords=o+que+choram+os+mortos&amp;qid=1681859127&amp;sprefix=o+que+choram+os+morto%2Caps%2C229&amp;sr=8-1">Vers&#227;o digital.</a></p><p><a href="https://editoraappris.com.br/produto/o-que-choram-os-mortos/">Vers&#227;o f&#237;sica.</a></p><p></p><p></p><p></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://matheusaraujo.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscrever-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Matheus Ara&#250;jo - Literatura! 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Tolkien &#233; lan&#231;ado ap&#243;s 100 anos | VEJA&quot;,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:null,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:true,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="Livro in&#233;dito de J.R.R. Tolkien &#233; lan&#231;ado ap&#243;s 100 anos | VEJA" title="Livro in&#233;dito de J.R.R. 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Na minha resposta, citei alguns trechos de ensaios e cartas (ou seja, fontes prim&#225;rias) em que o autor de &#8220;<em>O Senhor dos An&#233;is</em>&#8221; afirma o total oposto dito por Pedro.&nbsp;</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://matheusaraujo.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscrever-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Matheus Ara&#250;jo - Literatura! 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Na Carta a Walter Allen, em vez de &#8220;N&#227;o estou especialmente interessado em crian&#231;as, e certamente n&#227;o em escrever para elas: <strong>sim em</strong> dirigir-me direta e expressamente &#224;queles que n&#227;o conseguem compreender a linguagem adulta&#8221; o correto seria: &#8220;N&#227;o estou especialmente interessado em crian&#231;as, e certamente n&#227;o em escrever para elas: <strong>isto &#233;,</strong> em dirigir-me direta e expressamente &#224;queles que n&#227;o conseguem compreender a linguagem adulta&#8221;. Erro meu.</p><p>Apesar disso, Pedro percebeu que eu estava certo ao dizer que Tolkien n&#227;o pensava nas crian&#231;as na hora de escrever, mas ainda assim defende que a literatura do autor &#233; infantil.</p><p>Ontem, li<a href="https://pedrosette.substack.com/p/alem-do-imaginario-infantil?publication_id=373667&amp;post_id=112845209&amp;isFreemail=true"> a resposta do Pedro &#224; minha resposta</a>, e agora decidi postar a resposta &#224; resposta da resposta.&nbsp;</p><p>Se no meu primeiro texto o prop&#243;sito era somente rebater uma afirma&#231;&#227;o, neste desejo ir um pouco mais al&#233;m. N&#227;o quero discutir o conceito de inf&#226;ncia e literatura infantil colocado pelo Pedro (apesar de achar que este carece de embasamento). Quero apenas demonstrar que Tolkien n&#227;o se encaixa nesta defini&#231;&#227;o.&nbsp;</p><p>Em cr&#237;tica liter&#225;ria (ou em um trabalho acad&#234;mico) &#233; preciso definir bem <strong>o objeto que ser&#225; analisado</strong>. Isto feito, &#233; definida tamb&#233;m <strong>a perspectiva da an&#225;lise</strong>. Na proposta inicial do Pedro, no seu primeiro texto, o objeto &#233; o autor J.R.R. Tolkien e a perspectiva da an&#225;lise &#233; &#8220;literatura infantil&#8221;, seja l&#225; o que isso signifique. A conclus&#227;o do Pedro foi: &#8220;Tolkien &#233; um autor infantil&#8221;.&nbsp;</p><p>Para afirmar qualquer coisa &#233; preciso, portanto, estudar o autor em quest&#227;o, entender o objeto da an&#225;lise, para depois discuti-lo &#224; luz da perspectiva escolhida. Para entender Tolkien, ent&#227;o, &#233; estritamente necess&#225;rio fazer duas coisas: <strong>ler a sua obra e ler, pelo menos, os seus principais comentadores.&nbsp;</strong></p><p>Posso at&#233; ser meio chato em rela&#231;&#227;o a isso, porque o Instagram n&#227;o &#233; a academia e um post n&#227;o &#233; cr&#237;tica liter&#225;ria, mas acho importante mantermos o rigor se quisermos chegar a uma discuss&#227;o te&#243;rica de bom n&#237;vel.&nbsp;</p><p>Dito isso, vamos falar do objeto de an&#225;lise: a obra de J.R.R. Tolkien.</p><p>Pedro escreve que:</p><blockquote><p><em>&#8220;Mesmo tendo come&#231;ado a publicar d&#233;cadas depois, um autor como o ingl&#234;s J.R.R. Tolkien ainda participa do projeto de escrever uma &#171;literatura infantil&#187; voltada para suscitar sentimentos nobres nas crian&#231;as e mant&#234;-las bem longe de certos temas.&#8221;</em></p></blockquote><p>H&#225; a&#237;, novamente, um equ&#237;voco hist&#243;rico que poderia ser evitado com consultas a fontes prim&#225;rias.</p><p>O projeto de Tolkien &#233;, sobretudo, filol&#243;gico, mitol&#243;gico e folcl&#243;rico:<strong> nunca foi um projeto liter&#225;rio, muito menos para crian&#231;as</strong>. A linha mestra desse projeto n&#227;o &#233; (pasmem) &#8220;<em>O Hobbit</em>&#8221; ou &#8220;<em>O Senhor dos An&#233;is</em>&#8221;, mas sim &#8220;<em>O Silmarillion</em>&#8221;, este sim era &#8220;the work of his heart&#8221; (Tom Shippey, <em>The Road to Middle-Earth,</em> pg. 253). Isso pode ser facilmente verificado se forem consultadas as cartas de Tolkien <em>(Letters of J.R.R. Tolkien</em>, org. Humphrey Carpenter) ou sua biografia mais famosa (<em>J.R.R. Tolkien, Uma Biografia</em>, Humphrey Carpenter).&nbsp;</p><p>As primeiras anota&#231;&#245;es de &#8220;<em>O Silmarillion</em>&#8221; datam do tempo em que Tolkien esteve nas trincheiras da primeira guerra mundial. Somente quase setenta anos depois o livro foi publicado postumamente por seu filho, Christopher Tolkien. De modo que quando escreveu seus livros mais famosos, a Terra-M&#233;dia e todo o seu background mitol&#243;gico j&#225; havia sido criado.</p><p>&#8220;<em>O Hobbit</em>&#8221; foi uma brincadeira com seus filhos. Natural, sem muito projeto. Os pr&#243;prios filhos deram pitaco mudando a hist&#243;ria como preferiam. Foi feito, sim, para crian&#231;as. Assim tamb&#233;m aconteceu com outras obras, encomendadas pelos editores, como &#8220;<em>Roverandom</em>&#8221; e &#8220;<em>Ferreiro do Bosque Grande</em>&#8221;, todas infantis, declaradamente infantis, feitas pensando nas crian&#231;as.</p><p>No entanto, n&#227;o foi assim com &#8220;<em>O Senhor dos An&#233;is</em>&#8221;. Tolkien escreveu em suas cartas (j&#225; citadas no meu post anterior) de maneira bem clara: n&#227;o fiz &#8220;pensando nas crian&#231;as&#8221;. &#8220;<em>O Senhor dos An&#233;is</em>&#8221; foi uma obra encomendada pela editora, a qual Tolkien teve imensa dificuldade para escrever. Foram doze anos no processo de escrita da obra. A inten&#231;&#227;o era fazer uma continua&#231;&#227;o, veja s&#243;, da sua obra mais &#8220;adulta&#8221;: &#8220;<em>O Silmarillion</em>&#8221;. O projeto do Tolkien n&#227;o era escrever um livro &#8220;infantil&#8221; ou &#8220;para crian&#231;as&#8221;:<strong> era dar continuidade ao Silmarillion, tamb&#233;m dando corpo e voz &#224;s suas preocupa&#231;&#245;es mitol&#243;gicas, folcl&#243;ricas e filol&#243;gicas.&nbsp;</strong></p><p>Este &#233; o projeto particular de Tolkien. Qualquer outro projeto abstrato externo a isso merece uma investiga&#231;&#227;o minuciosa: o quanto desse &#8220;projeto&#8221; casa com o &#8220;projeto&#8221; de Tolkien? O quanto desta mentalidade influenciou Tolkien e suas obras? Atrav&#233;s de que meios? Aulas? Leituras? Osmose? Se n&#227;o rastrearmos como essa mentalidade faz parte da obra tolkieniana, fica parecendo que o autor acredita nisso porque &#8220;todo mundo acreditava&#8221;. E, neste momento, o texto passou a ser escrito por um naturalista do s&#233;culo XIX dizendo que o homem &#233; produto do seu meio.&nbsp;</p><p>Pedro escreve assim:</p><blockquote><p>&#8220;O desejo de querer preservar-se vai direto ao encontro do sentimento que deu origem &#224; pr&#243;pria cultura &#171;infantil&#187; que surgiu na Europa no s&#233;culo XVIII, junto com outras coisas que hoje achamos totalmente &#171;normais&#187; mas que s&#227;o inven&#231;&#245;es que causariam muito estranhamento nas pessoas dos s&#233;culos anteriores.&#8221;</p></blockquote><p>Percebam: n&#227;o contesto essa defini&#231;&#227;o. N&#227;o tenho nem as ferramentas para contestar (quais estudos Pedro utiliza para embasar essas afirma&#231;&#245;es? Ele acabou n&#227;o citando), quero apenas entender: como isso se relaciona com Tolkien?&nbsp;</p><p>Por que a afirma&#231;&#227;o me parece fraca? Bom, porque Tolkien, apesar de ser um homem que cresceu no s&#233;culo XX, formou-se essencialmente na mentalidade medieval e na cultura cl&#225;ssica. Ele n&#227;o somente rejeitava a cultura moderna (nas palavras de Shippey, em &#8220;The Road to Middle-Earth&#8221;, era um &#8220;moderno anti-modernista&#8221;) como nem ao menos se interessava por ela, de modo que ao ser perguntado ou questionado a respeito de obras mais &#8220;recentes&#8221;, ele nem fazia ideia de suas exist&#234;ncias.&nbsp;</p><p>A literatura que moldou seu pensamento veio de autores e obras &#8220;como Homero, ou Beowulf, ou Virg&#237;lio&#8221; e os moldes de seus livros s&#227;o &#8220;a trag&#233;dia grega ou shakespeariana!&#8221; (carta para Robert Murray, 4 de novembro de 1954). Tolkien foi &#8220;educado nos cl&#225;ssicos&#8221;, n&#227;o lia a literatura inglesa moderna e contempor&#226;nea a ele, tendo descoberto o prazer liter&#225;rio somente com a leitura de Homero (carta para Robert Murray, 2 de dezembro de 1953). O ingl&#234;s era estudioso de obras como &#8220;<em>Sir Gawain e o Cavaleiro Verde</em>&#8221;, a qual ele chamou de &#8220;uma das obras-primas da arte do s&#233;culo quatorze na Inglaterra e da Literatura Inglesa como um todo&#8221; (&#8220;<em>Sir Gawain and The Green Knight</em>&#8221;, em &#8220;<em>The Monsters and The Critics and Other Essays&#8221;</em>, pg. 72). O c&#226;none pessoal de Tolkien ainda compreende o poema P&#233;rola (do mesmo autor de &#8220;Sir Gawain&#8230;&#8221;), <em>Beowulf</em>, <em>Sir Orfeo</em>, as Eddas N&#243;rdicas, <em>The Saga of King Heidrek the Wise</em>, <em>The Saga of the Volsungs</em>, <em>The English and Scottish Popular Ballads</em>, <em>Mandeville&#8217;s Travels</em>, <em>Kalevala</em>, <em>History of the Danes</em> de Saxo Grammaticus e algumas outras obras (estas informa&#231;&#245;es podem ser consultadas no Ap&#234;ndice A, da obra &#8220;<em>The Road to Middle Earth</em>&#8221;, de Tom Shippey, que se chama &#8220;<em>Tolkien&#8217;s Sources: The True Tradition</em>&#8221;).&nbsp;</p><p>Caso queiram checar, todas essas obras, fundamentalmente importantes na forma&#231;&#227;o de Tolkien, s&#227;o anteriores ao s&#233;culo XVIII, onde teoricamente teria surgido a &#8220;ideia de inf&#226;ncia&#8221;. O que forma o imagin&#225;rio e as ideias de Tolkien &#233; o medievo (checar a obra &#8220;<em>Tolkien, The Medievalist</em>&#8221;).</p><p>Al&#233;m disso, suas obras e seu pensamento possuem correspond&#234;ncias com obras da antiguidade cl&#225;ssica (checar <em>Tolkien and The Classics</em>, <em>Tolkien and the Classical World</em>, <em>There and Back Again: Odysseus and Bilbo Baggins</em> e <em>Troy and The Rings</em>), que imagino que tamb&#233;m estejam bem distantes do v&#237;rus da inf&#226;ncia iluminista.&nbsp;</p><p>Tendo em mente o c&#226;none pessoal tolkieniano e sua forma&#231;&#227;o como leitor e pensador, fica claro que a preserva&#231;&#227;o da inf&#226;ncia, &#8220;um projeto talvez j&#225; adotado por in&#233;rcia; um projeto que, na d&#233;cada de 1950, n&#227;o precisava mais ser explicitado&#8221;, na obra de Tolkien, n&#227;o faz sentido.&nbsp;</p><p>Pedro ainda escreve que:&nbsp;</p><blockquote><p>&#8220;Mas, como o esc&#226;ndalo pode ser grande, vou me repetir: estou dizendo que &#171;literatura infantil&#187; &#233; um g&#234;nero que, em seu projeto mesmo, exclui certos temas, e tenta manter-se &#171;adequada&#187; a uma certa concep&#231;&#227;o de inoc&#234;ncia.&#8221;</p></blockquote><p>A partir de agora, entramos nos temas. Pedro diz que a literatura infantil pode ser identificada pela aus&#234;ncia de certos temas, um deles seria o sexo. Entraremos mais tarde neste tema em espec&#237;fico, mas acho que outros temas tratados em &#8220;<em>O Senhor dos An&#233;is</em>&#8221; n&#227;o s&#227;o nada infantis, nem preservam a inoc&#234;ncia da crian&#231;a. O primeiro deles &#233; a decad&#234;ncia pol&#237;tica do ocidente. Para Tolkien, esse era um tema fundamental.</p><p>S&#227;o tr&#234;s as ideias principais: a primeira &#233; que a ordem pol&#237;tica do ocidente est&#225; em decad&#234;ncia porque se esqueceu daquilo que a ordena. <strong>N&#227;o &#224; toa a Terra-M&#233;dia n&#227;o &#233; um lugar exuberante, belo, um ideal de vida, nem mesmo o Condado est&#225; a salvo, visto que ao fim da hist&#243;ria &#233; dominado e seus habitantes escravizados</strong>. Por toda Terra-M&#233;dia s&#243; se v&#234; ru&#237;nas, porque elas indicam que aquele lugar foi grandioso, mas n&#227;o &#233; mais. A pr&#243;pria estrutura epistemol&#243;gica da obra &#233; em forma de ru&#237;na (para entender melhor, indico a palestra do prof&#186; Michael D.C. Drout na Carnegie Mellon University chamada &#8220;<em>The Lord of the Rings: How To Read J.R.R. Tolkien</em>&#8221;).</p><p>A segunda ideia &#233; que uma das solu&#231;&#245;es para isso seria o retorno ao "Common Good&#8221;, ao distributismo, &#224; Doutrina Social da Igreja. Uma esp&#233;cie de aus&#234;ncia do estado em respeito &#224;s ordens individuais. Isso tudo est&#225; representado no Condado: &#233; uma terra onde seus habitantes resolvem seus problemas sem ajuda direta do estado. Na verdade, o estado quase inexiste no Condado. Tolkien dava tanta import&#226;ncia a este tema que come&#231;a &#8220;<em>O Senhor dos An&#233;is</em>&#8221; explicando a din&#226;mica pol&#237;tica dos Hobbits (j&#225; no pr&#243;logo) e termina o livro com a restaura&#231;&#227;o desse modelo (O Expurgo do Condado).&nbsp;&nbsp;</p><p>A terceira ideia &#233; que, em &#250;ltimo caso, o regime pol&#237;tico aceit&#225;vel seria uma monarquia onde o rei n&#227;o quisesse governar. Bom, a&#237; est&#225; Aragorn governando Gondor.&nbsp;</p><p>Voc&#234; pode checar lendo, primeiramente, os livros e textos auxiliares (as t&#227;o j&#225; citadas cartas e, em especial, &#8220;<em>Middle-earth and the Return of the Common Good: J. R. R. Tolkien and Political Philosophy</em>&#8221;, de Joshua Hren). Essa enorme preocupa&#231;&#227;o pol&#237;tica, essa discuss&#227;o de modelos de governo e esse retrato da decad&#234;ncia do ocidente diante da modernidade &#233; tema de &#8220;literatura infantil&#8221;? Imagine falar para o seu filho de oito anos que a democracia &#233; uma farsa, que o feudalismo precisa ser restaurado, que todos os nossos governantes s&#227;o incapazes e que a desordem pol&#237;tica do mundo provavelmente vai destruir a vida espiritual dele - colocando em risco at&#233; mesmo a salva&#231;&#227;o da sua alma. &#201; isso que Tolkien est&#225; dizendo. Ent&#227;o, n&#227;o, obviamente n&#227;o &#233; um tema da literatura infantil.</p><p>Existe a preocupa&#231;&#227;o filol&#243;gica. Tolkien criou l&#237;nguas e precisava que personagens e povos que &#8220;falassem&#8221; suas cria&#231;&#245;es, por isso desenvolve os elfos, an&#245;es, orcs, etc. Al&#233;m disso, o trabalho filol&#243;gico do Tolkien &#233; um retorno &#224; linguagem primitiva, resgatando palavras mortas, voc&#225;bulos perdidos, reconstruindo dimens&#245;es da l&#237;ngua inglesa que foram esquecidas. Para checar isso, bastaria ler o autor, mas tamb&#233;m &#233; importante consultar os primeiros cap&#237;tulos do t&#227;o j&#225; citado &#8220;<em>The Road do Middle-Earth</em>&#8221;, de Tom Shippey.</p><p>Existe tamb&#233;m a preocupa&#231;&#227;o geogr&#225;fica, hist&#243;rica e at&#233; mesmo bot&#226;nica. Tolkien sabia que as l&#237;nguas eram influenciadas pela hist&#243;ria de um local, pela sua geografia, sua fauna, sua flora, seus habitantes, por isso <strong>sua preocupa&#231;&#227;o</strong> em descrever de maneira t&#227;o complexa e exata as paisagens como elas eram, chegando ao didatismo: ele queria descrever com &#8220;realismo&#8221; aquilo que era fant&#225;stico. Com isso, chegamos a ler par&#225;grafos e mais par&#225;grafos de descri&#231;&#245;es de forma&#231;&#245;es rochosas, formato de plantas, sua hist&#243;ria e suas fun&#231;&#245;es, climas, regi&#245;es, etc. Isso &#233; algo comum na &#8220;literatura infantil&#8221;? &#201; um tema pr&#243;prio das crian&#231;as? Pode n&#227;o ferir a inoc&#234;ncia delas, mas vai faz&#234;-las abandonar a leitura (algo comum entre as crian&#231;as, que se d&#227;o melhor com &#8220;<em>O Hobbit</em>&#8221;).</p><p>Nada do que moveu Tolkien para escrever &#8220;<em>O Senhor dos An&#233;is</em>&#8221; tem a ver com crian&#231;as. &#201; um livro que pode ser lido por crian&#231;as, mas n&#227;o foi feito para elas ou pensando nelas.&nbsp;</p><p>Al&#233;m disso, a an&#225;lise do Pedro ignora a obra central de Tolkien: &#8220;<em>O Silmarillion</em>&#8221;. Veja: Pedro n&#227;o escreveu &#8220;<em>O Senhor dos An&#233;is</em> &#233; um livro infantil&#8221; ou &#8220;o Tolkien de <em>O Senhor dos An&#233;is </em>&#233; um autor infantil&#8221; (algo que j&#225; seria falso). Ele escreveu &#8220;Tolkien, um autor infantil&#8221;. Perceba como o objeto da an&#225;lise se expande. Quando ele diz &#8220;Tolkien&#8221;, quer dizer &#8220;a obra de Tolkien&#8221;. Se n&#227;o foi isso que quis dizer, expressou-se mal, e por isso &#233; t&#227;o importante <strong>escrever com clareza</strong>.</p><p>Em &#8220;<em>O Silmarillion</em>&#8221; Tolkien quer criar uma nova mitologia. Sua inten&#231;&#227;o (j&#225; declarada, me repito, em cartas) era reunir as lendas esquecidas da Inglaterra em uma nova hist&#243;ria. Para isso, suas maiores refer&#234;ncias foram: <em>O G&#234;nesis,</em> <em>O Kalevala</em>, <em>A Eneida</em>, <em>A Il&#237;ada</em>, <em>A Teogonia</em>... Tanto &#233; que o texto tem linguagem dif&#237;cil, muitos nomes, poucas explica&#231;&#245;es, diversas figuras de linguagem que remontam o estilo b&#237;blico e muitas releituras tanto das Sagradas Escrituras quanto das mitologias n&#243;rdica e grega. Essa &#233; uma forma comum &#224; "literatura infantil&#8221;?</p><p>A falta da leitura de Pedro a &#8220;<em>O Silmarillion</em>&#8221; pouparia o seu tempo em tentar entender Tolkien como um autor infantil, pois todos os pontos levantados por ele s&#227;o facilmente verific&#225;veis em algumas p&#225;ginas da obra-prima de tolkieniana.&nbsp;</p><p>Pedro escreve:&nbsp;</p><blockquote><p>&#8220;Voc&#234; consegue imaginar uma continua&#231;&#227;o de <em>O senhor dos an&#233;is</em> em que Arwen e Aragorn se perguntam se realmente escolheram bem um ao outro? Em que ficam entediados e come&#231;am a se interessar por outras pessoas? Em que o cumprimento do dever de fidelidade vai deixando-os amargos, e eles precisam lutar contra isso? O casamento <em>por amor</em> de Arwen e de Aragorn n&#227;o apenas &#233; totalmente moderno por ser por amor, como ainda &#233; um belo exemplo de fic&#231;&#227;o infantil por deixar de lado os problemas da intimidade.&#8221;</p></blockquote><p>Veja s&#243;: Pedro cita como exemplo conflitos que, na literatura, v&#227;o se tornar o centro das tem&#225;ticas, deixe-me ver&#8230; no s&#233;culo XVIII. N&#227;o foi a&#237; que surgiu a &#8220;literatura infantil&#8221;? No mesmo momento em que esses temas v&#234;m &#224; tona? O amor e o casamento na obra de Tolkien n&#227;o s&#227;o os do s&#233;culo XVIII, mas de seis s&#233;culos antes disso, pois &#233; o amor cort&#234;s medieval. A confus&#227;o &#233; muito grande: Pedro alega que Tolkien &#233; um autor infantil porque faz parte de um projeto do s&#233;culo XVIII que exclui certos temas, como prova disso cita tem&#225;ticas na obra tolkeniana que s&#227;o da Baixa Idade-M&#233;dia rebatendo-os com temas liter&#225;rios do s&#233;culo&#8230; XVIII!</p><p>Ele continua:</p><blockquote><p>&#8220;Ou ainda, voc&#234; consegue imaginar uma continua&#231;&#227;o de <em>O senhor dos an&#233;is </em>em que Arwen e Aragorn eles acolhem uma crian&#231;a que foi violentada e precisa recuperar a confian&#231;a nos outros? Em que Aragorn um dia bebe um pouco mais e quebra tudo? Em que aquela linda e po&#233;tica magia dos elfos exibe suas ra&#237;zes em sacrif&#237;cios humanos e animais?&#8221;</p></blockquote><p>Voltando a &#8220;<em>O</em> <em>Silmarillion&#8221;</em>: caso Pedro tivesse lido a obra poderia verificar que na obra h&#225;: parric&#237;dio, suic&#237;dio de uma gr&#225;vida, trag&#233;dias ao n&#237;vel da de J&#243;, trai&#231;&#245;es, desgra&#231;as, batalhas sanguin&#225;rias e muitos outros temas pouqu&#237;ssimo &#8220;infantis&#8221;.&nbsp;</p><p>Os elfos n&#227;o fazem sacrif&#237;cios animais, mas matam os pr&#243;prios familiares em &#8220;<em>O Silmarillion</em>&#8221;. N&#227;o precisa ler, s&#227;o muitas p&#225;ginas, mas pesquise no Google "Fratric&#237;dio em Aqual&#246;nde&#8221;.</p><p>Tamb&#233;m sugiro pesquisar algum resumo no Youtube sobre a hist&#243;ria de "T&#250;rin Turambar&#8221; e conseguir&#225; ouvir, se prestar bastante aten&#231;&#227;o, Shakespeare lamentando-se ao fundo, arrependido de n&#227;o ter escrito essa trag&#233;dia.</p><p>Outro ponto: Tolkien evitava o tema sexo, mas era algo muito pessoal dele. Gostava de ser extremamente discreto e comedido sobre o assunto (tanto que veio saber que a homossexualidade existia somente na idade adulta). Mesmo assim, ainda consta, em ap&#234;ndices de outras obras, insinua&#231;&#245;es a estupros e incesto. Esses s&#227;o temas infantis?</p><p>N&#227;o, definitivamente n&#227;o.</p><p>Pedro, em certo momento, escreve o seguinte:&nbsp;</p><blockquote><p>&#8220;N&#227;o me parece que Tolkien tivesse em mente as ra&#237;zes sangrentas das religi&#245;es arcaicas&#8221;</p></blockquote><p>Na verdade, parece que o Pedro n&#227;o tem em mente que Tolkien &#233; um mit&#243;logo e conhecia, como ningu&#233;m, as &#8220;religi&#245;es arcaicas&#8221;. Bastava ler &#8220;<em>O Senhor dos An&#233;is</em>&#8221; com aten&#231;&#227;o, mais especificamente no primeiro e no terceiro livro, em que eles falam das origens do &#8220;Topo do Vento&#8221; e dos &#8220;P&#226;ntanos Mortos&#8221;.&nbsp;</p><p>Mas, novamente, &#233; preciso ler &#8220;<em>O Silmarillion</em>&#8221;, j&#225; que logo nos primeiros cap&#237;tulos o Valar Aul&#235;, ao criar a ra&#231;a dos an&#245;es (sim, aqueles mesmos an&#245;es bonitinhos de &#8220;<em>O Hobbit</em>&#8221;) atropelou a cria&#231;&#227;o de Er&#250;, e ent&#227;o pega um martelo e oferece seus filhos em sacrif&#237;cio, at&#233; ser interrompido pela divindade, que reconhece a sua boa inten&#231;&#227;o (j&#225; leu isso em algum lugar? D&#234; uma olhadinha no Sacrif&#237;cio de Abra&#227;o, no <em>G&#234;nesis</em>).&nbsp;</p><p>Pausa para a propaganda: expliquei essa quest&#227;o da reconstru&#231;&#227;o mitol&#243;gica em Tolkien em uma aula do curso &#8220;Mitologia e Literatura Grega&#8221;. Minha tese &#233; que a Terra-M&#233;dia &#233; o ambiente em que o mito est&#225; &#8220;vivo&#8221;, na concep&#231;&#227;o de Mircea Eliade, e para isso J.R.R. Tolkien constr&#243;i tramas, temas e personagens baseados na poesia hom&#233;rica. <a href="https://sun.eduzz.com/1703777?fbclid=PAAaaKvWoGKVxdosMXT2wt0xxRIhW_-nKWP1yR4V0XhtPX_AP8qOXRAKcoBiw">Clique aqui e se inscreva.</a></p><p>Voltamos &#224; programa&#231;&#227;o normal.</p><p>O &#250;ltimo ponto do texto do Pedro que quero comentar &#233; a lista de obras que os pais leriam, mas n&#227;o dariam aos filhos. Eu gostaria de propor uma outra lista: <strong>obras que podem ser lidas por crian&#231;as, mas n&#227;o foram feitas para elas.</strong></p><p>- <em>O Velho e o Mar</em>, de Ernest Hemingway (n&#227;o tem sexo, problemas do casamento nem nada disso: &#233; s&#243; um velho querendo pescar um peixe gigante);</p><p>-<em> Um Ap&#243;logo</em>, Machado de Assis (&#233; um di&#225;logo entre uma linha e uma agulha em que Machado de Assis ironiza o modo como tratamos as profiss&#245;es, os cargos e os t&#237;tulos, mas pode ser de grande aprendizado para as crian&#231;as);</p><p>- <em>A Revolu&#231;&#227;o dos Bichos</em>, George Orwell (extremamente pol&#237;tico, n&#227;o &#233;? Mas a crian&#231;ada se diverte que &#233; uma beleza);</p><p>- <em>A &#193;rvore de Natal na Casa de Cristo</em>, Dostoi&#233;vski (sim ele mesmo! Talvez o menos infantil dos autores. Esse conto, apesar de falar de uma crian&#231;a que v&#234; a m&#227;e morrer e vai definhando aos poucos no frio da cidade grande, &#233; uma &#243;tima leitura com as crian&#231;as);</p><p>- <em>As Mil e Uma Noites</em>;</p><p>- <em>A Legenda &#193;urea</em>;&nbsp;</p><p>- <em>O Jogral de Nossa Senhora e Outros Contos Crist&#227;os da Idade M&#233;dia,</em> organizados por Michael Zink;</p><p>- <em>O Auto da Compadecida</em>, de Ariano Suassuna;</p><p>E v&#225;rias outras obras. Foram escritas para crian&#231;as e adolescentes? N&#227;o. Por que digo que funcionam com essa faixa et&#225;ria? Porque trabalho esses textos com meus alunos. Hemingway e Dostoi&#233;vski s&#227;o &#8220;autores infantis&#8221; por terem escrito uma ou outra obra que crian&#231;as podem ler? N&#227;o. Talvez seja a&#237; que &#8220;<em>O Senhor dos An&#233;is</em>&#8221; e Tolkien se encaixem.</p><p>Tolkien escreveu para crian&#231;as quando quis. Portanto, sem discutir a metodologia ou a perspectiva da an&#225;lise do Pedro, apenas o seu objeto, posso dizer: <strong>a tese parece at&#233; ser interessante, mas &#233; melhor procurar outro autor para estudar &#224; luz desta ideia de &#8220;literatura infantil&#8221;, pois Tolkien n&#227;o se encaixa nela.&nbsp;</strong></p><p>Caso queira analisar livros espec&#237;ficos de Tolkien (n&#227;o um &#8220;autor infantil&#8221;, mas &#8220;livros infantis do autor&#8221;) sugiro &#8220;<em>O Hobbit</em>&#8221;, &#8220;<em>Roverandom</em>&#8221;, &#8220;<em>Ferreiro do Bosque Grande</em>&#8221;, &#8220;<em>Sr. Boaventura</em>&#8221; etc. Nunca &#8220;<em>O Senhor dos An&#233;is</em>&#8221; ou &#8220;<em>O Silmarillion</em>&#8221;.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://matheusaraujo.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscrever-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Matheus Ara&#250;jo - Literatura! Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscrever-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Conto de Natal]]></title><description><![CDATA[&#8220;(...) somente a culpa aumenta a nossa pena.]]></description><link>https://matheusaraujo.substack.com/p/conto-de-natal</link><guid isPermaLink="false">https://matheusaraujo.substack.com/p/conto-de-natal</guid><dc:creator><![CDATA[Matheus Araújo]]></dc:creator><pubDate>Sat, 24 Dec 2022 15:25:56 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!9Pv-!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1fb4a67e-c5e9-4f8b-96c2-8126cfd7c2e4_894x596.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!9Pv-!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1fb4a67e-c5e9-4f8b-96c2-8126cfd7c2e4_894x596.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!9Pv-!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1fb4a67e-c5e9-4f8b-96c2-8126cfd7c2e4_894x596.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!9Pv-!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1fb4a67e-c5e9-4f8b-96c2-8126cfd7c2e4_894x596.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!9Pv-!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1fb4a67e-c5e9-4f8b-96c2-8126cfd7c2e4_894x596.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!9Pv-!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1fb4a67e-c5e9-4f8b-96c2-8126cfd7c2e4_894x596.jpeg 1456w" sizes="100vw"><img src="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!9Pv-!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1fb4a67e-c5e9-4f8b-96c2-8126cfd7c2e4_894x596.jpeg" width="536" height="357.3333333333333" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://bucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com/public/images/1fb4a67e-c5e9-4f8b-96c2-8126cfd7c2e4_894x596.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:596,&quot;width&quot;:894,&quot;resizeWidth&quot;:536,&quot;bytes&quot;:null,&quot;alt&quot;:&quot;Amazon.com: Monastery Icons O Holy Night Nativity of Jesus Christ Mounted  Plaque Christmas Icon Reproduction 24\&quot; x 16\&quot; : Home &amp; Kitchen&quot;,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:null,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:true,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="Amazon.com: Monastery Icons O Holy Night Nativity of Jesus Christ Mounted  Plaque Christmas Icon Reproduction 24&quot; x 16&quot; : Home &amp; Kitchen" title="Amazon.com: Monastery Icons O Holy Night Nativity of Jesus Christ Mounted  Plaque Christmas Icon Reproduction 24&quot; x 16&quot; : Home &amp; Kitchen" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!9Pv-!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1fb4a67e-c5e9-4f8b-96c2-8126cfd7c2e4_894x596.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!9Pv-!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1fb4a67e-c5e9-4f8b-96c2-8126cfd7c2e4_894x596.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!9Pv-!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1fb4a67e-c5e9-4f8b-96c2-8126cfd7c2e4_894x596.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!9Pv-!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F1fb4a67e-c5e9-4f8b-96c2-8126cfd7c2e4_894x596.jpeg 1456w" sizes="100vw" fetchpriority="high"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p></p><blockquote><h5>&#8220;(...) somente a culpa aumenta a nossa pena.</h5><h5>Mas ele (o saber&#225;s) &#233; vida plena&#8221;.</h5><h5><em>O Nascimento de Cristo</em>, Rainer Maria Rilke (trad. Wagner Shadeck)</h5><h5></h5><h5>&#8220;(...) onde teu degredo, / onde teu deserto</h5><h5>v&#227;o morrer, mas v&#227;o, / morrer muito mais perto</h5><h5>da ressurrei&#231;&#227;o".</h5><h5><em>O Segredo</em>, Bruno Tolentino</h5></blockquote><p><br>Esfregava as m&#227;os, logo depois as levava para perto da boca e as soprava com seu bafo quente. A ponta dos dedos estava inchada, os l&#225;bios cortados e ressecados, o nariz perdia a cor. Andava a passos curtos no meio da avenida vazia. Sacudia os bra&#231;os e pernas quando uma lufada de ar passava. Sentia como se fac&#245;es talhassem o corpo e chicotes atingissem a pele. Tentou fumar o &#250;ltimo cigarro para se aquecer, mas n&#227;o tinha for&#231;as para acender o isqueiro molhado.&nbsp;</p><p>&#192; tarde, na televis&#227;o de uma lanchonete, viu o notici&#225;rio: este seria o Natal mais frio da hist&#243;ria de Curitiba. As fam&#237;lias se preparavam para ligar os aquecedores ou compravam a lenha das lareiras. As lojas fecharam mais cedo e os clientes adiantaram as compras na semana anterior. Nunca havia feito tanto frio na cidade nesta &#233;poca do ano - at&#233; as chances de neve eram mais altas.&nbsp;</p><p>Ao cair da noite, salpicada pelas luzes amarelas dos postes, Josu&#233; caminhava pelo centro. Perdeu seus cobertores em uma briga com outros mendigos da Pra&#231;a Tiradentes dias antes. Restou-lhe uma camiseta velha, rasgada nas axilas, e uma japona simples e bem fina que um pi&#225; havia lhe doado h&#225; alguns anos. Seu sapato abriu-se na ponta, de forma que o frio seco endurecia os p&#233;s. Pisou em uma po&#231;a de &#225;gua no ch&#227;o e sentiu um choque percorrer o corpo.</p><p>&#8213; Meu p&#233; vai mofar. Preciso chegar ao abrigo.&nbsp;</p><p>Andou por ruas e vielas vazias. As lojas permaneciam fechadas, como estiveram durante todo o ano, enquanto os enfeites brilhavam nos apartamentos da cidade. Viu, atrav&#233;s dos vidros das varandas, algumas fam&#237;lias comemorando, ceando ao redor das fartas mesas, crian&#231;as correndo e brincando com seus presentes, av&#244;s vestidos de Papai Noel e at&#233; mesmo pessoas sozinhas que passavam a v&#233;spera daquela data assistindo a filmes e comendo pipoca.&nbsp;</p><p>N&#227;o via a sua fam&#237;lia h&#225; tempos. Deixou-os quando ainda era jovem, tinha feito vinte recentemente, e n&#227;o queria ningu&#233;m lhe dizendo o que deveria fazer. Saiu de casa, foi viver em um pequeno apartamento no centro, trabalhando de gar&#231;om em uma doceria. Quando foi pego roubando uma caixinha de doces que levaria para uma paquera, foi posto para fora. N&#227;o conseguiu arranjar bons empregos na regi&#227;o e pulou de bico em bico. Fumava maconha quando tinha alguma grana, mas nem gostava muito, fumava para esquecer os problemas. Veio a pandemia, n&#227;o conseguiu mais nada e sem pagar o aluguel acabou indo para a rua. Ia fazer um ano e n&#227;o se acostumava.&nbsp;</p><p>Ainda incomodava-se com seu cheiro, pois n&#227;o tomava banho h&#225; pelo menos duas semanas. N&#227;o conseguiu navalha velha para fazer a barba e cortar o cabelo. Arranjou ajuda de uma central evang&#233;lica que distribui marmitas &#224; noite no centro e era a &#250;nica vez na semana que conseguia comer bem. N&#227;o gostava do abrigo - hora para dormir, hora para acordar, hora para comer, tomar banho junto com outros mendigos - mas n&#227;o tinha outra op&#231;&#227;o naquele frio.&nbsp;</p><p>Chegou na porta do abrigo encolhido, com o queixo encostado no peito, balan&#231;ando o corpo para tentar se aquecer. Na porta do galp&#227;o acinzentado estavam dois seguran&#231;as, um negro alto e um branco baixinho e careca.&nbsp;</p><p>&#8213; N&#227;o tem mais lugar.&nbsp;</p><p>&#8213; Como? &#8213; disse Josu&#233;, levantando o rosto cansado, mostrando as olheiras protuberantes, sulcos nas bochechas e manchas na testa.&nbsp;</p><p>&#8213; N&#227;o tem mais vaga. &#201; melhor voc&#234; procurar outro abrigo.&nbsp;</p><p>&#8213; Mas voc&#234;s sempre t&#234;m lugar para mais um, n&#227;o t&#234;m? N&#227;o consigo ficar aqui fora no frio.</p><p>&#8213; Presta aten&#231;&#227;o: a prefeitura diminuiu as vagas aqui no abrigo e n&#243;s n&#227;o temos mais lugares. J&#225; te disse que n&#227;o vai ter espa&#231;o, &#233; melhor voc&#234; ir antes que algu&#233;m te veja sem m&#225;scara conversando aqui na frente.</p><p>Josu&#233; baixou o rosto novamente, pensando no que fazer.</p><p>&#8213; Voc&#234; me d&#225; um cigarro, pelo menos?</p><p>O seguran&#231;a mais alto puxou um cigarro bolso e entregou a Josu&#233;.</p><p>&#8213; Fogo?</p><p>Sem paci&#234;ncia, o seguran&#231;a acendeu o isqueiro enquanto Josu&#233; tragava.&nbsp;</p><p>&#8213; Muito obrigado.</p><p>Saiu alegre com o pr&#234;mio de consola&#231;&#227;o que recebera. Percebeu que suas m&#227;os tremiam quando voltavam com cigarro &#224; boca. As juntas dos dedos ficavam cada vez mais inchadas e roxas do frio. Talvez n&#227;o tenha sido uma boa ideia fumar. Come&#231;ava a tossir e sentir o peito chiando. A garganta expelia pus h&#225; um tempo e a dor era como espinhos se retorcendo no pesco&#231;o.&nbsp;</p><p>Continuou a andar meio sem rumo. O melhor a se fazer, nessas horas, &#233; n&#227;o ficar parado. O cansa&#231;o abatia as pernas que bambeavam e os p&#233;s pisavam em falso. Vez ou outra parava e puxava ar, mas sentia todo aquele vento frio preencher seus pulm&#245;es e tossia com for&#231;a. O est&#244;mago vazio h&#225; dias queimava e Josu&#233; contorcia-se de fome. Lembrou-se do pastor que dava marmitas toda noite na pra&#231;a. Rumou naquela dire&#231;&#227;o. N&#227;o tinha rel&#243;gio, mas pela cor de c&#233;u j&#225; passara das 20h. As estrelas cintilavam bel&#237;ssimas como pingos de ouro em um tapete negro. A lua estava cheia como barriga de gr&#225;vida e sua luz prateada se espalhava pela noite. Chegou &#224; pra&#231;a ap&#243;s alguns minutos de caminhada - viu os bancos vazios, as &#225;rvores balan&#231;ando no vento, a grama dos canteiros congelando aos poucos e, ao lado da pra&#231;a, a usual van branca que fornecia o jantar.&nbsp;</p><p>O pastor, parado ao lado da van, vestia um casaco grosso de l&#227;, botas bege e luvas pretas, falava alto, para compensar o som abafado que sa&#237;a da m&#225;scara, em meio a uma turba de mendigos.&nbsp;</p><p>&#8213; Bom, pessoal, hoje eu s&#243; vim aqui at&#233; voc&#234;s para trazer um aviso. Infelizmente nosso programa de distribui&#231;&#227;o de alimentos e aux&#237;lio aos moradores de rua foi suspenso &#8213; automaticamente irromperam xingamentos e alguns dos que esperavam a refei&#231;&#227;o come&#231;aram a dar as costas e ir embora - Calma, pessoal, calma. Por conta desta pandemia, o prefeito da cidade proibiu qualquer a&#231;&#227;o caritativa mais extensa como a nossa.&nbsp;</p><p>&#8213; Filho da puta!</p><p>&#8213; Corno! Ele deve estar comendo um peru nessa hora.&nbsp;</p><p>&#8213; Calma, pessoal &#8213; pediu, novamente, o pastor &#8213; Tentarei viabilizar alguma a&#231;&#227;o dentro dos pr&#243;ximos dias para reverter a decis&#227;o, mas hoje, infelizmente, estamos submetidos a este decreto e se desobedecermos h&#225; o risco de incorrermos em crime.&nbsp;</p><p>Os improp&#233;rios voltaram a ser proferidos e os mendigos come&#231;aram a se dispersar com pressa e raiva. Josu&#233; observava tudo de longe, calado e encolhido. Enquanto o pastor entrava na van, batia a porta e ligava a chave, num movimento r&#225;pido Josu&#233; aproximou-se e tocou o ombro do homem.&nbsp;</p><p>&#8213; Obrigado por ter vindo nos avisar.</p><p>O pastor, desconcertado, olhou seriamente nos olhos de Josu&#233; e depois abriu um leve sorriso.</p><p>&#8213; Que Deus te aben&#231;oe.&nbsp;</p><p>O carro arrancou e saiu jogando fuma&#231;a pelas ruas. Josu&#233; caminhava a esmo, olhava sem muitas esperan&#231;as para os lados, procurando teto ou lugar mais quente. Viu algumas pessoas se agrupando na noite, mas n&#227;o se aproximava delas. As portas dos restaurantes estavam fechadas. Nas casas, a maioria das pessoas dormia e as &#250;ltimas luzes se extinguiam. Procurou algumas sacolas de lixo, rasgou-as com as m&#227;os e come&#231;ou a catar. Revirou pl&#225;stico sujo, cinzas de cigarro, fraldas de beb&#234;, papel higi&#234;nico usado, cascas de fruta, caixas de pizza vazia, verduras mofadas. Encontrou um punhado de comida azeda que comeu sem gosto e com desespero, sem mastigar, engolindo, enquanto tentava raspar com os dedos o resto que se acumulava no saco. Achou garrafas vazias com gotas de &#225;gua e refrigerante que abria e pingava na boca. Quando as gotas chegavam ao est&#244;mago &#233; que sentia o quanto estava vazio, ardia, e do&#237;a como se levasse mordidas, e vinha-lhe automaticamente uma vontade de vomitar, que segurava com for&#231;a, pondo a m&#227;o na cabe&#231;a, sentado no meio fio. Enquanto tentava se recuperar, escutou do outro lado da rua:</p><p>&#8213; Para de sujar a cidade, porra!&nbsp;</p><p>Era um homem, montado numa moto grande, usando um capacete preto e apontando o dedo para ele. N&#227;o respondeu, o sinal abriu e o rapaz foi embora. Levantou-se calmamente e voltou a andar. Percebeu que n&#227;o matara a sua fome nem saciara a sua sede. Fez tanto esfor&#231;o para conseguir aquela comida pouca que agora estava mais cansado, seus bra&#231;os do&#237;am, os espor&#245;es furavam seus p&#233;s como agulhas e a coluna torta estalava a cada passo. Mas a maior dor n&#227;o era a fome nem o cansa&#231;o &#8213; era o frio. J&#225; n&#227;o sentia os dedos dos p&#233;s, os das m&#227;os n&#227;o dobravam mais e seu queixo batia tanto que os dentes restantes pareciam amolecer. Caminhava, vez ou outra ca&#237;a de joelhos, sem for&#231;as, por&#233;m levantava muito devagar e continuava a andar novamente.&nbsp;&nbsp;</p><p>Sentiu um pingo d&#8217;&#225;gua batendo no ombro e esperou que fosse de algum ar-condicionado velho no alto dos pr&#233;dios. Olhou para o c&#233;u que, repentinamente, fora tomado de nuvens negras. Depois sentiu outro pingo, e mais outro, at&#233; que come&#231;aram a descer aos montes. Ensopado, guiava-se pelas raras luzes que via emba&#231;adas atrav&#233;s da cortina de &#225;gua que lhe descia sobre os olhos. Luzes mais fortes apareceram, far&#243;is de carros que iam parando do outro lado da rua. Rumou at&#233; l&#225; e passou a enxergar uma igreja. Era branca, com detalhes em azul As pessoas subiam a escadaria rapidamente, espremidas embaixo dos guardas chuvas, usando ternos, roupas sociais e vestidos longos.&nbsp;</p><p>Josu&#233; recordou-se da av&#243;. Era garoto quando ela o levava, vez perdida, na missa. N&#227;o guardou muita coisa daqueles dias, mas lembrava que achou o sotaque do padre engra&#231;ado, a missa muito longa e chata e em certo momento as pessoas se levantavam para comer. Comer. Automaticamente Josu&#233; prosseguiu at&#233; a escada, apoiou-se no corrim&#227;o e come&#231;ou a subir, degrau por degrau. Percebia que algumas pessoas lhe notavam, mas ele mantinha sempre o olhar para o ch&#227;o. Ao chegar na porta, uma senhora de cabelo curto, &#243;culos retangulares, bem branca, usando uma m&#225;scara verde e com rugas nos cantos dos olhos recebia os fi&#233;is de prancheta na m&#227;o. Para cada um que chegava, ouvia os nomes, conferia na lista e aprovava a entrada. Josu&#233; ficou parado na porta durante alguns minutos at&#233; que ela perguntou:&nbsp;</p><p>&#8213; O que deseja, senhor? &#8213; disse a velha, olhando de baixo para cima.&nbsp;</p><p>&#8213; Gostaria de entrar, por favor &#8213; exprimiu Josu&#233;, com voz muito baixa, olhando para os sapatos e tremendo.</p><p>&#8213; N&#227;o entendi.&nbsp;</p><p>&#8213; Gostaria de entrar, por favor, posso ficar no cantinho &#8213; disse Josu&#233;, mais alto e chegando mais perto.&nbsp;</p><p>&#8213; O seu nome est&#225; na lista?</p><p>&#8213; N&#227;o, senhora.&nbsp;</p><p>&#8213; Infelizmente n&#227;o posso permitir a entrada. S&#227;o exig&#234;ncias paroquiais por ocasi&#227;o do novo protocolo.&nbsp;</p><p>&#8213; Por favor, senhora &#8213; Josu&#233; levantou um pouco a cabe&#231;a e a senhora, ao ver seus olhos vermelhos, desviou o rosto.&nbsp;</p><p>&#8213; Podem entrar &#8213; disse ela dirigindo-se a outro casal que chegava &#8213; N&#227;o depende de mim, s&#243; estou obedecendo a ordem que me deram &#8213; voltando-se a Josu&#233; &#8213;&nbsp; Como &#233; a Missa do Galo e n&#227;o podemos exceder o espa&#231;o delimitado, os lugares foram reservados previamente.&nbsp;</p><p>Aceitando, Josu&#233; deu meia-volta e desceu a escada com cuidado para n&#227;o cair, bem devagar. Sentia seus ossos e nervos congelarem, os m&#250;sculos cada vez mais tesos e o pulm&#227;o doendo. Tossia e a chuva aumentava. Andou entre as pessoas que se dirigiam &#224; igreja com a m&#227;o estirada, na esperan&#231;a de conseguir ao menos uma moeda, mas saiu de l&#225; sem nada.</p><p>Os carros pararam de chegar e a rua estava um breu. Josu&#233; viu um beco escuro ao lado da igreja. No beco, percebeu um pequeno teto e um espa&#231;o embaixo dele onde n&#227;o batia chuva. Tateando nas sombras, Josu&#233; chegou a um lugar que parecia quente em compara&#231;&#227;o &#224; rua. O ch&#227;o estava coberto de palha e logo ele fez quest&#227;o de deitar, encolher-se ao m&#225;ximo e tentar se cobrir com a palha. O frio foi aliviado e as dores diminu&#237;ram. Fechou os olhos. Escutava, ao longe, um choro que parecia ser de um rec&#233;m nascido; logo depois ouviu um canto, muito doce e leve, da m&#227;e que o colocava para dormir. Josu&#233;, embalado pela cantiga, sentiu as dores se aliviarem e a fome se dissipar. Relaxou e, por fim, adormeceu.&nbsp;</p><p>No outro dia de manh&#227; acharam o corpo de Josu&#233;, encolhido como uma crian&#231;a no ventre e branco como um anjo, deitado no pres&#233;pio da igreja, ao lado do Menino Jesus.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://matheusaraujo.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscrever-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Para receber mais textos como este, inscreva-se:</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscrever-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Futebol de Esquerda e Futebol de Direita]]></title><description><![CDATA[Setenta e dois minutos.]]></description><link>https://matheusaraujo.substack.com/p/futebol-de-esquerda-e-futebol-de</link><guid isPermaLink="false">https://matheusaraujo.substack.com/p/futebol-de-esquerda-e-futebol-de</guid><dc:creator><![CDATA[Matheus Araújo]]></dc:creator><pubDate>Fri, 25 Nov 2022 00:50:08 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Ld02!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F30f5a6b9-7b6a-4f11-8608-7beb015e80b5_959x436.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Ld02!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F30f5a6b9-7b6a-4f11-8608-7beb015e80b5_959x436.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Ld02!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F30f5a6b9-7b6a-4f11-8608-7beb015e80b5_959x436.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Ld02!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F30f5a6b9-7b6a-4f11-8608-7beb015e80b5_959x436.jpeg 848w, 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Um a zero. Jogo engasgado. Os brasileiros ainda tensos, pesados. A S&#233;rvia acabara de trazer perigo ao nosso gol. Neymar flutua, olha ao redor, parado, Karajan orquestrando o meio campo. Passa a bola, na ponta esquerda dispara V. J&#250;nior, a Flecha Negra. Com ginga desconcerta o advers&#225;rio. Olha para a &#225;rea, d&#225; um passe - um inaudito passe - de trivela, com a ponta da chuteira e a bola tra&#231;a a sua trajet&#243;ria.&nbsp;</p><p>Richarlison recebe com somente um toque e prepara o chute. Dobra-se no ar, m&#250;sculos retesados, hirtos como os do Disc&#243;bolo de M&#237;ron, e lan&#231;a o petardo. Os instantes que pareceram horas. O torcedor desacreditado foi para a ponta da cadeira, enquanto o mais empolgado j&#225; estava de p&#233; gritando gol e as crian&#231;as, assustadas, corriam pela casa. Chute perfeito, bola na rede, goleiro a catar grama.&nbsp;</p><p>Irrompem urros e brados e choros. Apitos, buzinas, vuvuzelas, cornetas e fogos de artif&#237;cio. A rua ferve e os cora&#231;&#245;es explodem. As gargantas doem e as veias aparecem na testa. Os moleques, que antes corriam pela casa, agora choram de susto enquanto as m&#227;es tentam consol&#225;-los e os pais continuam a gritar. Por um momento esquecemos a presid&#234;ncia, os minist&#233;rios e as secretarias.&nbsp;</p><p>Ou assim eu pensava. Minha infausta inoc&#234;ncia n&#227;o acreditou na exist&#234;ncia dos Canalhas de Esquerda e dos Canalhas de Direita. Os de Esquerda s&#227;o os jornalistas que, de dentro das suas reda&#231;&#245;es, nunca bateram um escanteio. Moram no Leblon e usam um bon&#233; com CPX. S&#227;o as meninas da PUC, cujo pai tem tr&#234;s terrenos no interior do estado parados h&#225; vinte anos esperando valoriza&#231;&#227;o e especula&#231;&#227;o financeira, e vestem camisetas do MST.</p><p>Esses eu vi comemorarem uma les&#227;o. Neymar saiu de campo mancando, uma bola de t&#234;nis no lugar do tornozelo. Quando leio as rea&#231;&#245;es na internet, me espanto. Ignom&#237;nias por todos os lados. As Meninas da Puc e os Boyzinhos do Leblon comemoravam, perniciosa e pernosticamente, o choro do Karajan Tupiniquim. &#8220;Quem mandou apoiar o presidente? Quem mandou ter posi&#231;&#227;o pol&#237;tica? Quem mandou ser negro e n&#227;o concordar conosco?&#8221;&nbsp;</p><p>Ningu&#233;m nas reda&#231;&#245;es prestou aten&#231;&#227;o nos jogos. Por acaso n&#227;o perceberam que os negros brasileiros foram aclamados e aplaudidos por todo o mundo? Quando V. J&#250;nior participou dos dois gols, os Canalhas de Esquerda usavam o celular, foram ao banheiro ou estavam protestando? Por acaso n&#227;o perceberam mais essa vit&#243;ria social?&nbsp;</p><p>Talvez eles n&#227;o achem Neymar t&#227;o negro assim, visto que n&#227;o vota no candidato deles. Comemoraram quando ele, manco, saiu chorando, substitu&#237;do por um branco. Se fosse do lado contr&#225;rio, racismo, com certeza. O tornozelo de Neymar &#233; o calcanhar de Aquiles deles.</p><p>A hipocrisia &#233; repartida democraticamente entre os canalhas pol&#237;ticos. Os de Direita, inflados por um patriotismo sem p&#225;tria, reclamam aos expectadores: como se atrevem a se divertir em tempos sombrios? Como ousam assistir a um m&#237;sero jogo de futebol quando nosso pa&#237;s corre perigo? Parafraseando Llosa em resposta a Sartre sobre fazer literatura em tempos de crise, devolvo a pergunta: Qual &#233; o IDH m&#237;nimo que precisamos para comemorar um gol?&nbsp;</p><p>Gana n&#227;o comemorou quando chegou &#224;s quartas de final em 2010? Os argentinos, afundados em mis&#233;ria, n&#227;o aplaudem Messi? Os sauditas n&#227;o quebraram portas, beberam todas e decretaram feriado nacional com uma m&#237;sera vit&#243;ria? O que h&#225; de t&#227;o especial na situa&#231;&#227;o brasileira que n&#227;o nos permita duas horas de euforia esportiva? Uma ditadura, dizem. Mas, at&#233; onde eu sei, torcemos durante todo o Estado Novo, vibramos em 70, sofremos em 82.&nbsp;</p><p>A diferen&#231;a entre os Canalhas de Esquerda e os Canalhas de Direita &#233; o n&#250;mero de banhos que tomam por semana. Os de Direita querem ser mais limpinhos, s&#227;o intelectuais demais para o futebol. Esquecem-se que Nelson Rodrigues, Jos&#233; Lins do Rego e Ariano Suassuna eram devotos do esporte. M&#225;rio Ferreira dos Santos n&#227;o perdia um jogo do seu time do cora&#231;&#227;o. Gilberto Freyre disse que s&#243; no futebol certos problemas sociais e culturais brasileiros eram resolvidos.</p><p>Para usar a express&#227;o rodrigueana, s&#227;o intelectuais alienados de babar na gravata. Ali&#225;s, neste momento sinto saudades de Nelson Rodrigues. Como ter saudades de algu&#233;m que n&#227;o conheci? Quim&#233;rico pensamento. A emo&#231;&#227;o n&#227;o nega, o choro embolora a garganta ao saber que Nelson n&#227;o est&#225; aqui para responder os canalhas &#224; altura. Sua aus&#234;ncia diminui o Brasil. Gostaria de l&#234;-lo, hoje, a respeito de tudo isso. Resta-me eu, de estilo parco e pobre, a imitar o Velho Nelson.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://matheusaraujo.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscrever-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading Matheus Ara&#250;jo - Literatura! Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscrever-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Sangue Selvagem]]></title><description><![CDATA[Conto de Matheus Ara&#250;jo, escrito por ocasi&#227;o dos 200 anos da Independ&#234;ncia]]></description><link>https://matheusaraujo.substack.com/p/sangue-selvagem</link><guid isPermaLink="false">https://matheusaraujo.substack.com/p/sangue-selvagem</guid><dc:creator><![CDATA[Matheus Araújo]]></dc:creator><pubDate>Mon, 21 Nov 2022 01:02:02 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!eizD!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fee46ba02-6b25-4c54-9184-a867fb5d6483_1170x700.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<blockquote><p>&#8220;Eles eram muitos cavalos</p><p>mas ningu&#233;m mais sabe os seus nomes&#8221;</p><p><em>O Romanceiro da Inconfid&#234;ncia</em>, Cec&#237;lia Meireles&nbsp;</p></blockquote><p></p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!eizD!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fee46ba02-6b25-4c54-9184-a867fb5d6483_1170x700.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" 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n&#227;o retratou a realidade |  Radioag&#234;ncia Nacional&quot;,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:null,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:true,&quot;internalRedirect&quot;:null,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="Quadro mais famoso da independ&#234;ncia do Brasil n&#227;o retratou a realidade |  Radioag&#234;ncia Nacional" title="Quadro mais famoso da independ&#234;ncia do Brasil n&#227;o retratou a realidade |  Radioag&#234;ncia Nacional" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!eizD!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fee46ba02-6b25-4c54-9184-a867fb5d6483_1170x700.jpeg 424w, 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restack-image"><svg aria-hidden="true" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 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Havia trotado por dias a fio. Embrenhou-se por entre os matos, ro&#231;ando o pelo marrom e luzidio em espinhos e galhos, subiu serras batendo os cascos ferozes contra as pedras, caminhou calmamente por campos que pareciam um mar de trigo balan&#231;ando ondas ao vento. Os ecos de seu relincho preenchiam os arredores indicando aos outros cavalos que continuassem subindo. Seus m&#250;sculos definidos, uma est&#225;tua de m&#225;rmore, incitavam os demais a seguirem o l&#237;der. O flutuar da crina negra fazia com que todos entendessem a for&#231;a e a destreza do cavalo do futuro Imperador.&nbsp;</p><p>A comitiva estava cansada. Paravam &#224;s noites e enquanto os homens descansavam nos quartos da fazenda, os cavalos dormiam no curral. O pelo castanho de Nestor, tingido pela lua, tornava-se luminoso, prateado e belo. O rosto era ossudo e firme, os olhos continham a rispidez de um marechal e as patas dianteiras eram parrudas como toras de madeira maci&#231;a. Quando acordava, o pr&#237;ncipe vinha lhe fazer carinho, fazia quest&#227;o de ele mesmo o selar, p&#244;r o estribo e escovar as crinas. Os demais homens que Nestor carregara durante a vida tiveram com ele uma rela&#231;&#227;o impessoal: seus funcion&#225;rios cuidavam de tudo, os cavaleiros somente montavam, cavalgavam, desciam e iam embora. Com Pedro era diferente.&nbsp;</p><p>Um temor tomava o ar dos homens naquele tempo. Um misto de medo, empolga&#231;&#227;o e coragem estampava-se em seus rostos. Em poucos dias subiram serras e montes, cruzaram rios e riachos, visitaram cidades e vilarejos, pararam em estalagens e fazendas, conheceram igrejas e capelas, pal&#225;cios e fortalezas, casas e mans&#245;es. Nestor cortava as profundezas do pa&#237;s comandando a comitiva de cavalos. Os animais intu&#237;am e mostravam para os companheiros, atrav&#233;s dos olhares, que algo muito estranho acontecia.&nbsp;</p><p>Gama Lobo, com seu bigode cheio e torcido, suava, constantemente limpava a testa, por&#233;m, permanecia com o peito aberto e o torso longo, como um quarto de milha robusto. Chala&#231;a caminhava sempre ao lado de Pedro e, mais do que o usual, trocava cochichos, tro&#231;as e palavras com o Pr&#237;ncipe. Oliveira e Mello permanecia s&#233;rio, ao fundo, e mesmo o seu animal s&#243; ouvira dele uma ou duas palavras soltas.&nbsp;</p><p>Nestor percebeu que as discuss&#245;es nas tendas e sal&#245;es eram acaloradas. Via, pelas brechas, as fei&#231;&#245;es firmes e acabrunhadas daqueles homens. Cartas chegavam, outros cavalos sa&#237;am levando mensagens e assim os dias seguiam em um tropel incessante e violento. No ambiente, o odor de guerra. As espadas pediam para ser desembainhadas, os corc&#233;is agitados aguardavam o momento da batalha, os cora&#231;&#245;es dos soldados batiam forte, canh&#245;es a explodir.&nbsp;</p><p>Pedro recolhia-se &#224;s noites. Em meio ao campo, observava as estrelas e nos olhos via-se o reflexo cintilante do cruzeiro. Orava, quieto e calado. As m&#227;os tremiam, os m&#250;sculos retesavam-se e o seu suor era negro como sangue. Nestor, pelas brechas do est&#225;bulo, observava seu cavaleiro.</p><p>Era uma tarde de sol. O Pr&#237;ncipe, no lombo de Nestor, estava interiormente aflito, mas exalava confian&#231;a. Cavalgava lentamente por margens s&#243;brias e sossegadas de um rio sinuoso e sereno. As pedras no ch&#227;o, quartzo e xisto, misturavam-se em meio ao mato verde que subia at&#233; as canelas do cavalo. As &#225;rvores eram frondosas e as folhas das palmeiras abriam-se sobre eles como coroas. Aves gorjeavam, daqui e dali, e seus sons lembravam suaves sinos de natal.&nbsp;</p><p>Num repente, Pedro ordenou a parada. Desceu da sela, assim tamb&#233;m fizeram os seus companheiros que distante dos cavalos se reun&#237;ram em c&#237;rculo. Algu&#233;m trouxe uma carta. O Pr&#237;ncipe a leu, em voz alta, e Nestor via nele a mesma ang&#250;stia das noites de ora&#231;&#227;o.</p><p>Caminhava em c&#237;rculos, ensimesmado, enquanto ouvia os conselhos. Outra carta havia chegado. Leu-a, mais uma vez, aos seus companheiros. A conversa era tensa, o tom subira, e o rosto do Pr&#237;ncipe avermelhou-se. Os cavalos, inquietos, come&#231;avam a relinchar, abanar os rabos, balan&#231;ando as crinas negras. Nestor aproximou-se do debate.&nbsp;</p><p>&#8213; Meu pr&#237;ncipe, n&#227;o h&#225; outra solu&#231;&#227;o, disse Chala&#231;a, retirando a cartola e aproximando-a do peito.&nbsp;</p><p>&#8213; Meu sabre est&#225; ao seu servi&#231;o, meu senhor, afirmou com firmeza Gama Lobo, segurando na bainha.&nbsp;</p><p>&#8213; Assim tamb&#233;m os meus homens, falou Ramos Cordeiro.</p><p>&#8213; E minha tropa, encerrou Rodrigues Jord&#227;o.&nbsp;</p><p>O Pr&#237;ncipe parou de retorcer os bigodes e p&#244;s-se firme em meio aos seus s&#250;ditos. Observou profundamente nos olhos de cada um e notou que o brilho ali presente era muito semelhante a aquele transmitido pelos olhos negros e profundos de Nestor.&nbsp;</p><p>&#8213; Ent&#227;o, &#233; isso.</p><p>Cada um dirigiu-se com veem&#234;ncia aos seus cavalos, inflados de coragem e desejo pelo combate. Comandados por Pedro, subiram um pequeno morro. Desembainharam suas espadas, levantaram-nas para o alto mirando o sol e, impulsionados por uma for&#231;a interior, irromperam gritos retumbantes, que ecoaram por aqueles campos como trombetas, tambores de guerra, trov&#245;es a ribombar pelo c&#233;u.&nbsp;</p><p>- Independ&#234;ncia ou Morte!&nbsp;</p><p>Nestor n&#227;o entendeu o significado daquelas palavras. Mas, dentro de si, explodiu uma sensa&#231;&#227;o inteiramente nova &#8213; lembrou-se dos tempos de mais novo, em que percorria os pastos livremente, veloz e desenfreado, sem rumo ou sem prop&#243;sito, abandonado e s&#243;, e ao mesmo tempo dono daquela terra. Sentiu-se parte das &#225;rvores e das pedras, amigo dos rios e mares, parente das aves e das estrelas. De algum modo era soberano e do alto daquele monte enxergava o sol iluminando Ba&#237;a de Guanabara, a neblina fria sobre os Pampas, o ch&#227;o rachado e espinhoso dos Sert&#245;es. Tudo aquilo era seu e estava sob a sua guarda e o seu comando.&nbsp;</p><p>Nunca mais Nestor se sentiria daquele modo. Ainda carregou o Imperador por um tempo, mas depois a idade chegou. Vieram as doen&#231;as. Curou-se de uma, de outra, mas n&#227;o possu&#237;a o mesmo vigor de antes. O pelo perdeu a cor, as crinas tornaram-se ralas e o rabo n&#227;o tinha for&#231;a nem para espantar as moscas que pousavam em suas feridas.&nbsp;</p><p>Continuou sendo cuidado por um tempo pelos homens do Imp&#233;rio, por honra aos seus feitos. Vez ou outra o Imperador foi lhe visitar, mas depois as visitas cessaram e Nestor sentia-se sozinho. Viu seus amigos morrerem e novos cavalos chegaram, mais fortes e imponentes do que ele j&#225; fora um dia. Caminhava lento, comia devagar e sofria diariamente com as dores da velhice. Uma ru&#237;na viva, parte do passado j&#225; decadente e destru&#237;do.&nbsp;</p><p>Certo dia, enquanto passeava pelo pasto, pisou em falso numa pedra lisa. Sua perna torceu e uma dor atroz tomou conta do corpo. Caiu de lado e o flanco pesado desabou no ch&#227;o num estampido seco. N&#227;o conseguiu andar novamente.</p><p>Carregaram-lhe para dentro do curral. Os homens trouxeram uma foice negra e quando viu a l&#226;mina brilhando, entendeu o seu destino. O olhar de Nestor era profundo, uma gruta escura, e dentro dele era poss&#237;vel enxergar as lembran&#231;as de anos gloriosos. Escorreu-lhe uma l&#225;grima, e apesar disso ele n&#227;o estava triste.&nbsp;</p><p>Lembrou-se do Dia da Independ&#234;ncia. N&#227;o sabia, mas sentia em seu sangue selvagem que sua hist&#243;ria com aquela na&#231;&#227;o n&#227;o havia come&#231;ado ali. Nestor era descendente dos nobres cavalos que lutaram ao lado de Dom Afonso Henriques na Batalha de S&#227;o Mamede; dos cavalos que carregaram Dom Sebasti&#227;o e seu ex&#233;rcito em Alc&#225;cer-Quibir; dos cavalos que viram Santiago Matamoros fazer rolar as cabe&#231;as dos maometanos na Batalha de Clavijo. Era descendente direto dos cavalos que primeiro pisaram na Terra da Santa Cruz, adentraram as matas com os Bandeirantes, lutaram contra os holandeses na Batalha dos Guararapes e subiram aos picos deste mundo virgem. Era filho dos cavalos da inconfid&#234;ncia que carregaram o corpo do Alferes Tiradentes.&nbsp;</p><p>E seus filhos povoariam a na&#231;&#227;o. Sua descend&#234;ncia seria vista levando o General Os&#243;rio na Batalha do Ava&#237; e perseguindo o sangrento Solano Lop&#233;z at&#233; os confins da Am&#233;rica. Seus netos e bisnetos lutariam na Revolu&#231;&#227;o Federalista e veriam o Massacre de Canudos. Lutariam pelo Acre e presenciariam a Guerra do Contestado. Cortariam o Brasil e chegariam a regi&#245;es que Nestor nunca imaginara, desbravariam a Amaz&#244;nia, povoariam os Sert&#245;es e continuariam, por s&#233;culos, servindo a condes, duques, generais, soldados e homens simples.</p><p>Nestor sentiu tudo isso em um instante de claridade que iluminou a sua mente. Logo depois, viu a foice descer sobre o pesco&#231;o.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://matheusaraujo.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscrever-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler. 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