Crônicas da Copa 06: Sem sofrimento não há Graça.
Teologia do sofrimento. Vitória do Brasil sobre o Japão. Videntes do futebol. Mauro César Pereira (de novo). Minha história no futebol. Um poema para Martinelli.
É amplamente conhecido na literatura católica que o sofrimento, e só o sofrimento, nos faz crescer o espírito, engrandecer as nossas forças, erguer a nossa fortaleza. Suportar as humilhações, o achincalhamento, as cusparadas, os disparates, as tristezas e as vaias é condição sine qua non para o desenvolvimento do ser e para alcançar a maturidade.
Nas últimas copas, o Brasil se desacostumou a sofrer. A lembrança do Tri e da seleção de 70 fez toda uma geração crer, da Copa de 2006 para frente, que sempre vencemos dominando, humilhando os adversários e esmigalhando-lhes as cabeças. Esse delírio coletivo, ilusão ostentada pela mídia e por ex-jogadores que, em entrevistas aqui e podcasts acolá, fazem crer que foi tudo fácil e muito mágico, tanto nos custou algumas copas (a de 2006 e a de 2014, em específico) quanto adoeceu as mentes da torcida brasileira.
Sempre esperamos a vitória fácil, sem resistência adversária, o gol sem goleiro, o Golias que vence o Davi sem nenhuma obviedade, peripécia, turning-table. O brasileiro perdeu a noção de sofrimento como etapa para a vitória.
Este sentimento não contaminou somente a torcida, mas também os jogadores. Tão de salto alto e totalmente descrentes da possibilidade de fracasso, entravam em desespero após o gol adversário, uma vez que estar atrás do placar nem lhes passava na cabeça. Daí as desclassificações contra a França de Henry e Zidane, a Holanda de Robben e Sneijder, a Bélgica de Hazard e De Bruyne. Jogadores tremendo diante do gol, pernas bambeando, os primeiros derrotados antes do apito final. Não à toa o Brasil não virava um jogo na copa desde 2002 contra a Inglaterra.
Eu disse anteriormente nestas crônicas que toda vitória passa primeiro pelo inferno. Ulisses e Eneias foram ao Hades; Jonas foi engolido pelo peixe; Hórus cresceu em exílio. Só há graça no sofrimento: quem não vê a derrota frente a frente, com os próprios olhos, não valorizará a vitória, como tantas e tantas vezes já fizemos.
Derrotar o Japão, de virada, no finalzinho, com gols de dois jogadores desacreditados, foi uma fundamental e importantíssima etapa da nossa jornada rumo ao hexa.
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Eu não serviria para ser jogador de futebol. Primeiro, porque não levo jeito para a coisa e não teria a disciplina de um atleta — não à toa estou aqui escrevendo crônicas de futebol enquanto meu romance e meu livro de contos repousam em alguma pasta perdida e empoeirada do meu drive. Segundo, porque eu não saberia suportar, como deve ser a virtude dos vencedores, o sofrimento de uma derrota, de uma injustiça, de uma batalha perdida.
Aliás, não suportei. Explico.
Na infância, jogando como goleiro, fui campeão pernambucano de futsal jogando pelo Clube Náutico Capibaribe (clube pelo o qual, aliás, não torço, mas nutro respeito, apesar do derrotismo e do fracasso que os acompanha desde sempre).
Fazia escolinha de futsal para matar o tempo, me movimentar e porque meu irmão também fazia. Ele levava mais a sério, ficava com raiva se perdia, tentava ganhar de verdade. Eu não ligava muito — conversava sozinho o jogo inteiro, tinha a mania de ficar pendurado na trave e, quando aparecia algum lance de perigo, me jogava em cima da bola, e às vezes dava certo. Por dar certo algumas vezes é que me chamaram pra equipe principal.
Naquele momento, pensei que ia ganhar uma grana, ficar milionário, viver uma vida dos sonhos do gato do Pica-pau (cem mil dólares… mulheres… automóveis… mulheres… iates…). Ainda cobraram uma taxa a mais dos meus pais.
Ao fim de tudo, era bom. Fazíamos viagens pelo estado, de ônibus pra lá e pra cá, tínhamos uma torcida fiel (repleta de pais empolgados com o jogo dos seus filhos) e, como falei, até fomos campeões.
Mas a hierarquia me agoniava. Éramos dois goleiros — o outro, menino mais velho que eu em um ano, havia entrado antes na equipe e permanecia titular. O problema é que não tinha cara de goleiro. Certeza que hoje ele deve mexer com TI ou farmácia. Ele, titular. Eu, reserva. Em geral, eu entrava em muitos jogos; por um lado pela rotatividade, por outro porque o cara engolia todo o tipo de frangaço imaginável.
Mesmo assim, com a teimosia de um técnico falido, de um Abel Braga em fim de carreira, o professor o mantinha. Eu, aspirante a jogador provocador e incomodado, questionava. A resposta era: hierarquia.
Se ao menos eu fosse pior, vá lá. Me pediram paciência. Eis o jogo: Santa Cruz X Náutico. Se não me engano, semifinal de outro campeonato pernambucano. Primeiro tempo: tomamos 6. Ou melhor, o outro goleiro tomou. A bola passando entre ele e a trave, pelo meio das pernas, escorregando entre as mãos. A intimidade dele com a bola era a de uma tainha com um apontador de lápis.
Entro no intervalo para tentar não levar mais seis. E não levamos. Apesar do outro time ser muito melhor do que o nosso e continuar a atacar, não levamos gol. Devo ter feito umas dez defesas. Nosso time, desfalcado, só fez um. Perdemos, desclassificados por uma atuação ridícula e uma insistência na derrota anunciada.
Quando questionei de novo sobre a titularidade, a resposta era a mesma: hierarquia. Bom, que ficassem então com a hierarquia. Depois de algum tempo, saí do time, de desgosto de jogar.
Nunca me passou de novo pela cabeça que eu tivesse futuro no futebol. Se o leitor pensou nisso, esqueça. O “e se…?” não se aplica.
Ano passado, fui jogar futsal com uns amigos. Formamos time, 2 gols ou 10 minutos, vaquinha pra pagar o campo, aquela coisa toda.
Três meses depois, numa saída para dividir uma bola com um atacante (sim, eu sou o tipo de goleiro que sai da barra, que no escanteio espera no meio de campo para chutar, etc.) fui eu para um lado e meu joelho para o outro. Caí de ladinho, que nem peixe fora d’água, sem conseguir mexer a perna direita. Na minha cabeça, era tipo a cena do Fenômeno no chão. Gritei pra cacete, dor miserável.
A patela voltou pro lugar quando os socorristas me puseram na ambulância. Um mês sem andar direito. Eu já sabia: havia acontecido dez anos antes e os médicos disseram que tenho a patela solta. Não devia ter jogado — era melhor ter se mantido fiel à desistência de criança.
Enfim, a natureza se impôs. Hierarquia.
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Já tivemos grandes videntes do futebol. Polvo Paul é, talvez, o melhor deles. Já tivemos também tartarugas, gatos, elefantes, rinocerontes, tamanduás-bandeiras, orcas, focas, ornitorrincos. Todos muito divertidos, apesar de só o Paul acertar tudo.
Agora a internet está infestada de astrólogos cretinos e tarólogos palpiteiros, que dão qualquer palpite genérico com texto de chat GPT e ainda conseguem errar.
Pior ainda é o matemático alemão. Eu respeito mais os astrólogos do que os matemáticos quando se trata de futebol. Pelo menos, há algo de mais mágico, misterioso, de destino, de “está escrito nas estrelas”. O matemático, além de ser chato, quer falar de probabilidade no futebol.
Haja saco.
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Também estou de saco cheio de Mauro César Pereira. Tanto estou que não consigo não falar mal dele em qualquer oportunidade. Estou me sentindo Salieri, no fim da vida, resmungando contra um Mozart famoso por todo o lado. Com a diferença de que o meu Mozart não é um gênio e sim um falastrão.
Mauro César Pereira não parece que dá bom dia para o porteiro.
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Martinelli O herói do improvável Escondido entre a defesa — A víbora e a sua presa, Kamikaze inevitável — Faz o gol sofrido, no fim, Da loucura o estopim De uma torcida agônica Descrente da vitória Em sua luta nipônica, Lembrando-nos, com raça, Que só quem sofre chega à Graça.
Desaprendemos a elogiar. Elogiar exageradamente. O Brasil vence o Japão de virada, de maneira épica e heroica, a partir da superação, criando casca e resiliência. Mas nossos maravilhosos comentaristas não consegue elogiar uma atuação, uma camisada sinistra, resultado da raça e da força.
Devemos saber elogiar. E quando elogiar, precisamos esquecer todos os mas, os apesares, os “veja só”, os “por outro lado”. Até para aprender a xingar. Só sabe xingar completamente quem sabe elogiar completamente.
Mauro César Pereira não sabe elogiar.


Parabéns pelo ótimo texto, bem escrito e envolvente. Apesar de não gostar de futebol, segui atento até o apito final. Valeu!
Esse jogo foi bom que mostrou pra todo mundo como é torcer pelo Vascão. Dá-lhe Vasco!